Em entrevista a A BOLA, o futebolista que colocou recentemente ponto final na carreira elege os nomes mais marcantes de um percurso com mais de duas décadas

Ia de comboio para os treinos: «Passei a desfrutar do futebol de maneira diferente»

Os últimos cinco anos do percurso de Diogo Valente foram vividos no Salgueiros, onde foi «verdadeiramente feliz». Explica, em grande entrevista A BOLA, porque é que um UD Leiria-Boavista foi o ponto alto da carreira

— E eis que, em 2019, dá-se a transição para as divisões inferiores.

— Foi numa altura em que ponderei terminar a carreira. Tinha dúvidas se teria motivação para andar em escalões mais baixos. Mas na altura pesei tudo. Fisicamente sentia-me bem, adorava futebol e o treino ainda me dava um prazer enorme. Muitos colegas perguntavam-me se eu tinha necessidade de continuar a jogar, mas a verdade é que a paixão era muito grande. Se parasse, ia fazer o quê? Nós andamos na vida para sermos felizes e eu era feliz a jogar e, por isso, não fazia sentido parar. Tive o convite do Espinho e a verdade é que nesses anos comecei a desfrutar do futebol de uma maneira diferente. Foram duas épocas fantásticas no Espinho e que me permitiram depois dar o salto para o projeto do Salgueiros.

A paixão [pelo futebol] era muito grande. Se parasse, ia fazer o quê?

Diogo Valente ao serviço do Espinho, clube pelo qual se estreou nas divisões inferiores (2019-2021) - Foto: D.R.

— Porquê o Salgueiros?

— O Espinho queria que eu continuasse, mas o projeto do Salgueiros cativou-me, não só pelo nome do clube, mas também pela mística. Já tinha uma admiração pelo clube e hoje percebo porquê. Há um carinho muito grande das pessoas pelo Salgueiros. Identifiquei-me muito com os valores do clube. Não tendo as melhores condições e tendo passado por muito, mantém a vontade de se reerguer. O acreditar das pessoas de que o clube vai voltar ao topo fez-me querer fazer parte dessa história. É um sentimento que não se explica, só quem o representa sente.

— O que é que lhe propuseram na altura?

— Acima de tudo, a subida de divisão. Eu queria estar num projeto onde ganhasse mais vezes e tivesse condições para isso. O plantel era muito forte, com colegas de grande experiência e qualidade, o que me fez acreditar que era possível. Além disso, fui movido pelas pessoas que estavam no clube, como o Miguel Salvador.

«Nunca imaginei ser tão feliz no Salgueiros»

Diogo Valente esteve cinco anos no Salgueiros e ganhou um amor para a vida - Foto: D.R.

— Foram cinco épocas. O clube onde fez mais jogos. Esperava ficar tanto tempo?

— Foi um final de carreira que eu nunca imaginei ser tão feliz. Vivi momentos muito bons. Faltou apenas a tão ambicionada subida de divisão. Por tudo o que dei ao clube e por tudo o que as pessoas me retribuíram — carinho, admiração e respeito — a minha gratidão para com eles é enorme. Dei o meu máximo, dentro e fora do campo, de alma e coração, como diz o lema do clube. Entreguei-me de tal maneira que passei ali momentos difíceis, como este. Eu só queria desfrutar do final da minha carreira e a verdade é que acabei por sofrer a pensar no clube. Não tinha necessidade de sofrer tanto, mas consegui manter o clube no mesmo patamar, quando podíamos ter descido de divisão.

«A melhor profissão do Mundo»

— Porque é que decidiu que este era o momento de parar?

— Eu já tinha decidido no princípio da época que seria a minha última temporada no Salgueiros. Senti que era o fim de ciclo como jogador. Tal como na Académica, quero ser lembrado como um jogador que apresentou sempre um bom rendimento. Coletivamente, esta época não esteve ao nível das outras. Mas a minha grande dúvida era se ia continuar a jogar. Estive na dúvida até à última semana. Nos últimos dias, refleti sobre tudo o que se passou e pensei que, depois de toda esta aventura e de tudo o que vivi no Salgueiros, só fazia sentido terminar ali. Fui para o último jogo e tenho pena de não ter tido gente próxima presente, porque pouca gente sabia que ia ser o meu último. Comuniquei apenas aos meus colegas no próprio dia, para não criar alarido.

— Porque tomou essa decisão?

— Porque fomos para a última jornada a poder descer de divisão. No meio disso tudo, o menos importante era a minha despedida. Não quis que fizessem uma festa à volta disso, não pensei em mim. Acabei por ter as pessoas mais importantes da minha vida lá — a minha mãe, o meu irmão e os meus filhos. Mas gostava de ter tido outras pessoas importantes na minha carreira — família, amigos... [emociona-se] Fica o sentimento de dever cumprido e um orgulho muito grande no meu percurso. Mais do que os golos, as assistências e as jogadas, o que mais me orgulha é o reconhecimento de tanta gente do futebol: colegas, treinadores, presidentes... O respeito e a consideração que têm tido por mim é o melhor troféu desta carreira. Vou sentir falta do balneário e de tudo o que se passa fora das quatro linhas. É a melhor profissão do mundo.

Diogo Valente com os filhos no último jogo da carreira - Foto: Marcelo Pereira

— Pensou em acabar no Boavista ou no Beira-Mar, onde tudo começou?

— Fui pensando nisso ao longo da carreira, em como seria o meu final. As pessoas diziam que seria bonito acabar onde tudo começou. Mas, no futebol, temos de pensar friamente. Teria de haver interesse do Beira-Mar, por exemplo. Gosto de me sentir valorizado e, embora tenha tido oportunidades para voltar, essa valorização não aconteceu. Por isso, senti que não tinha de acontecer só porque seria bonito.

— No Salgueiros ia de comboio para o Porto para treinar.

— É verdade! No primeiro ano no Salgueiros, íamos de carro: eu, o Cícero, o Mica e o fisioterapeuta. Mas era uma viagem desgastante e com muita despesa, apesar de dividirmos os custos. O trânsito de manhã, o acordar cedo, o regresso... No ano seguinte começámos a testar o comboio e funcionou muito bem. Hoje, metade do plantel do Salgueiros vem de comboio de diversos pontos do país: de Braga, de Barcelos, de Coimbra, de Espinho... É um meio de transporte confortável, onde podes ir a ler um livro ou a ver uma série, sem o desgaste da condução. Financeiramente, também compensa muito, especialmente com os incentivos que a CP tem dado. Em realidades onde o salário não é gigante, isso joga a favor do futebolista. Depois saímos na estação de Campanhã e organizamo-nos sempre para haver boleias da estação para o campo.

— Qual foi o ponto mais alto desta bonita carreira?

— Os jogadores vão sempre buscar os títulos. A Taça de Portugal pela Académica é um marco, porque fui um elemento preponderante naquela conquista. Também fui campeão pelo FC Porto, mas não sinto da mesma forma. Ser internacional e jogar a Liga dos Campeões foram sonhos concretizados. Mas o ponto alto, para mim, foi o dia da minha estreia na Liga. Foi num UD Leiria-Boavista. Foi ali que senti que era jogador profissional de futebol. Cumpri o meu sonho. Foi o ponto de partida de tudo.