Pontapé de saída do Mundial 2026 foi dado no México, no mítico Estádio Azteca — foto: IMAGO
Pontapé de saída do Mundial 2026 foi dado no México, no mítico Estádio Azteca — foto: IMAGO

O mês em que voltamos a ser crianças

Começou o Mundial. Nas próximas semanas, o mundo voltará a parecer maior e mais pequeno ao mesmo tempo. Maior, porque cabem nele todos os sonhos. Mais pequeno, porque cabem todos dentro de uma bola. 'Bar Nilo' é o espaço de opinião de Luís Aguilar, comentador desportivo

Começou o Mundial. E, como acontece, de quatro em quatro anos, o mundo voltou a fingir que é uma aldeia. Durante um mês, as fronteiras tornam-se linhas desenhadas a lápis, as diferenças políticas escondem-se atrás das bandeiras e milhões de pessoas que nunca se cumprimentariam na rua partilham o mesmo nervosismo perante uma bola que rola.

Será o último de Cristiano. O último de Messi. O capítulo final de uma história que nos acompanhou nas últimas duas décadas. Há crianças que aprenderam a ler quando eles já eram os melhores do mundo. Há adultos que envelheceram ao ritmo dos seus golos. E agora chegam aqui como os velhos pistoleiros nos filmes do Oeste. Ainda perigosos. Ainda respeitados. Mas já acompanhados pelo rumor da despedida.

Nenhum Mundial começa apenas no presente. Começa também na memória.Cada adepto transporta consigo um álbum invisível. Pelé a correr numa fita que começa a preto e branco e que continua num filme a cores. Maradona a desafiar a lógica e os deuses. Romário e Bebeto abraçados como dois gémeos de mães diferentes. Zidane a rodopiar em versos escritos num relvado. Os Mundiais não pertencem ao calendário. Pertencem à infância.Talvez seja por isso que continuamos a amá-los. Porque nos devolvem uma versão de nós próprios que julgávamos perdida.

Durante quatro anos somos pessoas demasiado ocupadas para visitar a criança que um dia fomos. Pagamos contas. Cumprimos horários. Fazemos promessas que não cumprimos. Carregamos preocupações que não acabam. Depois chega um Mundial e voltamos a ter dez anos. Voltamos a acreditar que um remate pode mudar uma vida. Que um golo aos 90 minutos pode corrigir uma injustiça antiga. Que o impossível não é uma palavra definitiva.

O Mundial é uma máquina de fabricar a beleza da infância dentro de adultos que se esqueceram como se sonha. E talvez seja por isso que perdoamos tanto. Perdoamos a hipocrisia. Perdoamos os discursos vazios. Perdoamos os dirigentes que falam de igualdade enquanto se ajoelham perante o dinheiro. Perdoamos uma organização que há muito escolheu dormir ao lado do poder. A FIFA muda de cenário, muda de slogan, muda de anfitriões, mas mantém uma estranha vocação para confundir influência com virtude e riqueza com mérito.

Sabemos tudo isso. Sabemos demasiado. Mas também sabemos que existe um instante em que a cerimónia termina, os discursos desaparecem e a bola começa a rolar. Nesse momento, a política perde volume. Não desaparece. Nunca desaparece. Mas fica em silêncio. E então entra em campo a parte mais poderosa da humanidade. A imaginação. Porque o futebol é uma das poucas coisas capazes de unir o sol e a sombra. A beleza e a miséria. O cinismo e a inocência. O negócio e a arte. 

Durante um Mundial, um rapaz desconhecido pode tornar-se eterno numa tarde. Um país pequeno pode desafiar um império. Um remate pode transformar-se numa recordação que sobreviverá décadas.

É por isso que continuamos aqui. Não por Infantino. Não pelos patrocinadores. Não pela falsidade e hipocrisia nos bastidores do poder.

Estamos aqui por aquele instante raro em que o coração chega antes da razão. Estamos aqui porque ainda acreditamos nos heróis, mesmo sabendo que são humanos. Estamos aqui porque o futebol continua a ser a mais bela desculpa para sonhar acordado.

E porque, algures entre a corrupção dos homens e a pureza da bola, existe um território onde a infância resiste.

Começou o Mundial. Nas próximas semanas, o mundo voltará a parecer maior e mais pequeno ao mesmo tempo. Maior, porque cabem nele todos os sonhos. Mais pequeno, porque cabem todos dentro de uma bola.

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