João Almeida não está otimista de poder repetir a segunda posição da Vuelta de 2025 (foto UAE Team Emirates-XRG)
João Almeida não está otimista de poder repetir a segunda posição da Vuelta de 2025 (foto UAE Team Emirates-XRG)

João Almeida: «Não estou bloqueado por Pogacar, será uma questão de pernas»

Português admite iniciar a Vuelta a Espanha com «pouca confiança», no seguimento de temporada difícil, mas diz que está motivado por apoiar Pogacar a tentar vencer a grande Volta que lhe falta

João Almeida, um dos dois portugueses da UAE Emirates-XRG na Vuelta a Espanha, juntamente com Ivo Oliveira, perfila-se, à partida da corrida, no sábado, no Mónaco, como um dos gregários de montanha de Tadej Pogacar, numa época prejudicada por doença persistente e uma recente queda no regresso após longa paragem na Volta à Polónia, que lhe afetou desempenho e resultados desde o terceiro lugar na Volta ao Algarve em fevereiro.

Por isso, em conferência de imprensa, o ciclista, de 28 anos, assume que parte para a corrida em que foi segundo classificado em 2025 com dúvidas sobre o nível de forma. 

— Chega à Vuelta no decurso de uma temporada que já vai longa em contratempos, com longa enfermidade e uma recente queda. Como é que se sente e quais são os objetivos? 

— Tem sido um período com alguns percalços. Pós-queda [na Volta à Polónia], tive uma semana dura. Desde que saí [da Volta à Polónia] não treinei grande coisa, não me sinto tão em forma, como no início dessa corrida. Chego com pouca confiança por não ter conseguido cumprir o plano de preparação, que seria importante para ter ritmo de competição e testar as pernas. Mas posso começar confiante no meu talento. Espero ir melhorando dia a dia, evoluir e chegar à última semana melhor do que comecei. Estamos aqui para dar o nosso melhor e temos um grande líder para conseguir bons resultados.

João Almeida lidera os companheiros de equipa Tadej Pogacar e Domen Novak num dos últimos treinos antes da partida da Vuelta a Espanha (foto UAE Emirates-XRC)

— A presença de Pogacar tira-lhe pressão e traz mais conforto? 

— Sem dúvida. Ele é quase uma garantia de vitória. As perguntas para ele já nem são se vai ganhar, mas sim se vai ganhar facilmente ou como se vai gerir. Obviamente que é difícil para todos e há fatores fora do nosso controlo, mas dá tranquilidade e tira a pressão de cima da equipa. É um gosto correr com ele.

— Sem a confiança ideal para a classificação geral, a prioridade pode passar por visar etapas? Sente-se bloqueado pelo papel de gregário de Pogacar? 

— Vou dia a dia. Vou ver como me sinto e tentar ajudar o Tadej o máximo possível. Cenários hipotéticos: se eu vir que não estou bem para discutir a classificação geral, obviamente terei de me focar noutra coisa. Mas o principal neste momento é mesmo ajudar o Tadej. Tudo o que sejam resultados pessoais fica pendente. Bloqueado ninguém está; é puramente uma questão de força e capacidade física nas pernas. Já vimos todos os anos como é que as coisas funcionam. 

— O que é que será um bom resultado pessoal?

— Boa pergunta, não sei. Mas espero notar que me encontro bem, ter boas sensações e ter uma Vuelta positiva, com um bom ambiente de equipa, que certamente teremos. Todas as grandes Voltas têm uma história, todas são diferentes. É uma corrida longa e nós, atletas, saímos daqui sempre com uma história para a vida. E pronto, isto é olhar para o futuro para chegar a Granada [onde termina esta Vuelta] com mais uma história na minha bagagem, mais uma experiência e bons momentos passados em equipa. No fundo é isso. 

— Muitos adeptos questionam-se sobre os problemas de saúde que afetaram o seu rendimento este ano. Já há uma explicação concreta? 

— Não é assim tão simples perceber, principalmente no pós-doença. É algo complexo. Sinceramente, também não quero estar aqui a dizer tudo e mais alguma coisa do que aconteceu. Há situações que demoram mais tempo a recuperar e o corpo ressente-se, como acontece com outros atletas, e noutros desportos, após infecções virais ou Covid prolongado, ficando meses sem conseguir andar no limite. Não me interessa muito bem também saber o que é ou o que não é. O que interessa é que às vezes as coisas não correm tão bem, o mais importante é tentar estar no nosso melhor e continuar a dar o melhor.

João Almeida diz estar empenhado em ajudar Pogacar a vencer a grande Volta que lhe falta (foto UAE Emirates-XRG)

— Foi difícil a recuperação também a nível mental? 

— Sim e não. Por um lado é frustrante trabalhar tanto e não ter os resultados pretendidos. Por outro, há que aceitar que as coisas nem sempre correm como queremos. Faz parte da vida. O ciclismo é a minha grande paixão e dedico-lhe tudo para ser o melhor possível. Os momentos difíceis também nos tornam mentalmente mais fortes. O importante é continuar a esforçar-me. O passado… passou, e o foco está no que vem pela frente. Tudo o que faço na minha vida dedico ao ciclismo e tudo o que faço é com o objetivo de ser o melhor ciclista e de continuar a melhorar. No caminho temos sempre alguns setbacks [contratempos], as coisas nem sempre correm como nós queremos, mas pronto, vamos aprendendo. Há sempre uma aprendizagem que se pode tirar das coisas, ver o lado positivo. Também estes momentos fazem-nos sempre mais fortes mentalmente Portanto, é saber ultrapassar isso.

— Vemos muitas vezes Pogacar a retribuir o trabalho dos colegas. Acredita que, se a corrida correr de feição, ele possa ajudá-lo a procurar um triunfo ou bom resultado? 

— Sim, só depende das minhas pernas. Ele é um corredor muito simpático, generoso e gosta de recompensar os colegas pelo trabalho feito. Só não ajuda se não puder, mas nós é que temos de ter capacidade física para acompanhar. Vê-se muito poucos campeões como ele a fazer o que faz pelos colegas.

— O futuro próximo, depois da Vuelta, já são corridas importantes, com Europeus, Mundiais e Volta à Lombardia no calendário. Nessas, espera encontrar-se já na melhor forma e visar a vitória? 

— Tenho quase um mês pela frente ainda de corridas e depois, a partir daí, é tentar recuperar da Vuelta e focar-me nessas corridas, pronto. Não há muito a fazer. Mas, obviamente, já estou a pensar em representar a nossa seleção nessas corridas e é isso. Mas por enquanto tenho muita coisa em que me focar e estar focado aqui nesta Vuelta. 

— Com a afirmação de Isaac del Toro na equipa, como fica a sua situação interna e as perspetivas de liderança no futuro? 

— Sinto-me igual, há espaço para todos. Dou-me muito bem com o Del Toro, fico superfeliz pelos resultados e pelo esforço dele estar a ser recompensado. Isso não interfere na minha capacidade nem nos meus objetivos.

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