Rute Cardoso, viúva de Diogo Jota

Dedicar o Mundial à Rute

Há pessoas que fazem o caminho das pedras e transformam cada passo num brinde à vida. A esposa de Diogo Jota é uma delas. Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do meu Livro do Desassossego

Comoveu-me profundamente a carta que Rute Cardoso escreveu a Andy Robertson, capitão da Escócia e antigo companheiro de equipa de Diogo Jota no Liverpool. Robertson dedicou o apuramento escocês para o Mundial à memória do amigo português. Rute respondeu-lhe com palavras de rara beleza: agradeceu o gesto e pediu-lhe que mantivesse viva, durante o Mundial, a memória dos sonhos que ambos partilharam, sabendo que aquele seria o primeiro Campeonato do Mundo de Diogo Jota. E, na verdade, continua a sê-lo. 

Quanto mais conheço de Rute Cardoso, mais a admiro. Pelas palavras que diz. Também pelas que escolhe guardar. Pelo recato, pela dignidade, pela serenidade com que tem atravessado o luto. A dor. As perguntas para as quais não encontra respostas. Foi através dela que percebi melhor a beleza daquela relação: uma cumplicidade rara, luminosa, quase improvável em tempos tão apressados. Tão jovens e tão adultos. 

Rute não se deixa definir pela tragédia. Define-se pelos valores que partilhou com o homem que ama e que hoje transmite aos filhos. Há pessoas que transformam a dor em amargura; outras transformam-na em legado. Rute escolheu o caminho das pedras. É mais difícil, mas mais belo. Por isso, tenho um pedido a fazer à Seleção: dedique este Mundial não apenas à memória de Diogo Jota, mas também à presença silenciosa de Rute Cardoso. À sua coragem, à inteligência, ao imenso coração, à luta diária para preencher vazios. Enterrar quem mais amamos é talvez a mais dura das derrotas que a vida nos impõe. Levantar-se na manhã seguinte, cuidar dos filhos, honrar a memória de quem partiu e continuar a acreditar no futuro é uma das maiores vitórias que um ser humano pode alcançar.

Quando António José Seguro pediu aos jogadores que jogassem por Diogo Jota e que cuidassem uns dos outros, acredito que é exatamente isso que acontecerá. Porque há equipas que são mais do que um conjunto de atletas; tornam-se famílias. E poucas seleções no mundo possuem um sentido de pertença tão genuíno como a portuguesa. Acreditem no que vos digo. Pelo que vi ao longo da minha carreira de jornalista, com destaque para o Europeu de 2016; pelo que me contam outros jornalistas e jogadores; e pelas informações que fui recebendo por portas travessas de quem me podia contar o que se passava no ciclo privado da seleção.

Brindemos, pois, à Seleção. Brindemos ao Diogo. Brindemos à Rute. E brindemos também a todas as mulheres anónimas que, longe dos holofotes, enfrentam diariamente as suas batalhas, transformando cada gesto, cada escolha e cada passo num brinde à vida. Para Kahlil Gibran, escritor libanês e americano (1883-1931), «quanto mais fundo a dor escava o vosso ser, mais alegria podereis conter.» E talvez seja essa a mais difícil e mais bela vitória dos que veem partir quem amam: continuar a viver de modo que o amor permaneça.

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