«O que António Fiúza fez comigo foi cruel. Cheguei a treinar na rua»
— Em 2014/15, foi para o Gil Vicente, também emprestado...
— Para não prejudicar a boa imagem que tinha em Coimbra, decidi sair. Nesse ano de Sérgio Conceição senti que já estava ao meu melhor nível. O Gil Vicente aceitou as condições de empréstimo do Cluj, para cumprir o meu último ano de contrato. Foi um ano que me marcou pela negativa e em que estive muito tempo sem jogar. O Cluj entrou em insolvência e o Gil Vicente, com dúvidas sobre a legalidade do contrato de empréstimo e receando um novo Caso Mateus, não quis correr riscos. O Sindicato de Jogadores, o clube, eu e o meu empresário quisemos saber a legalidade do contrato junto do Federação Portuguesa de Futebol e da Liga. Ninguém foi capaz de dar resposta e eu acabo por ser impedido de jogar em fevereiro. Foi uma fase negra da minha carreira. Pior do que isso, foi a falta de caráter e profissionalismo das pessoas que estavam à frente do clube. A Direção aproveitou-se disso para me excluir do grupo, tentando arranjar um motivo para deixar de me pagar o salário. Acabaram por aproveitar o facto de a situação ser incerta para me afastar, para não estarem a suportar um salário que era alto para o clube. Depois acabaram por me pagar, porque avancei para a Justiça, mas estive até ao final da época a treinar sozinho. Foram momentos difíceis, porque eu não sabia o que fazer.
— Onde é que treinava?
— Treinava sozinho, muitas vezes na rua. Eu vivia em Braga e fazia a viagem todos os dias com o César Peixoto. Mas, a partir de certa altura, deixei de ir, porque fui impedido de frequentar as instalações do clube. Muitas vezes ia correr à noite para aliviar o stress e para manter o ritmo. Preocupava-me o final da época, porque estava em final de contrato com o Cluj e ia ficar livre. Preocupava-me porque estava numa fase da carreira em que, com 31 anos, senti que já olhavam muito para a minha idade. Senti que, depois dessa época e de tudo o que passei, o meu nível ia baixar. Ou seja, ia deixar de ter interesse de clubes da Liga, depois de 10 ou 11 anos seguidos nesse patamar, onde todas as épocas tinha várias propostas. Foram momentos muito difíceis. Acabei por me inscrever num centro de alto rendimento para trabalhar fisicamente ao mais alto nível. Foi muito importante. Nessa altura, tinha casa na Figueira da Foz e fui viver para lá, para sair daquele meio. Ia muitas vezes correr para a praia sozinho, para pensar em tudo e aliviar. Foi das piores fases da minha carreira, pela crueldade das pessoas, nomeadamente da direção do Gil Vicente, na pessoa do António Fiúza. Eu percebo a posição de um presidente quando não há respostas, mas se fosse uma pessoa digna e de carácter ter-me-ia mantido no grupo até ao final da época, mesmo que não contasse para as opções. Manter-me-ia em contacto com os colegas, a trabalhar na mesma. O que ele fez foi cruel...
— E não houve ninguém que se solidarizasse consigo?
— O Sindicato dos Jogadores esteve sempre do meu lado. Procurou respostas e tentou perceber a legalidade do contrato para que a situação fosse ultrapassada. Mas a verdade é que nem a Federação nem a Liga foram capazes de dar uma resposta a isto. Além disso, os colegas foram fantásticos. Toda a gente conhecia o meu profissionalismo e sabia o que eu estava a passar. Tive sempre o apoio deles. No processo que tive de levantar contra o clube, muitos colegas se solidarizaram para servir de testemunhas e dizer o que realmente se passou.
— Seguiu-se a Turquia...
— Gostei muito da Turquia. Também era II Liga, mas financeiramente era algo que me agradava e tinha dois portugueses comigo, o Edinho e o Cícero. Foi uma aventura boa. O futebol de lá tem ambientes fantásticos. Queria ter continuado, mas tive uma lesão na reta final da época e não me ofereceram a renovação. Acabei por voltar a Portugal, porque não surgiu mais nada de lá. Tive oportunidade de renovar em janeiro, não aceitei porque achei que teria convites de clubes maiores na Turquia. Mas o futebol é assim: tive a oportunidade, não aceitei e depois, com a lesão, o clube já não teve interesse.
— Regressa então a Portugal. Porquê o Freamunde?
— Não tive propostas de fora que justificassem, financeiramente, abandonar a minha família, porque nessa altura já comecei a pensar na estabilidade familiar. A minha filha ia entrar na escola... Aceitei o Freamunde já no final do mercado, em setembro. Disseram-me que ia ser inscrito, mas a verdade é que não conseguiram, porque tinham atingido o limite de inscrições. Só comecei a jogar em janeiro, quando o clube já estava abaixo da linha de água.
— Como foram esses seis meses em que não pôde jogar? Já tinha tido essa experiência...
— Sim, mas desta vez, pelo menos, estive integrado no grupo. Fui-me adaptando aos colegas, sempre a trabalhar com eles e a ganhar forma física. Foi completamente diferente. Depois, ainda fiz uma boa meia época.
«Faltaram golos na minha carreira»
— Depois continua na Liga 2, mas na Oliveirense.
— Sim, surgiu o convite da Oliveirense, mais perto de casa. Essa época foi muito boa. Em termos de números, foi a época em que fiz mais golos na carreira. Foi algo que faltou um pouco no meu percurso. As pessoas sempre reconheceram a minha qualidade, mas sinto que se tivesse sido mais goleador teria atingido outro nível.
— O que acha que faltou nesse sentido?
— Talvez mais ênfase da parte dos treinadores. Lembro-me de que o Pedro Miguel, na Oliveirense, dava muita importância a isso. Os treinadores moldam os jogadores. O Pedro Miguel marcou-me muito porque, aos 33 anos e com toda a experiência que eu já tinha, não estava à espera de aprender tanto como aprendi com ele. Fez-me ver as coisas de outra forma e ajudou-me nessa parte goleadora. Mas sempre fui mais um jogador de assistências. Também apanhei a transição do futebol. Quando apareci, as características dos extremos não exigiam tanto golo. Éramos jogadores de linha, de cruzamentos.
«Melhor do que eu a cruzar só o Drulovic»
— Disseram-me que fazia das melhores bananas nos juniores do Boavista...
— O cruzamento sempre foi a minha maior qualidade. No último terço, eu era muito bom no último passe e no cruzamento. Modéstia à parte, não vi um jogador a cruzar melhor do que eu até hoje. É a minha opinião. Atenção! Só um é que cruzava melhor, o meu ídolo, o Drulovic. Esse sim, cruzava melhor, era imbatível. Peço desculpa [risos]. Lembro-me do Quaresma, que cruzava muito bem, e do Alex Telles no FC Porto, que era muito parecido comigo nesse aspeto da banana. Mas, acima de mim, só o Drulovic [risos]!