João Palhinha: a trave-mestra do 'novo' Benfica
Marco Silva terá certamente aprovado Kaminski e Circati, porém, a confirmar-se, o reforço que tem a sua cara é João Palhinha. Porque o treinou, sim, mas também porque o fez evoluir e transformou numa peça fundamental do seu Fulham e num jogador de Premier, ao ponto de encaixar mais tarde no Tottenham e de, provavelmente, poder vir a ser importante no Villa, com quem as águias lutaram pela transferência.
Há umas décadas teria sido herói da Sabener Strasse e da gigante mancha bávara que não se cansa de gritar que é o que é. No entanto, os anos de Guardiola e do aprendiz Kompany consolidaram o duplo-pivot e levaram a que se exigisse mais do 6, interpretado pelo lateral-direto com complexo de 10 Kimmich, fosse Goretzka ou Pavlovic o companheiro do lado. O técnico belga nunca precisou de inverter o triângulo para fazer subir um deles, já que sempre o fizeram com naturalidade, e aqueles que vaticinaram grande futuro do português por terras germânicas rapidamente perceberam o equívoco. Um dia talvez seja desconstruída, mas nunca se percebeu a contratação.
Ora, enquanto o futebol se vai formatando também através do recurso a estereótipos, como os de verdadeiros farois como Rodri ou Busquets — não é coincidência que o primeiro vá agora também vestir blaugrana, ainda que o Real Madrid se tenha antecipado a mostrar interesse, depois de ter sido um dos mais influentes do City de Guardiola —, capazes de dominar fisica e, ao mesmo tempo, tecnicamente, ditando ritmos e caminhos de fuga à pressão contrária, Marco Silva não teve pudor de ir em sentido contrário. Se no Fulham, equipa que iria, em tese, passar muito tempo sem bola, a decisão iria ser naturalmente compreendida, no Benfica ter-se-á de explicar pela capacidade de tornar as águias ainda mais ofensivas: no libertar dos outros médios (hoje, Barreiro e Sudakov; mais tarde, talvez Aursnes e o ucraniano) para uma chegada mais efetiva em número, uma das limitações apresentadas nas últimas temporadas.
Palhinha evoluiu, como disse antes. Não é o mesmo que brilhou no Sporting. Deixou de ser unidimensional. Ganhou valências no passe, sobretudo na distribuição à distância. Já a verticalização na quebra das linhas de pressão deixa-a para companheiros mais habilitados. Ajudará a equipa a crescer nos níveis de agressividade, coesão defensiva e reação à perda, e poderá ser arma importante nos esquemas táticos ofensivos. Não vou discutir um investimento que nunca será independente do rendimento e esse ainda não é um fator, e percebo os valores envolvidos perante a concorrência e o contexto do negócio. Que, também me parece, não teria existido se o treinador não fosse quem é. A todos os níveis.
O futebol de posse progressiva, triangulações e de descoberta do homem livre, o terceiro homem, recriado no relvado com velocidade e criatividade a gosto tem convencido as bancadas, tal como a nova mentalidade, aquela que mantém os jogadores em cima do resultado em vez de baixarem no terreno. Os triunfos ajudam — o Académico, sem público, poderá para já ser rotulado de acidente — e os atletas parecem convencidos qb. As convicções absolutas só serão validadas com vitórias, num calendário bastante exigente.
O discurso tem sido honesto, lúcido, o que não é de estranhar dado o resto da carreira, quase sempre coerente. E não se pode deixar de classificar a troca de guarda-redes como uma opção arriscada, sobretudo por ser setor que mexeu tanto. É uma escolha que até poderá impactar no que falta de mercado aos encarnados. O técnico acrescentou critério onde não havia e criou o rumo que antes ninguém soube estabelecer. Contratá-lo foi a melhor decisão de Rui Costa, o que não invalida que pudesse haver outras de igual ou maior mérito. Esta dá apenas sinais de poder funcionar, ao contrário das anteriores. O critério dificilmente terá tocado em todas as questões referidas, todavia vamos acreditar que sim, mesmo que Marco Silva ainda seja mais distante de Mourinho do que este era de Lage. Agora, o melhor que o presidente pode fazer é não estragar. E se, no final, esta revolução de um homem só não chegar para chegar ao sucesso resta-lhe perceber o que lhe falta para que isso aconteça.
Se Marco Silva sempre quis Palhinha, Farioli nunca pensou o mesmo de Rodrigo Mora. O FC Porto tentou vender um dos rostos mais mediáticos da sua formação logo depois de se ter afirmado e antes de o tentar adaptar a posição que nunca foi a sua, a de sombra de Gabri Veiga. Agora, clube e treinador desfizeram-se do problema e ficaram com alguns milhões para o mercado. 50 milhões de euros (pelos 100%) estará aquém do potencial que prometia entregar, não tivesse perdido uma época a tentar ser o que queriam que fosse. Por isso, só será um bom negócio se confirmar o que no Dragão se pensa dele. O que não é assim tanto, aparentemente.
O calcio não será fácil para o miúdo, mas hoje os clubes são os últimos a pensar nos jogadores que transferem e terá de se desenrascar, mesmo com um treinador tão especial como é Gasperini. Tem de acreditar.
Gosto de Mora, confesso. E também de Pedro Gonçalves e de Bragança, nos quais igualmente vejo alguma injustiça. O primeiro é um dos melhores da história do clube e só não foi ainda mais grandioso por culpa de algumas lesões, enquanto o outro ficou às mãos da intensidade ou falta dela, essa expressão tão cara dos analistas e tão oca para quem procura outros ângulos.
Mereciam estar em campo. Mesmo querendo sair. O que ainda fragiliza mais na falta de referências, enquanto o Sporting decide fazer uma queimada tão extensa que aparecem labaredas por todo o lado. Um erro de um Rui Silva algo sobrevalorizado poderá agora encaminhar o leão para o mercado, já para não falar em Luis Suárez, também com a cabeça a mil. As chamas andam incontroláveis. Num ápice, o super-leão da pré-época deixou de ser avassalador e as câmaras, como era previsível, voltam-se para o rosto que ligam aos zero títulos de 2026: Rui Borges. Que parece assoberbado sem saber o que fazer. À procura em si próprio de carisma para liderar.