As virtudes da rivalidade
A rivalidade é inimiga do civismo, das boas práticas e da urbanidade? Não.
A rivalidade é o motor da competição e o combustível que dá energia às claques, aos adeptos, aos futebolistas e aos clubes. Sem rivalidade, o futebol seria uma modalidade desportiva morna e desinteressante, em que o resultado seria o menos importante.
Não. O resultado nunca é o menos importante. O resultado é o objetivo do jogo, é a razão do jogo. E a emoção do jogo.
Jogar sem ser para ganhar é defraudar as tribos do futebol, é fazer batota e corromper o espírito do fair-play. Não é aceitável nem admissível.
Não concebo outra forma de viver o futebol senão através da rivalidade. Emociono-me pouco com as táticas e a nota artística. O que quero é ganhar, ser melhor do que o adversário, ser o campeão incontestado, desfilar ufano nos Aliados, erguer a Taça e sentir aquela vibração tão difícil de descrever, mas tão boa de sentir.
E, para alcançar este nirvana futebolístico, valerá tudo? Não.
Não vale tudo. A rivalidade só faz sentido se for jogada taco a taco, se o adversário tiver as mesmas oportunidades que nós temos, se o ponto de partida for o mesmo, se em tudo houver paridade. Depois é o golo, o jogo e o génio a fazerem a diferença. Que bela é aquela desmarcação, aquele controlo de bola, aquele passe mágico, aquele golo que faz levantar o estádio. Depois outro, e mais outro, até termos saciado a vontade de ganhar e de nos saudarmos como irmãos e darmos aquela emocionante volta ao redor das bancadas, para receber o calor inflamado de adeptos orgulhosos de um feito extraordinário. Mais uma vitória, mais um sonho realizado.
Milhares de pessoas regressam a casa, felizes, porque o FC Porto ganhou, nós ganhámos, tudo está agora de novo alinhado para uma semana perfeita. Que bem que nos faz uma vitória do FC Porto.
Só há um caminho
Como chegamos nós às vitórias, aos títulos e às taças? A resposta a esta questão é crucial. Como conseguimos ser melhores do que os nossos adversários? Há muitos caminhos, mas eu só gosto de um: a rivalidade com fair-play, com jogo limpo e com respeito absoluto e inegociável pelo adversário e uma indomável vontade de superação. Sem isso, o futebol é uma guerra suja, um jogo de badalhoquices inaceitáveis, uma arena de intrigas, jogatanas, batotas e canalhices. Não gosto disso.
O futebol está a resvalar para caminhos impróprios. A força dos clubes tem de se impor em campo, com grandes equipas, grandes jogadores e treinadores, grandes vitórias. Os bastidores pervertem o jogo, são corredores obscuros e tenebrosos que mancham a integridade do futebol.
Não gosto disso.
Perdoar e avançar
Pela terceira vez, exorto André Villas-Boas a ser o paladino da reforma do futebol português, o motor da mudança no sentido da agregação e da união. Agregar e unir não belisca a rivalidade. Fortalece o futebol.
Foste, André, um símbolo heróico do FC Porto. Fizeste o que poucos teriam conseguido fazer. Elevaste ao Olimpo uma equipa maravilhosa, que jogava o futebol feliz e confiante. Como nós adorámos aquela equipa, que treinaste com a sabedoria magistral do adepto apaixonado.
Hoje, és o nosso presidente. E o que esperamos de ti é que deixes para o museu e para a memória o que é do passado e que te ergas virado para o futuro, que empunhes com a coragem que todos te reconhecemos o estandarte da regeneração do futebol.
Vejo em ti a pessoa que pode apagar ódios passados ou rivalidades serôdias e construir pontes.
Nelson Mandela sofreu, como ninguém, o opróbrio da perseguição, da humilhação e do castigo. O que fez quando foi libertado?
Perdoou, ignorou as ofensas e mobilizou todos para o esforço tremendo da reconciliação e do perdão.
Seremos nós mais fracos se soubermos dar as mãos e mostrar, pelo exemplo, que entendimento não é capitulação? Apertar as mãos não é desistir.
Não precisas de esquecer o passado, André. Mas seria grandioso se pudesses desvalorizar as ofensas, os insultos e as picardias e transformá-las em acordos generosos.
Claro que nada disto é fácil. O perdão e o esquecimento convivem muito mal com o adeptismo doentio e irracional, que vê num adversário um inimigo a abater, custe o que custar. Mas é para isso que os presidentes estão lá. Não são apenas adeptos, são líderes, capacitados para definir e orientar projetos, não para pastorear rebanhos.
Paixão e razão
Enquanto puder, vou acreditar que é possível. Vou mesmo. Não me conformo com este clima de gritaria, de insulto, de ameaça, de perpétua chocarrice, como se tivesse de ser sempre assim. Não tem.
Pergunto: tem futuro, este futebol gritado, sustentado em ataques pessoais, este pântano de jogatanas manhosas, este imenso charco de podridão?
Parece-me óbvio que não.
Mas, apesar de todos sabermos que este caminho não tem saída, continuamos a percorrê-lo com aquela chico-espertice tão lusitana, tão boçal. Achamos que ninguém vai saber, ou que ninguém vai interessar-se, ou que ninguém vai fazer nada, se souber ou se interessar.
Não. Este não é o caminho.
E cada passo que dermos nesse caminho contaminado é mais um passo que esmaga a credibilidade, a transparência e a rivalidade saudável do futebol.
Sou um simples cronista, um adepto do futebol e sócio do FC Porto. Não conheço ninguém lá em cima, não tenho influência, nem poder nem nada. Tenho, apenas, a convicção de que este caminho está minado e que é preciso encontrar outra forma de regenerar o futebol.
O paradoxo da quadratura do círculo é um desafio fenomenal. Dizem os pensadores que é impossível de alcançar, precisamente porque põe em confronto o racional do quadrado com o emocional do círculo. Duas dimensões incompatíveis, dizem. Mas, por serem tão poderosas, atraíram filósofos que criaram belíssimas teorias. Vou citar Friedrich Nietzsche. Disse ele que a vida humana só atinge o seu esplendor quando a força da razão (que ele encarna em Apolo) e a força da paixão (representada por Dionísio), colidem e coexistem, e não quando uma elimina a outra.
E não quando uma elimina a outra.
O futebol pode ser razão, tem de ser paixão. E ambos devem existir lado a lado. Não há razão nenhuma que obrigue a paixão do futebol a ser irracional. E vice-versa.
A razão do desporto
N em de propósito, sugiro hoje um livro com um título mesmo a calhar.
Crítica da razão desportiva, de Manuel Sérgio.
Um estudo filosófico/cultural/ontológico do desporto, muito para além, mas incluindo também, a dimensão emocional. Cito o autor: «O desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo.»
Vale a pena ler e estudar.
Crítica da razão desportiva, de Manuel Sérgio.
Palavra final
Cristiano Ronaldo fez birra, amuou e decidiu sair pela porta pequena. Lamento. Cristiano Ronaldo, qual rei-sol, ficou cego pelo seu próprio reflexo.