Luisão, antigo capitão do Benfica
Luisão, antigo capitão do Benfica

Luisão: «Gente de dentro do Benfica colocou o meu caráter em dúvida»

Antigo capitão das águias abordou novamente caso entre Prestianni e Vinícius Júnior e recordou passagem pela Luz, destacando Jorge Jesus

Luisão, antigo capitão do Benfica, abordou vários momentos da sua carreira, desde a sua longevidade na Luz, a relação com treinadores como Jorge Jesus e Luiz Felipe Scolari, e a sua posição no caso que envolveu Prestianni e Vinícius Júnior.

Atualmente com 45 anos e comentador nos canais ESPN, o antigo central brasileiro recordou as 15 épocas consecutivas ao serviço do Benfica, onde se tornou o jogador com mais títulos na história do clube (20) e o capitão com mais de 500 jogos disputados.

Questionado sobre a sua longa permanência no Benfica, Luisão revelou que recebeu propostas de outros clubes com frequência, mas a decisão de Luís Filipe Vieira, presidente na altura, foi sempre a de o manter no clube.

A cada ano, a cada dois anos, tinha propostas de outros clubes. Eu atribuo a longevidade ao presidente da altura , Luís Filipe Vieira, que não aceitava. Vou dar um exemplo: chegou uma proposta da Juventus e eu adorava a Juventus, porque um defesa em Itália evolui muito. Fui falar com  o presidente e ele mandou-me para aquele lugar (risos), disse que não queria saber. Via-me como um jogador de confiança e que quando contratava os jogadores, eu estava ali para fazê-los crescer. Mas houve várias propostas. O Camacho, por exemplo, é um treinador espanhol que saiu dali, queria levar-me para o Real Madrid, ele não deixou», afirmou, em entrevista ao Flashscore, explicando que Luís Filipe Vieira o via como uma peça fundamental para o crescimento dos novos jogadores: «Quique Flores foi nosso treinador também e depois foi para o Atlético Madrid. Ligou-me próximo do Mundial 2010, a dizer que me queria levar para lá. O presidente também não deixou. Mas eu não ficava chateado porque eu pensava pelo lado de deixar um legado.»

Jorge Jesus, o melhor treinador

Luisão não hesitou em eleger Jorge Jesus como o melhor treinador com quem trabalhou, partilhando uma história marcante do início da sua relação. «Chamou-me ao gabinete e disse: 'olha, se eu estivesse num clube e me oferecessem o teu nome, eu não te contrataria. Agora eu vou-te ensinar a jogar'», recordou. A autoridade do técnico convenceu-o a seguir as suas indicações à risca, o que resultou numa evolução tática notável: «Ensinou-me uma maneira da defesa jogar que era toda em linha... Tinha uma frase que ele usava até à exaustão no treino: 'se um dia apagar a luz, eu quero que a minha equipa jogue no escuro e toda a gente sabe onde está toda a gente'. E era verdade.»

No entanto, o antigo capitão reconheceu que a abordagem de Jesus tinha um lado menos positivo. «Ele não sabe lidar tanto com o lado humano dos jogadores. Dentro de campo é um pouco bruto», explicou, acrescentando que essa «maneira enérgica de falar transformava em pressão nos jogadores» mais jovens. Fora de campo, porém, descreve-o como alguém «de um coração enorme».

A lição de Scolari e a defesa de Vinícius Júnior

Outro treinador que marcou a sua carreira foi Luiz Felipe Scolari, que o lançou na equipa principal do Cruzeiro. Luisão recordou um episódio em que foi expulso de um treino por insultar o adjunto Murtosa e pensou em desistir. No dia seguinte, foi chamado à equipa profissional, onde Scolari lhe deu uma «lição de humildade» que carrega até hoje. «Disse que se eu tivesse aquele comportamento, não ia ser ninguém no futebol. Assimilei e transformei numa humildade para a vida», confessou.

Mais recentemente, Luisão defendeu publicamente Vinícius Júnior no episódio com Prestianni. O antigo internacional brasileiro afirmou ter «100% de convicção» de que tomou a posição correta, apesar de ter sido uma situação delicada. «Não foi fácil porque foi um jogo contra o meu ex-clube. Mas em nenhum momento eu fiquei contra a instituição. Fiquei contra o ato em si», concluiu.

O antigo capitão do Benfica abordou a polémica em torno do racismo no futebol, criticando a UEFA pela sua gestão do caso de Prestianni e recordou os ataques que sofreu por parte de adeptos benfiquistas nas redes sociais, contrastando com o apoio que sentiu nas ruas de Lisboa.

O antigo internacional brasileiro considera que a punição aplicada pela UEFA a Prestianni foi «um pouco mentirosa» e insuficiente. O organismo que rege o futebol europeu não sancionou o jogador por racismo, mas sim por homofobia.

«foi uma maneira de camuflar e tudo continua na mesma coisa, vai acontecer de novo. Isto foi uma maneira da UEFA não se expor e camuflar o que foi mais grave, que foi o racismo. Na minha opinião, a UEFA foi infeliz», afirmou, acrescentando que a causa «tinha que ficar clara e não ficou».

Luisão defende que Vinícius Júnior é alvo de um duplo preconceito em Espanha. Para além do racismo, o facto de ser «um brasileiro negro a brilhar num dos cinco principais campeonatos do mundo» gera desconforto. «É difícil para as pessoas admitirem isso. É difícil ver um negro brasileiro que saiu de onde saiu e está a brilhar no campo. Então, ele sofre, na minha opinião, dois racismos. Racismo pelo país de onde saiu e da situação que saiu», explicou.

O antigo defesa-central recordou também a reação hostil que enfrentou por parte de alguns adeptos do Benfica nas redes sociais, onde foi alvo de insultos racistas e chamado de «Judas».

«Um ou outro apoio, o resto insultou, chamaram-me de macaco, de Judas, 'não voltes mais no clube, sai do mural'. Só que os números dizem, né? Não querendo ser orgulhoso demais, mas eu sou o segundo jogador com mais jogos, o primeiro jogador com mais títulos. E quando eu cheguei lá, o Benfica estava às traças. Mas em Lisboa a coisa foi diferente. Quando fui lá e andei na rua, toda a gente dizia, 'eu sou benfiquista, parabéns pelo teu comportamento. Foi corajoso e tal'. Porque uma coisa é a rede social, mas quando eu estive no país para ter o termómetro, respeitaram-me», contou, rematando sobre o assunto: «Em nenhum momento eu fiquei contra a instituição [Benfica]. Fiquei contra o ato em si. Foi duro porque foi porrada de tudo quanto é lado nas minhas redes sociais, inclusive gente de dentro do Benfica colocou o meu caráter em dúvida indevidamente, mas eu tenho que orgulhar meu pai e minha mãe, não tenho que orgulhar o adepto, ou ficar em cima do muro.»

Recordando os avançados que mais o preocupavam, o antigo jogador confessouque não conseguia dormir na véspera de defrontar Cristiano Ronaldo. No entanto, a história mais marcante envolveu a seleção francesa. Em 2004, num particular do Centenário da FIFA, foi chamado à titularidade por Parreira à última hora, devido às lesões de Juan e Roque Jr. «Liguei a televisão do quarto depois, era Henry, Zidane, faziam golos de tudo quanto era forma, eu só pensei: 'Amanhã eu vou jogar e depois nunca mais volto para a seleção brasileira'.»

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