Rui Borges e Frederico Varandas — Foto: Miguel Nunes
Rui Borges e Frederico Varandas — Foto: Miguel Nunes

Mourinho e Rui Borges

Mourinho disse, na apresentação como treinador do Chelsea, em 2004, que os clubes querem o sucesso adequado ao respetivo potencial. Já sabemos todos o que vale, verdadeiramente, o plantel do Sporting?

Rui Borges estará, de acordo com o que tem sido publicado, a prazo no Sporting, não obstante a vitória magra sobre o Marítimo, terça-feira, na Taça da Liga, castigada com assobios da bancada, e a espécie de voto de confiança de Frederico Varandas a 21 de setembro, quando o presidente do Sporting anunciou que não toma decisões com base em contestação e que a continuidade se justificava — então como agora? — por acreditar no processo e no que a equipa joga.

Não é fácil concluir que o treinador esteja seguro, afinal foi Frederico Varandas, em novembro de 2024, quem prometeu proteger e criar as condições para João Pereira crescer, para mês e meio depois despedir o jovem treinador.

Toda esta situação, porém, fez-me recuar uns bons anos, mais concretamente 22. Na sala de Imprensa de Stamford Bridge, José Mourinho foi apresentado e apresentava-se como treinador do Chelsea a uma imprensa que o conhecia pouco e espumava por mexer na ferida não sarada da saída de Claudio Ranieri, que tinha forte ligação sentimental ao técnico italiano.

Todos se lembram da famosa frase de Mourinho — «Acredito que sou especial» — mas aquela conferência, que revisitei antes de escrever este texto, foi um verdadeiro guião de bem comunicar. Muito do que disse José Mourinho continua a aplicar-se.

(Aqui faço parênteses para explicar até a declaração que valeu a Mourinho o batismo de special one. Disse, em primeiro lugar, para o não chamarem de arrogante, prosseguiu argumentando não ser um dos treinadores que nada ganham e recordando que era já campeão europeu. Sentiu-se, por isso, no direito de se considerar especial).

Retomando essa intervenção, Mourinho defendeu que «os clubes querem sucesso adequado ao respetivo potencial». E, no fundo, é isso que me faz pensar em Rui Borges. Os efeitos das revoluções são imprevisíveis. Se, no caso de Mourinho, trouxe resultados imediatos, entre os quais o primeiro título de campeão do Chelsea em 50 anos, no caso do Sporting ainda desconhecemos o que produzirá.

Frederico Varandas, naturalmente em conjunto com Rui Borges, porque não poderia ser de outra maneira, mudou quase tudo no plantel do Sporting, abrindo mão dos principais jogadores, que tinham contribuído, decisivamente, para os troféus conquistados, para o reposicionamento dos leões no futebol nacional, para afirmação europeia ao mais alto nível, rara na história do clube.

Tiveram, obviamente, mérito Frederico Varandas e Rui Borges, mas o crédito que ainda deveriam merecer, em particular o treinador, parece evaporado. É assim nestes tempos em que tudo é descartável, nestes tempos de pastilha elástica em que se mastiga e deita fora.

Ninguém será capaz de afirmar que o Sporting, hoje, estaria melhor se alguns dos jogadores que saíram tivessem continuado. Talvez a derrota na final da Taça de Portugal e as declarações de Frederico Varandas, na época passada, possam dar uma pista.

A falta de tolerância e de paciência dos adeptos com Rui Borges é, no mínimo, injusta, já para não falar do preconceito urbano, reles e recorrente por ser de Mirandela. Ninguém, hoje, consegue avaliar, verdadeiramente, o potencial do plantel do Sporting e, no entanto, o treinador está a ser julgado pela perceção generalizada, sem dúvida alguma, de que esse potencial é superior ao futebol produzido e também de que teve já tempo suficiente para tirar o melhor dos jogadores contratados.

Rui Borges cairá sempre se essa for a interpretação de Frederico Varandas, que, para todos os efeitos, liderou a revolução no plantel.

É impossível ignorar, por outro lado, que Rui Borges tem ajudado pouco a defesa dele. Admitindo a necessidade de proteger as decisões que foram tomadas acima dele e que não poderá dizer tudo sobre a resposta de alguns jogadores, o que diz tem sido escasso e pouco mais do que vazio para explicar as dificuldades que a equipa tem sentido e que são evidentes em campo.

Não basta chegar a uma conferência de Imprensa e apenas fazer a descrição dos golos sofridos ou justificar a queda da equipa com alguns minutos maus e falta de concentração. O futebol e a comunicação são, há muito, mais do que isso. Também é difícil encontrar adesão à realidade quando argumentou, antes do jogo com o Académico de Viseu, que a equipa só não esteve à altura na segunda parte com o V. Guimarães.

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