Paulo Lopo taxativo sobre polémica na arbitragem: «Estou de consciência tranquila»
Tudo não passa de uma narrativa sem sentido. É assim que o antigo líder dos estrelistas define a controvérsia que tem agitado o futebol português. O dirigente nega qualquer envolvimento no processo de nomeações de árbitros e garante que o tempo vai fazer-lhe justiça, bem como ao Estrela da Amadora. Depois da venda da SAD dos tricolores, segue-se retiro familiar. PER será aprovado, projeta. Está aqui tudo, nesta entrevista a A BOLA.
— O futebol português está envolto numa polémica cujo epicentro está na arbitragem e em que os nomes de Paulo Lopo e do Estrela da Amadora, entre outros, surgem associados. Como é que analisa todo este processo? Está de consciência tranquila relativamente a tudo o que tem vindo a público?
— Estou completamente de consciência tranquila. Nunca fui chamado a prestar declarações sobre este assunto, nem à Polícia Judiciária, nem ao Ministério Público, nem à Federação Portuguesa de Futebol. Nunca fui ouvido. E o Estrela da Amadora também está completamente fora desta polémica. Acho que é uma não-polémica.
— Haverá uma investigação em curso e, segundo uma narrativa que circula, o Estrela da Amadora terá tido acesso a informações internas, além de eventuais conversas que terão existido entre Paulo Lopo e Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, ainda na época passada, para que o Estrela da Amadora pudesse ter eventual influência na nomeação de árbitros para evitar a descida de divisão. Que comentário faz?
— Nego categoricamente! Acho que essa narrativa não faz o mínimo sentido. Tenho uma relação com o Conselho de Arbitragem igual à que tinha com o anterior. Tal como todos os outros presidentes têm. É uma relação institucional. Eu não posso dizer que sou amigo de Luciano Gonçalves porque ele nunca foi a minha casa, eu nunca fui a casa dele, não conheço a mulher dele e ele não conhece a minha. Nunca tive uma reunião com Luciano Gonçalves a pedir-lhe o que quer que fosse. Curiosamente, tive duas reuniões com Luciano Gonçalves na presença do Duarte Gomes [antigo diretor técnico nacional de arbitragem]. Eu sempre fui um defensor dos árbitros. Aliás, o próprio Duarte Gomes fez-me um grande elogio relativamente a isso. Considero que os erros dos árbitros são normais. Faço o meu trabalho, o meu papel em relação àquilo que é o desconforto natural que os presidentes sentem quando acham que são prejudicados. Tenho uma postura de nunca colocar em causa a qualidade dos árbitros, nem tão-pouco os respetivos caráteres. Na minha ótica, há muito ruído em relação a esses assuntos.
— E o que é que Luciano Gonçalves e Duarte Gomes lhe transmitiram nessas reuniões?
— Tal como já acontecia com o Conselho de Arbitragem anterior, diziam que as coisas iam mudar, que iam tentar escolher árbitros com mais experiência, internacionais, e garantiam que os jogos iam correr bem e para continuarmos a confiar no sistema porque é um sistema sério. Eu até acho curioso falarem do Estrela da Amadora porque diria que houve mais de 60 reuniões de dirigentes de clubes com o Conselho de Arbitragem. É um procedimento normal.
— E com Pedro Proença, presidente da FPF, alguma vez esteve reunido para falar de arbitragens?
— Não. Francamente, não. Falo com ele sobre outros temas do futebol português. Não tenho por hábito queixar-me a Pedro Proença. Existindo um Conselho de Arbitragem, manifesto-me ao próprio Conselho de Arbitragem e não a outros. E foi sempre aquilo que fiz.
— E se diz estar de consciência tranquila, por que razão acha que o seu nome e o do Estrela da Amadora vieram a terreiro?
— Eu acho que é um efeito colateral de outro tipo de guerras que não têm nada a ver com isso. O processo está em segredo de justiça e eu gosto muito de respeitar a verdade das coisas. Não gosto de julgamentos na praça pública. Se algum dia tiver de pronunciar-me sobre este processo, fá-lo-ei em sede própria também.
Influência do Estrela na nomeação de árbitros? Nego categoricamente! Narrativa sem o mínimo sentido
— O adepto do Estrela da Amadora bem como qualquer familiar e amigo de Paulo Lopo podem estar descansados?
— O Paulo Lopo é uma pessoa séria. Já o era antes de vir para o futebol e vai continuar a ser sério e leal.
OS BASTIDORES DO NEGÓCIO
— Falemos da recente venda da SAD do Estrela da Amadora, que havia comprado por cerca de 70 mil euros e transacionou por €40 M. Como é que foi todo este negócio?
— Eu tinha um carinho muito grande pelo Estrela, tinha estudado na Amadora e foi ali que comecei a minha vida em Lisboa. O Sintra Football também estava com dificuldades financeiras e o Dinis [Delgado, diretor do Estrela da Amadora] pediu-me ajuda e eu achei que podíamos recuperar o Estrela. Fizemos a fusão com o Sintra Football, pelos tais 72 mil euros que são públicos e que diziam respeito às dívidas existentes. Foi um desafio muito grande, porque quando chegámos à Reboleira o estádio estava completamente degradado. Tivemos de o refazer todo e hoje, passados seis anos, as pessoas já não têm consciência da forma como encontrámos o clube. Ainda não havia Liga 3, pelo que subimos do Campeonato de Portugal à Liga 2 numa época muito difícil, onde apenas eram promovidos dois clubes em 96. Fomos adaptando o clube mediante as exigências profissionais e conseguimos chegar à Liga. Acho sinceramente que foi um trabalho muito, mas mesmo muito meritório.
— O Estrela está na quarta época seguida na Liga. Mas como foi, afinal, o processo de venda da SAD, cujos investidores são antigas estrelas do futebol mundial?
— Ao longo do ano recebemos dezenas de interessados e eu até já tinha desistido de receber pessoas. Mas estes investidores vieram através de um empresário amigo, com quem tínhamos uma boa relação, e já depois de o meu filho ter falado com eles até pensei, sinceramente, que era só mais uma de tantas abordagens. Mas acabou por ser algo que se desenvolveu e as negociações duraram 11 meses, não se pense que foi um processo fácil. Acho que só foi possível porque o Estrela estava muito organizado do ponto de vista administrativo e financeiro. Ao longo do processo negocial fui sentindo que era o grupo ideal para comprar o Estrela, porque era preciso garantir futuro. Pareceu-nos claramente que este era o caminho.
— Além da questão económica e dos números em cima da mesa, o facto de o Paulo sentir que estava a entregar o capital social da SAD a pessoas a quem reconhecia competência para catapultarem o Estrela da Amadora também pesou?
— Sim, isso foi fundamental. Se visse que não eram os seguidores do projeto que eu tinha pensado, não tinha realizado a venda. Eu tinha o meu tempo no Estrela, porque os clubes são eternos, nós somos apenas fiéis depositários enquanto os representamos. Sabia que o meu tempo tinha chegado ao fim porque eu não tinha capacidade financeira para dotar o Estrela de mais-valias suficientes para combater com outros clubes.
— Consegue projetar um Estrela da Amadora pujante e que no futuro possa pensar na Europa?
— Na minha humilde opinião, o Estrela da Amadora e o Famalicão, devido aos respetivos projetos que têm, vão ser clubes que estarão a lutar pelas competições europeias nos próximos cinco anos. Eu sinto que nós éramos muito competentes, francamente. Por isso, sempre com plantéis muito mais baratos do que a nossa concorrência, conseguimos sempre a permanência na Liga. Mas iríamos ter dificuldades durante os próximos quatro ou cinco anos, certamente, porque teríamos sempre que vender o produto antes de ele estar acabado, ou seja, teríamos de vender os melhores jogadores.
— E agora, dada a capacidade financeira da nova SAD, o talento pode ser retido mais tempo, é isso?
— Sim, é o que acho. Retendo talento mais tempo poderá dar para vendas ainda maiores. E nós, mesmo assim, ainda realizámos algumas extraordinárias. Por isso, lá está, é que me identifico tanto com o projeto do Famalicão, que é muito interessante. O Famalicão teve capacidade de gerar riqueza para não ter de vender os jogadores à pressa. E os que vendeu foi por valores muito interessantes. Portanto, isso tem que ver com o valor que foi investido para que se conseguisse fazer um bom trabalho.
PER DENTRO DA LEI E COM TUDO PARA SER APROVADO
O Estrela da Amadora tem em curso um Plano Especial de Revitalização (PER), sendo que, depois da aprovação de mais de 90 por cento dos credores, o Tribunal de Sintra chumbou este processo. Paulo Lopo diz não entender a decisão judicial.
«O PER é um mecanismo legal que depende dos credores e não do Estrela da Amadora. Foi aprovado pela comissão de credores. Mas, ao contrário do que se diz, não prevê um perdão de dívida de 90 por cento. Tinha alguns credores em que o perdão de dívida era desse âmbito, não era a dívida total que seria perdoada em 90 por cento. Acho que foi uma falha de interpretação do Tribunal de Sintra e que poderá ser colmatada numa instância superior. Foram cumpridos todos os trâmites legais e é isso que a parte jurídica tem de validar. Nada impede que seja aprovado», justifica.
Artigos Relacionados: