O ‘ranking’ da UEFA
Portugal, num feito digno de registo nas páginas da sua história futebolística, acaba de ultrapassar os Países Baixos no ranking da UEFA, assegurando, assim, mais um representante direto na Liga dos Campeões de 2027/28. Tal proeza, (até agora apenas a Inglaterra logrou superar-nos, em pontos, na época de 2025/26), é fruto das grandes prestações do Sporting, FC Porto e SC Braga, a par de um despertar tardio do Benfica. Lamenta-se, todavia, a ausência de representantes na Liga Conferência, lacuna que se revela incontornável, e que nos faz depender dos quatro clubes mais poderosos. A macrocefalia que caracteriza o futebol português permite-nos, não raras vezes, façanhas dignas dos “Mosqueteiros”: Sporting, FC Porto e Benfica, com o SC Braga a assumir o papel de “D’Artagnan”. Todavia, uma análise desapaixonada não pode iludir-se quanto ao desequilíbrio que grassa na competição interna, tornando o produto da I Liga pouco sedutor, realidade esta que, no atual momento de debate em torno da venda centralizada dos direitos televisivos — impulsionada, em parte, pelo acordo firmado entre o Benfica e a NOS —, não pode ser negligenciada.
Tomemos, pois, as derradeiras cinco temporadas como referência ilustrativa:
2020/21 - O quarto classificado, SC Braga, terminou a sua campanha a 21 pontos do campeão, Sporting. Por sua vez, esse mesmo quarto classificado distou 21 pontos do sétimo, o Vitória Sport Clube.
2021/22 - O Sporting, então quarto classificado, ficou 13 pontos aquém do campeão, Benfica, e, de igual modo, 28 pontos acima do sétimo, Desportivo de Chaves.
2022/23 - Novamente o SC Braga ocupou a quarta posição, ficando a 21 pontos do Sporting, campeão nacional. Por sua vez, deixou o sétimo classificado, Vitória Sport Clube, a igual distância.
2023/24 - O SC Braga, persistente no quarto posto, registou uma diferença de 21 pontos para o Sporting, líder, e 22 pontos para o Arouca, sétimo classificado.
2024/25 - Na mais recente temporada, o SC Braga, mantendo-se na quarta posição, ficou a 16 pontos do Sporting, consagrado campeão, e 19 pontos acima do Famalicão, sétimo colocado.
Esta gritante disparidade urge ser combatida, sob pena de se inviabilizar a rentabilização do produto televisivo que se ambiciona transacionar. Mais ainda, impõe-se reconhecer que os amantes do futebol em Portugal acorrem fervorosamente aos estádios sempre que o espetáculo se revela promissor. No entanto, a verdade crua é que os embates entre clubes dos dois terços inferiores da tabela classificativa deixam, quase invariavelmente, muito a desejar.
Solução? Melhores jogos proporcionam receitas mais avultadas de bilhética e direitos televisivos; com um bolo financeiro mais substancial, e por via de uma venda centralizada, poder-se-á concretizar uma distribuição de verbas que mitigue as assimetrias existentes.
Como lá chegar? É urgente que se estude e discuta, para que possam ser implementados quanto antes, novos modelos competitivos para o futebol profissional. Relembre-se, a título de exemplo, a Liga 3, que protagonizou um salto qualitativo assinalável após abandonar a fórmula arcaica que a regia. E, suplica-se, não se usem as proezas desta temporada dos grandes do nosso futebol na UEFA como pretexto para a inação. Ao nosso campeonato, marcado pela macrocefalia, não falta, por essência, cabeça; faltam-lhe, sim, pernas vigorosas para correr ao ritmo dos mais fortes.