Longos silêncios têm 37 dias
A notícia desportiva da última quinta feira foi a de Sérgio Conceição ter voltado a falar. Tinha estado em penitente silêncio ao longo de 37 dias e agora fazia-se regressar ao mundo dos vivos e da comunicação. Havia justificadas expectativas, muitos temas para abordar, mas não se sabia, ao certo, se Sérgio pretendia um regresso discreto, abordando apenas o jogo da Amadora, eventualmente, também, as condições em que a sua equipa irá entrar na Champions, já na próxima terça feira. O treinador do FC Porto superou o expectável. Foi conversador, foi aberto nas questões e, apesar da sua habitual frontalidade na argumentação, foi de uma urbanidade irrepreensível.
Sérgio apresentou-se como um homem racional, fluente na palavra e no pensamento. Um treinador que entende perfeitamente a importância da comunicação com destinatários internos e externos. Por isso, respondeu a Rui Moreira, deixou subentender críticas à admnistração do clube pela forma como tratou os casos de Otávio e de João Moutinho, explicou a sua posição sobre os tempos mortos de jogo, admitindo que são aceitáveis “mais dez ou quinze minutos”. Nunca falou em mais de vinte, como aconteceu no jogo com o Arouca. Defendeu os seus jogadores, como líder, que é. Promoveu-se junto dos adeptos mais apaixonados, os tais que esperam horas para ver passar o autocarro do clube. Chamou o tema das eleiçõespara pedir mais e melhor unidade.
A comunicação do treinador do FC Porto mostrou as duas faces da lua. O lado luminoso da sua competência além das questões de natureza técnica do jogo e do treino. A ideia muito presente de que mesmo no âmbito da sua reconhecida genuinidade, há sempre um “improviso” muito pensado e estudado para chegar a objetivos bem definidos. O outro lado mais escuro, menos observável pelas análises imediatistas e pouco elaboradas, é o de ficarmos com a certeza de que este é também o homem inteligente e racional que pode usar um descontrolo emocional, na medida em que sabe que esse comportamento irá provocar situações favoráveis em caso de emergência de jogo, porque cria fortes constrangimentos e pressão em árbitros e videoárbitos que não estão psicologicamente preparados, já para não entrar no domínio da coragem, para enfrentar e afrontar um treinador, uma equipa, um clube com a dimensão e o ADN combativo e frenético do FC Porto.
Podemos, obviamente, criticar que Sérgio Conceição entre em modo de descompensação emocional, sabendo que daí pode retirar trunfos que usará quando a equipa não os está a saber jogar. O que significa que Sérgio entende que o primeiro, o segundo e o terceiro dever de um treinador é fazer com que a sua equipa ganhe, independentemente da forma como o consiga. E daí que defenda e proteja ações de evidente embuste como as de Taremi, também ele, já em momento desesperado de um jogo que corria francamente mal. Pode parecer que existe, aqui, uma clara incongruência, quando o treinador do FC Porto aceita tudo o que contribua para o sucesso de um resultado e rejeite tudo, especialmente o jogo passivo do adversário, que é o trunfo do opositor mais fraco e mais vulnerável para tentar não perder o jogo. No fundo, se pensarmos bem, a questão não é a de Sérgio procurar ser coerente com um desejo de beneficiar o jogo, muito menos o espetáculo, mas o de ser coerente com a obrigação sentida de o ganhar. Seja como for, sentiu-se que longos silêncios tiveram estes trinta e sete dias. Saúde-se, pois, o regresso de Sérgio Conceição à tribuna pública. E, de facto, Rui Moreira exagerou. Sérgio não é, de todo, um treinador falhado.