Fernando Eugénio Pacheco Mamede
Fernando Eugénio Pacheco Mamede. Grande entre os grandes. Enorme entre os enormes. Imortal como os imortais. Era assim que o via. É assim que o vejo. É assim que sempre o verei. Era assim que Portugal o devia ver. Mamede misturou excelência com mediocridade, céu com inferno, alegria com tristeza, recordes com desistências.
Tinha dois corações. Um que toda a gente conhecia: batia bem devagar, tão devagar que lhe permitia chegar perto do fim das provas como se estas ainda estivessem no início. A medicina chama-lhe bradicardia. Eu chamo-lhe genética ímpar. O outro coração era conhecido de poucos: generoso, altruísta, brincalhão. A psicologia chama-lhe ingenuidade. Eu chamo-lhe amizade. Morreu a 27 de janeiro e pelos vistos, na mente de alguns, já teria morrido há muito, tão fraquinhas foram as homenagens que lhe foram prestadas.
Mas o jogo de Alvalade, o Sporting–Nacional, acabou, de algum modo, por ser uma homenagem a Fernando Mamede. Desde logo, claro, pelo minuto de silêncio (dava para ele, nos bons velhos tempos, dar uma volta à antiga pista verde e ainda correr mais uns bons metros). Depois, quase como no recorde do mundo de Estocolmo, em que tanto tempo FM andou atrás de Carlos Lopes, o Sporting entrou mal no jogo e continuou assim até muito tarde. Porém, como Mamede nesse famoso recorde dos 10 000 metros, em julho de 1984, os leões começaram, pouco a pouco, a acordar e, ao minuto 72 (1972: ano dos primeiros Jogos Olímpicos de FM), chegaram ao golo por Pedro Gonçalves.
Quatro minutos depois (dava para ele dar quatro voltas à pista), porém, balde de água fria em Alvalade, como Mamede na final olímpica de Los Angeles-1984: golo do Nacional. O Sporting, a exemplo de Mamede, oscilava entre o ótimo e o medíocre. Mas ainda havia a ponta final. Os últimos 400 metros. Ou, como em Alvalade, os últimos 14 minutos. Ou nos últimos 200 metros. Ou nos últimos segundos. E foi mesmo na ponta final do jogo, aos 90+6’, que Luis Suárez marcou e o Sporting ganhou. Na pontinha final. Como Mamede na Suécia. Como Mamede em Alvalade. Como Mamede na Noruega. Como Mamede no Estádio Nacional. Como Mamede, um pouco por todo o Mundo.
Não era apenas uma vitória nacompensação. Era o quarto triunfo seguido nos últimos minutos: PSG (90’), Arouca (90+6), Ath. Bilbao (90+4) e Nacional (90+6). Era uma sequência à Mamede: ganhar, ganhar e ganhar nas pontas finais. Foi assim em tantas e tantas provas, em tantas e tantas pistas, frente a tantos e tantos adversários. Místico. Quase como o primeiro golo do Benfica após a morte de Eusébio (minuto 13, frente ao FC Porto; 13: número do Pantera Negra no Mundial de 1966). Ou o primeiro golo de Anísio em dia de aniversário de Eusébio. Ou o golo de Ronaldo aos 21' no primeiro jogo de Portugal após a morte de Diogo Jota.