Marco Silva em entrevista a A BOLA em 2025: «Gostava de voltar a disputar competições europeias»
Marco Silva foi oficializado no Benfica no passado dia 9 de junho e um dia depois já estava no Seixal, a conhecer os cantos à nova casa. Nos primeiros dias do treinador ao leme do clube da Luz, A BOLA recorda alguns momentos de uma entrevista do jornalista José Manuel Delgado ao técnico em março de 2025, na qual este manifestou saudades dos grandes palcos e revelou planos para o futuro.
— Onde é que se vê daqui a uns anos, quando tiver chegado aos 60, que é uma idade em que o treinador simultaneamente é jovem para a função, mas também já muito experiente?
— Não consigo dizer. Quero estar ao mais alto nível, é óbvio, e tudo farei para que isso aconteça.
— E o que é, para si, estar ao mais alto nível?
— É continuar nas melhores ligas, a disputar semanalmente os jogos contra treinadores de alto gabarito, contra equipas que constituem desafios todos os fins de semana, e é isso que eu sinto na Premier League. Os jogos são sempre um desafio e têm de ser preparados ao pormenor. É verdade que já o fazia quando estava no Estoril, mas o desafio agora é maior, mais aliciante, porque há sempre uma estratégia do outro lado, há sempre pessoas muito capazes, e treinadores de top.
— De que sente mais falta?
— Sinto que está para breve consegui-lo, mas gostava de voltar a disputar competições europeias. Não o tenho feito por opção de carreira, porque já recebi vários convites de clubes que jogam na UEFA, mas a verdade é que, à terceira época de treinador no Estoril já estávamos na Europa League, e depois, quer no Sporting, quer no Olympiakos, joguei a Champions League. Confesso que sinto falta disso, porque se trata de algo que preenche um treinador.
— O treino para si já é um vício, porque fala como alguém que não tem nenhuma dúvida de que daqui a 13 anos vai continuar a exercer a profissão?
— É apaixonante, quando vou para o treino, vou entusiasmado, tenho um plano para aquele dia, existe um plano para a semana, e o objetivo é sempre melhorar a equipa, e ao mesmo tempo melhorar os jogadores. E é importante analisarmos o que foi o nosso trabalho e sermos críticos connosco, para, a partir daí, prepararmos ainda melhor os jogos que se seguem. Mas sim, trata-se de um vício que cumpro com grande paixão.
— Dorme bem nas vésperas dos jogos?
— Na véspera durmo muito bem, depois do jogo nem tanto, muito pela adrenalina. Mas, sinceramente, até posso dizer que o dia anterior ao jogo é aquele dia em que durmo mais horas. É verdade que normalmente não tenho problemas com o sono, mas o dia anterior ao jogo é aquele em que descanso mais.
— Em que momento é que decidiu abraçar a carreira de treinador? Quando é que esse clique se fez na sua cabeça?
A partir dos 26, 27 anos, comecei a tentar perceber o porquê de muitas questões tentando entender o outro lado, não só o nosso, enquanto jogadores, numa altura em que somos um pouco egoístas, e damos mais importância ao individual do que ao coletivo. Aos 28 anos, já tinha tirado o segundo nível de treinador, comecei a interessar-me cada vez mais, e só não fui mais longe porque era impossível, como jogador, ter acesso ao nível 3, muito menos ao UEFA PRO. Recordo boas conversas que tive com os treinadores, e a partir dessa altura percebi que devia estar preparado caso surgisse a oportunidade de enveredar por uma carreira diferente.
— Como é que mudou o futebol desde que se iniciou como jogador na formação de Cova da Piedade, em 1992, até aos dias de hoje?
— É tudo tão diferente que é quase impossível comparar. É verdade que o jogo continua a ser de 11 contra 11 com uma bola no meio, mas basta recuar dez anos e já vejo uma diferença enorme. A velocidade a que se joga, e a que tem de se pensar, aumentou exponencialmente, e acredito que a capacidade de definição, hoje em dia, atinge patamares que são decisivos num jogo de futebol. Quem define melhor, e consegue fazê-lo com rapidez, tem uma influência muito grande no jogo. Esses são os melhores jogadores, e naturalmente os que formam as melhores equipas.
— A intensidade mudou muito?
— Mudou. Taticamente o jogo está muito mais difícil, porque cada vez há uma avaliação muito mais aprofundada das equipas, a que acrescem a velocidade e a intensidade a que se joga, que acabam por fazer a diferença. Hoje não há segredos para ninguém, os adversários são analisados ao mais ínfimo pormenor, e depois são detalhes, que passam pela intensidade, velocidade e capacidade de definição, que são decisivos num jogo de futebol.
Foi José Mourinho quem nos abriu as portas
— José Mourinho abriu as portas aos portugueses na Premier League. Depois dele, outros seis treinadores nacionais trabalharam na prova. Como é que o técnico luso é visto em Inglaterra?
— Sem dúvida que somos bem vistos. E todos concordamos que a influência do José Mourinho foi transcendente. Depois de ter ganho o que ganhou em Portugal, chegar a Inglaterra, ter aquela entrada triunfante e colocar o Chelsea a jogar e a vencer títulos 50 anos depois, acabou por ser fundamental para a chegada de outros treinadores portugueses. Seguiu-se o André Villas-Boas, que tinha vencido a Liga Europa, e eu fui o terceiro a chegar. Mas foi o José Mourinho quem nos abriu as portas...
— Falou com ele na altura em que ingressou no Hull City?
— Sim, falei. Na altura falei, mas já tinha conversado com ele antes, aquando da minha primeira aventura no estrangeiro, no Olympiakos. Pouco tempo depois de ter chegado ao Hull City tive dois confrontos com o Manchester United, fomos eliminados na Carabao Cup e empatámos a zero em Old Trafford.
— Depois das Big Five, o Championship é o sexto campeonato com maior número de espectadores da Europa...
— O interesse é muito grande, há clubes fortes e poderosos no Championship,e mesmo na Ligue One,- estamos a falar da segunda e terceira divisões de Inglaterra, - e os jogos passam numa sexta-feira à noite, num sábado ao meio-dia, ou num domingo às quatro da tarde, e têm um acompanhamento muito grande, porque, como eu disse há pouco, são clubes de grande dimensão. O adepto acompanha o Real Madrid, o Barcelona, o Bayern ou o Inter, mas está muito mais virado para aquilo que é o futebol inglês.
— O futebol de hoje, simplificando é este que vou resumir: pressão alta, pouco espaço entre linhas e ataque rápido.
— Esse é um bom resumo do que se passa. Há várias formas de se querer ganhar um jogo de futebol, e eu respeito e acredito em muitas. Tenho a minha identidade, é aquela que persigo, é aquela que faz com que os jogadores acreditem, mas reconheço que há várias formas de lá chegar e reconheço o mérito a todas elas. É óbvio que, devido à circunstância de muitas equipas quererem construir, hoje em dia, a partir de trás, uma das formas de contrariar ou tirar algumas vantagens é a pressão alta. Acho que é lógico. Quanto mais as equipas querem construir, a partir de trás, usando o guarda-redes, uma das formas de contrariar e, ao mesmo tempo, tirar vantagem, é uma pressão alta. Daí haver tantas equipas a fazê-lo. E depois as restantes coisas vêm por consequência. Se queremos pressionar alto, tem de haver pouco espaço entre os setores. E depois, quando se ultrapassa essa pressão, se pudermos atacar rápido a equipa adversária, porque há muito espaço nas costas, vamos fazê-lo naturalmente. E se recuperarmos a bola alto, também, porque estamos perto da baliza adversária, tentamos fazer uma transição ofensiva rápida. Acho que são coisas que são inerentes umas às outras. Mas cada vez vê-se mais, no momento defensivo da maioria das equipas, algo que é característico do futebol italiano, que é muita marcação individual. A Atalanta tem sido um bom exemplo e em Inglaterra cada vez se vê mais.
— Há algum treinador que lhe tenha servido de modelo?
— Eu não tenho apenas um treinador que me tenha servido de modelo, aprendi com muitos e acredito que os meus jogadores vão tirar alguma coisa de mim. Primeiro Carlos Queiroz, e depois José Mourinho, abriram outros horizontes para aquilo que era o processo de treino. Depois o Guardiola, contra quem já joguei tantas vezes, também teve um impacto tremendo quando apareceu aquele Barcelona dele. Por isso, não posso identificar apenas um...