Insistir no erro para manter privilégios
Omodelo de negócio do futebol profissional português está errado. Eis uma conclusão que não surpreenderá ninguém, a começar pelos clubes profissionais do futebol português. Mas assim sendo, é legítimo perguntar: se todos sabem que está errado, porquê e para quê insistir no erro? E a resposta, parecendo simples, é bastante complexa: porque os clubes não querem mudar o que sabem estar errado.
Aparentemente, não fará muito sentido, mas conhecendo a cultura da bola nacional, torna-se quase óbvio. Porque, em Portugal, ao contrário do que seriam capazes de jurar os principais responsáveis dos clubes e administradores das SAD, o foco da maioria não está em melhorar o espetáculo, torná-lo mais atrativo, conquistar público, sobretudo jovem, roubando-o a uma panóplia de interesses e de ofertas. O foco está em garantir a continuidade do poder de quem manda, o estatuto de influencer social de quem dirige, o poder e o interesse pessoal de quem atinge a cadeira presidencial e se rodeia de um séquito, que o servirá incondicionalmente, a troco de nubladas vantagens.
Estarei a ser excessivamente cru? Não me parece. Olhe-se para a Liga e tudo mais facilmente se percebe. É um órgão desprovido de autonomia, desencorajado na ação e na firmeza de posições, inevitavelmente refém dos clubes, dos seus votos, dos seus círculos viciosos, das suas influências, das suas estratégias e dos seus lóbis. A culpa não é de quem a dirige. A culpa é estrutural e exige muito mais do que boas intenções.
PINTO DA COSTA sentiu uma urgente necessidade de sair da sua zona de conforto. De facto, de repente, o país parou meio chocado, meio surpreendido, perante a sucessão de notícias sobre o bárbaro episódio do ataque a um repórter de imagem da TVI, na sequência de uma aproximação ainda muito mal esclarecida do presidente do FC Porto. Naturalmente envolvido na ação, Pinto da Costa tentou o silêncio como medida cautelar, mas logo percebeu que esse silêncio, a continuar, seria comprometedor. Por isso, decidiu falar, mas escolheu, como seria de prever, o canal do clube, garantindo uma declaração sem contraditório, sem se submeter a questões difíceis que, em qualquer outro canal, nunca poderiam deixar de ser colocadas.
Melhor, assim, se entendeu que a preferência dos presidentes dos principais clubes portugueses pelos canais próprios de comunicação, não é inocente e tornou-se uma regra com muito poucas exceções. A vantagem é que os entrevistados mandam na entrevista e não têm de se preocupar com o contraditório, ou com questões que possam evidenciar as suas fragilidades. A desvantagem é que qualquer pessoa, no seu perfeito juízo, entenderá que estas espécies de entrevistas não são credíveis, nem são valorizáveis. Tornam-se, aliás, num bem público, por serem tão esclarecedoras quanto à suprema importância dos media formais quanto à garantia das liberdades e da credibilidade da informação pública.
DOIS bons exemplos, nesta semana de saída dos esqueletos dos velhos armários: Carlos Carvalhal e Jorge Jesus. O primeiro, digno, como é seu hábito, recriminando comportamentos e atitudes lamentáveis entre treinadores de futebol, que não se respeitam, nem se dão ao respeito. O segundo, como uma boa dose de humor, criticando a bagunça nos bancos de suplentes, onde só faltam os gatos para se juntarem aos magotes que se atiram contra os árbitros.
IMPERADOR QUE INCENDIOU ROMA
O futebol nem sempre se explica, mas, às vezes, entende-se bem. Veja-se o caso da meia final da Liga Europa entre o Man. United e a Roma. Ao intervalo, a equipa de Paulo Fonseca parecia ter o acesso à final quase garantido. Controlou o jogo na primeira parte e vencia por 2-1. Mas, depois, apenas em 45 minutos, tudo mudou e os red devils fizeram cinco golos sem consentirem nenhum, conseguindo um resultado que, certamente, será decisivo. Bruno Fernandes, com uma exibição esplendorosa, foi o imperador que incendiou Roma.
E, FINALMENTE, PORTUGAL ACORDA
Mais de um ano de mortes e desolação. De desgaste psicológico e angústia coletiva. Mais de um ano a duvidar da existência do futuro na longa viagem de um túnel, onde não se via qualquer luz. Mas, enfim, Portugal vai acordando do terrível pesadelo. Sabe-se que a vitória sobre a pandemia não está adquirida, que é preciso continuar a lutar, a ser rigoroso e ter cautelas, mas vê-se, claramente, a luz ao fundo e isso ajuda-nos, a todos, a ter esperança. É justo sentir orgulho neste povo, porque soube ser responsável e solidário.