Roberto Martínez e Cristiano Ronaldo durante o Campeonato do Mundo - Foto: Imago
Roberto Martínez e Cristiano Ronaldo durante o Campeonato do Mundo - Foto: Imago

Triste fado

'Sentido de pertença' é o espaço de opinião em A BOLA de André Coelho Lima, jurista, empresário e associado do Vitória SC

1 «Temos dos melhores jogadores do Mundo, estão a jogar nas melhores equipas do Mundo mas… falta-nos equipa», eis a frase com que iniciei a minha última crónica, após o jogo com a Colômbia, no final da fase de grupos, e que bem pode classificar a campanha portuguesa no Mundial.

O que mais frustra é olhar para as outras equipas que se encontram nas meias-finais e, com exceção da França — claramente superior a todas as demais —, Portugal tem um plantel não apenas à altura como capaz de superar as seleções que aspiram a vencer. Olhando posição a posição, em medida, por exemplo a Argentina tem melhores jogadores e melhores soluções do que Portugal? Não tem. Mas tem coletivo, tem ambição, tem hábito de vencer, impõe a si própria a obrigação de lutar sempre para vencer.

Essa é, creio, a principal diferença. Portugal precisa de vocação vencedora. De entrar em campo sabendo ter o dever de disputar os campeonatos em que se envolve. De os seus jogadores sentirem esse empoderamento. Isso obtém-se com vitórias. Recordo-me de Espanha ser aquela seleção que podia sempre vencer mas nunca chegava lá, até ganhar. Uma vez campeã do Mundo e quatro vezes campeã europeia mudaram o efeito danoninho em Espanha que agora, com uma das piores seleções das últimas duas décadas, está nas meias-finais do Campeonato do Mundo.

2 Não tivemos sorte com Roberto Martínez. Um senhor muito simpático e educado, mas sem capacidade nem coragem. Sem capacidade de leitura para, vendo estar Ronaldo em manifesto subrendimento aos olhos de todos, ter insistido em jogar com extremos o que mais expunha essa nossa debilidade ofensiva.

Sem coragem de obviamente retirar Cristiano Ronaldo, ou Bruno Fernandes, ou quem quer que fosse, sempre que o seu rendimento não justificasse manter-se em campo. A Seleção Portuguesa deve imenso a Cristiano Ronaldo, o país, aliás, deve imenso a Cristiano Ronaldo. À sua dedicação à Seleção e à sua devoção patriótica. Um exemplo de persistência e superação.

Mas numa competição desta natureza não é gratidão que norteia nas opções, mas o resultado. Naturalmente que Ronaldo queria jogar sempre, ele empenha-se todos os dias, aos 41 anos, para estar fisicamente ao mais alto nível. Não era a ele que competia ver o que estava à frente de todos. Acho sobretudo que o próprio Cristiano Ronaldo não merecia um treinador que não teve nunca a coragem de o ajudar a ver a melhor forma de ajudar a Seleção, que era a melhor de se ajudar a si próprio.

Todos os nossos atletas, a começar em Cristiano Ronaldo e a terminar em Ricardo Velho, eram os primeiros interessados em ter uma campanha que os honrasse, foi visível que deram tudo de si para ajudar o seu país. Para quem às vezes não percebe a importância do treinador na organização de uma equipa de futebol, tem aqui, talvez, o melhor exemplo.

3 O Mundial com mais equipas de sempre, termina com os habitués. Falta Brasil, Alemanha e Itália, mas está quem se esperava estivesse. Do que vejo considero a França avassaladora, pela capacidade física, pelo ataque de uma técnica fulgurante, pela forma como consegue transformar um conjunto de grandes jogadores numa equipa. Será uma surpresa se não vencer. Adorei ver a Noruega e tudo o que trouxe ao Mundial. Mas partidário do Tratado de Tagilde, como sou, fico a torcer por que, 60 anos depois, a Old Albion possa voltar a ser feliz.

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