«Fui para o FC Porto como grande esperança, mas com meia época sem jogar»
— O Diogo colava recortes de jornais nos cadernos da escola e na secretária, com sonhos que se vieram a cumprir-se...
— Isso é uma paixão que vem de criança, em que tinha muitos pósteres colados na parede do quarto, em casa dos meus pais em Aveiro... Depois, no Boavista, fazia esses recortes e montagens. Recortava palavras ou letras dos jornais e tentava formar frases que diziam coisas como: «Diogo Valente chamado por Jaime Pacheco» ou «Diogo Valente convocado para a seleção» ou «Diogo Valente marca golo fantástico». Não era fácil, porque o nome Valente não era muito comum, mas fazia letra a letra... Já idealizava aquilo que um dia queria que escrevessem sobre mim. A verdade é que, mais tarde, já não precisei de fazer essas montagens, porque o meu nome já vinha impresso nos jornais. Já era uma realidade. Quando houve oportunidade de o Jaime Pacheco me chamar para integrar o plantel profissional, senti que realizei um sonho, mas sempre com os pés bem assentes na terra. Sabia que tinha de trabalhar muito para manter esse sonho.
— O Boavista estava em altas...
— Sim, o Boavista tinha sido campeão nacional três anos antes, no ano em que cheguei ao clube, com 15 anos. Na altura, morava no lar do clube, que era debaixo da antiga bancada do Estádio do Bessa, virado para o campo de treinos. Muitas vezes, faltava às aulas para ficar a olhar para aqueles jogadores e a acompanhar os treinos.
— No Boavista, ainda jogou com João Vieira Pinto. Como foi partilhar balneário com um ídolo?
— Foi a primeira lenda que apanhei. Eu tinha 19 anos quando integrei o plantel profissional, que já tinha grandes nomes do futebol português, mas o João Pinto foi, sem dúvida, o primeiro dinossauro do futebol que apanhei. Era uma pessoa fantástica. Contudo, na relação com ele, eu era sempre muito envergonhado. Lembro-me de que o tratava por 'você', o que no futebol já não existe... Tinha uma admiração e um respeito enorme por ele. Até houve um dia em que, num estágio, fui nomeado colega de quarto dele, mas passava mais tempo fora do quarto do que lá dentro. Eu tinha vergonha de estar ali com ele, não sabia o que dizer nem como me comportar. Mas ele sempre me deixou muito à vontade. Foi uma pessoa incrível. Conheci muitos dos meus ídolos de criança e todos eles se revelaram pessoas muito simples e humildes, o que acabou por influenciar a minha forma de estar no futebol.
— Como por exemplo...
— O Vítor Baía. Como portista, ele era um dos meus maiores ídolos. Anos mais tarde, acabou por ser meu colega no FC Porto. Conhecer e trabalhar com ele foi uma sensação fantástica. Naquela altura, o Vítor já não era titular absoluto, era a fase em que o Helton começava a assumir a baliza, mas mantinha-se um grande profissional. Ensinou-me muito sobre o rigor, por exemplo, com os horários. Nunca pagava multas de atraso. A pontualidade é algo que valorizei ao longo da carreira. Outro ídolo que conheci, embora não tenha privado com ele, foi o Drulovic. Também tive pósteres dele no meu quarto. Conheci-o mais tarde no Estádio do Bessa, ele estava lá a ver um jogo. Pedi ao meu antigo empresário para mo apresentar. Senti um nervosismo enorme por estar perante aquela figura que tanto acompanhei.
«Ainda não estava preparado para o FC Porto»
— Trocou o Boavista pelo FC Porto em 2006 e acabou por fazer apenas um jogo. Como foi essa transição?
— Foi a realização de um sonho. Era portista ferrenho desde pequeno. Por outro lado, foi deixar um clube muito importante no meu percurso profissional, o Boavista, onde terminei a minha formação e onde era um 'menino querido'. Tive muito sucesso lá, fui revelação e despertei o interesse dos grandes. O passo para o FC Porto era inevitável para a minha carreira, mas a verdade é que acabei por não ter o sucesso que gostaria no clube com que sempre sonhei. É uma mágoa que tenho, um dos objetivos que ficou por concretizar. Cheguei a um FC Porto com uma dimensão diferente da do Boavista, com jogadores de renome mundial: Ricardo Quaresma, Tarik Sektioui, Lisandro López, o Vieirinha a aparecer... Era um plantel muito forte, que me deu pouco espaço para mostrar o meu valor. Além disso, era um miúdo e sinto que ainda não estava preparado para esse passo. Tudo aquilo mexeu comigo. Outro fator foi o treinador. Fui contratado pelo Co Adriaanse, que saiu na pré-época por divergências com a Direção. Chegou o Jesualdo Ferreira, que acabou por não apostar em mim e não me deu muito espaço para crescer. Houve ainda outro fator que condicionou. Eu assinei pelo FC Porto em janeiro, depois de um dos melhores jogos da minha carreira no Estádio do Bessa, que deu o apuramento para o Europeu de sub-21. A partir desse momento, sendo eu titular no Boavista, deixei inexplicavelmente de ser opção até ao final da época... Fui para o FC Porto como uma das grandes esperanças do futebol português, mas com meia época sem jogar. Ainda hoje estou para perceber porquê.
— Nunca procurou perceber?
— É tudo muito estranho. Não procurei saber, mas desconfio do que se passou. Depois de todos estes anos e da bagagem que ganhei, percebo o 'lado mau' do futebol. Sinto que, depois de o negócio estar feito, pode ter havido receio de uma lesão que pudesse fazê-lo ruir. Não procurei saber, são águas passadas, mas sinto que algo se passou. É estranho um titular do Boavista, internacional sub-21 e que assina pelo FC Porto deixar de jogar de repente. Sinto que tudo isso condicionou o meu sucesso. Outra mágoa foi não ter sido internacional A. Estive muito perto, passei pelos sub-21 e pela Seleção B, mas não cheguei lá.
— Em 2006, esses sub-21 foram ao Europeu em Portugal. Tinham uma equipa com muita qualidade. Que memórias tem desse torneio e o que falhou? As expectativas eram muito altas...
— É verdade, foi um falhanço. Era uma seleção incrível: Nani, Quaresma, Hugo Almeida, Raul Meireles, Hugo Viana, Manuel Fernandes, João Moutinho, Varela, João Pereira, Zé Castro... Fortíssima. Acho que faltou maturidade. Tínhamos 20 ou 21 anos e não soubemos lidar com toda a expectativa e euforia que se gerou em torno da equipa, por ser o futuro de Portugal e pelo Europeu ser em casa. Acabámos por falhar completamente.