Rodrigo Zalazar assinou um golo que Alvalade não esquecerá
Rodrigo Zalazar assinou um golo que Alvalade não esquecerá

Leões demoraram a obrigar os turcos a serem turcos (crónica)

O Sporting começou estranhamente inibido e complicativo, e cedo se viu em desvantagem. Depois foi sempre a melhorar e quando a proverbial anarquia das equipas da Turquia veio à tona, desapareceram as dúvidas quanto ao destino destes primeiros milhões

Nos primeiros minutos deste jogo de estreia da edição 2026/27 da Liga dos Campeões, o mundo andou de pernas para o ar: o Sporting, de quem se esperava uma entrada forte e personalizada, surgiu tolhido nos movimentos, sem capacidade para ter bola e absolutamente inofensivo; já o Galatasaray entrou em campo como se fosse rei da Europa, com posse criteriosa, disciplina tática (graças sobretudo a Lucas Torreira e à apatia leonina) e a acercar-se da baliza de Rui Silva com perigo.

Alvalade apercebeu-se do que estava a acontecer e avisou, na forma de alguns assobios, a sua equipa de assim não ia a lado nenhum. E as coisas pioraram ainda quando logo aos seis minutos, após um lançamento lateral para a marca dos onze metros (!!!) de Jakobs, um lance confuso acabou por dar em autogolo de Gonçalo Inácio.

O Sporting sentiu o golpe e foi de mal a pior, sentindo inúmeras dificuldades na saída de bola, face a um tetracampeão turco que mandava no campo e fazia, sem qualquer complexo, pressão alta. Este estado de coisas durou até ao minuto 19, quando os leões tiveram o primeiro ataque rápido com cabeça, tronco e membros e Suárez meteu a bola na baliza de Çakir, sendo o lance invalidado por um fora-de-jogo anterior de Maxi Araújo.

Animados por este momento, os donos da casa começaram a assentar jogo, trocando a bola com maior qualidade (mesmo assim a primeira parte terminou com 62/38 para a equipa de Istambul) e paulatinamente foram retirando confiança ao ‘Gala’, que passou a optar amiúde por futebol direto do guarda-redes para o rapidíssimo ponta-de-lança Yilmaz.

Quando, aos 27 minutos, aproveitando a falta de expediente da defesa turca a tirar a bola da sua grande área, Genny Catamo empatou para os leões e pode dizer-se que esse momento foi o corolário da melhoria leonina, num lance em que Quaresma desequilibrou e Doumbia rasgou horizontes.  Até ao intervalo, o consagrado internacional alemão Leroy Sané teve uma perdida escandalosa, quando, de pé esquerdo, perto da baliza, falhou o alvo por centímetros.

O Sporting chegava ao intervalo a empatar e tinha a segunda parte para forçar a que os turcos fossem turcos, indisciplinados taticamente por natureza e com uma tendência autofágica para fazerem o jogo partir-se.

OPÇÕES TÁTICAS

Rui Borges surpreendeu quando mandou a jogo Luís Guilherme, em detrimento de Flávio Gonçalves, voltando a confiar em Vagiannidis e não em Fresneda. Percebeu-se depois que o técnico leonino queria, por estar a jogar contra uma equipa com alas abertos, dar apoio aos laterais, deixando a Altimira o ‘trabalho sujo’ que se pede a um ‘polvo’ e a Zalazar e Doumbia a responsabilidade pela organização. Diga-se que um e outro, mais o uruguaio que o italiano, tiveram muitas dificuldades, especialmente Zalazar que, depois de fazer por várias vezes o mais difícil - recolher, com técnica apurada, passes frontais de Inácio e Quaresma - perdia-se de seguida com entregas de bola aparentemente fáceis que acabavam nos pés dos jogadores turcos. Na frente, Luís Suárez procurava dar o mote à equipa, sendo agressivo (até ver um cartão amarelo) e colocando em sentido o compatriota Sánchez e Jakobs, companheiro deste no eixo da defesa.

Quer isto dizer que o 4x2x3x1 de Rui Borges, que às vezes criava linhas de cinco ou seis a defender, para combater a largura do ataque do ‘Gala’, falhava sobretudo na execução, e o resultado ao intervalo não era antipático para os leões. Já o Galatasaray fez 45 minutos, em 4x3x3, com uma disciplina tática de se lhe tirar o chapéu. Lucas Torreira pautava o jogo, Sané e Akgun jogavam das alas para o meio, e Yilmaz dava muito que fazer aos centrais, sentindo-se que o Galatasaray estava confortável no jogo.

FINALMENTE TURCOS

Na segunda parte, tudo se alterou. O Galatasaray deixou a personalidade na cabina e passou a queimar tempo, ou através do guarda-redes, ou com passes sem progressão, para quebrar o ímpeto ao Sporting, e os verdes-e-brancos aperceberam-se dessa fragilidade.

Como bom predador, o leão cheirou o sangue e foi à procura de matar caça. Fê-lo da forma mais inesperada possível, aos 54 minutos, num lance iniciado por Rui Silva, que com um passe digno do maior ‘maestro’ do futebol meteu uma bola açucarada em Doumbia, que serviu Suárez, sendo este derrubado na área de rigor por Jakobs. Penálti sem ‘espinhas’ e remate igualmente limpinho do ‘matador’ colombiano, dos onze metros, a fazer o 2-1. 

A partir desse momento, se o Galarasaray tinha entrado mal na metade complementar, passou de mal a pior. Okan Buruk, numa altura em que se percebia que não ia haver espaço nas costas dos defesas do Sporting, lançou Rafael Leão (que teve a receção esperada…) e a turma de Istambul desuniu-se, partiu-se, tornou-se individualista, o que permitiu ao Sporting maior espaço e um controlo total das operações. 

Estava na cara que só por acidente os três pontos (e os milhões) não iam ficar em Alvalade quando Rodrigo Zalazar, 63 minutos, marcou um golo de livre direto, um pouco na meia esquerda, que levantou o estádio: remate forte, a bola a subir para sobrevoar a barreira e a descer para se aninhar no fundo das redes. O uruguaio, que vinha a realizar uma exibição inconsequente, teve esse momento mágico a que pode agarrar-se para crescer em confiança. Três minutos depois deu lugar a Flávio Gonçalves e Alvalade deu-lhe uma despedida de herói. 

A partir do 3-1, Rui Borges dedicou-se a gerir a equipa, à medida que os turcos eram uma caricatura, reduzidos a um Rafael Leão que queria ir contra o mundo. Ainda houve tempo para uma ótima ligação entre Maxi e Altimira, com o espanhol perto golo, e para uma boa defesa de Rui Silva a livre lateral de Gabriel Sara. Mas o destino de um jogo que teve várias caras e acabou com um sorriso estampado no rosto do leão, estava escrito. ‘Este’ Sporting, que não tem o futebol do ‘outro’, ainda tem dúvidas e às vezes engana-se, mas sente-se que está a crescer. E a época só acabou de começar…

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