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Herói de Cabo Verde comove-se: «Sozinha, a minha mãe fez de mim o que sou hoje»
Kevin Pina tornou-se o novo herói de Cabo Verde ao marcar o primeiro golo de sempre da seleção num Campeonato do Mundo, no empate a duas bolas frente ao Uruguai. O médio do Krasnodar e ex-Chaves, de 29 anos, dedicou o momento histórico à sua filha Jasmin, de um ano, mas foi ao falar da sua mãe, Maria, que a emoção veio ao de cima numa entrevista ao Globoesporte.
O jogador, que atua na Rússia, não conteve as lágrimas ao recordar a sua infância na Praia, capital de Cabo Verde, marcada pela ausência do pai e pelos sacrifícios da mãe para o criar. «Posso citar a minha mãe. O meu pai viajou para os Estados Unidos, deixou-nos com quase dois anos de idade. Eu cresci sem pai», confessou Pina. «Não culpo o meu pai. Infelizmente é assim. O que posso dizer é que a minha mãe sozinha fez de mim o que sou hoje, por vários motivos, pelas várias formas de educação. Foi pai e mãe», atirou.
O atleta recordou as dificuldades de crescer numa zona com «muita violência, drogas, muita coisa», mas sublinhou que a sua mãe foi a grande referência que o manteve no caminho certo. A emoção foi tão forte que teve de interromper a entrevista por duas vezes. «Lembro-me de ela ir trabalhar todos os dias e chegar a casa às 11 da noite. Passava o dia, às vezes, sem a minha mãe», recordou, visivelmente comovido. «Tenho dois tios que considero como meus pais, mas tomaram um caminho diferente. São muitas lembranças... às vezes, é difícil de lembrar...»
«Sem dúvida que é o grande amor da minha vida. O que sou hoje é graças a ela, fez tudo por mim, não me deixou faltar nada», declarou. O jogador expressou o desejo de retribuir, planeando oferecer-lhe uma casa e um carro, além de viajar pelo mundo com ela. «Acabou de tirar a carta de condução, merece um carro. Ia até fazer-lhe uma surpresa», partilhou, acrescentando: «Quero viajar o mundo com ela e aproveitar os pequenos momentos que o mundo nos proporciona.»
Kevin Pina revelou ainda que, devido a estas memórias, está a receber acompanhamento psicológico para lidar com «algumas coisas do passado que ainda não foram resolvidas». Se a emoção marcou as palavras sobre a mãe, a ternura dominou a dedicatória do golo à sua filha, Jasmin, que estava no estádio em Miami com a avó Maria e a mãe, Janine. «Desde o momento em que chegou à minha vida, mudou tudo, positivamente. É mais uma pessoa que me inspira», afirmou o jogador.
Apesar da alegria pelo feito histórico, Pina sente que nunca poderá retribuir totalmente o que a sua mãe fez por si. «Continuo a dizer-lhe que não há nada que recompense aquilo que ela fez por mim. Posso dar-lhe o mundo e não chegará ao esforço que ela fez. Por toda a dedicação, o amor que me deu, mas tento retribuir de qualquer forma», disse, entre lágrimas.
«Pedi muito a Deus para me abençoar com um golo»
Sobre o golo, o médio cabo-verdiano, que se assume fã de Ronaldinho Gaúcho e Casemiro, admitiu que a ficha ainda não caiu. «Posso começar por dizer que há coisas para as quais não há palavras, é só sentir à flor da pele. Estou muito feliz, realizado, este feito é um orgulho, principalmente pela minha história e pela minha família».
O médio cabo-verdiano Kevin, figura dos Tubarões Azuis, revelou que, após marcar um golo, a primeira imagem que lhe veio à cabeça foi a da sua filha e família, que procurou de imediato na bancada. «Pedi muito a Deus para me abençoar com um golo», confessou.
A popularidade do guarda-redes Vozinha no grupo também foi tema de conversa. «O Vozinha merece por tudo o que fez pela seleção e pelo nosso povo. Ele sempre foi uma lenda, agora é mais ainda. Estamos sempre a brincar com ele sobre a quantidade de seguidores», comentou Kevin, sublinhando que «o mundo do futebol é muito mais que apenas futebol».
«Vamos passar, se Deus quiser»
Com um desafio decisivo pela frente contra a Arábia Saudita, que pode garantir a passagem à fase a eliminar, a confiança no seio da equipa de Cabo Verde é elevada. «Estamos muito confiantes. Esta semana começámos bem a preparar o jogo. O nosso grupo é muito tranquilo. Vamos passar, se Deus quiser», afirmou o jogador, recordando os bons resultados contra Espanha e Uruguai.
Sobre o regresso a Cabo Verde após o Mundial, Kevin admite estar ansioso. «Já tentei imaginar, mas acho que vai ser uma surpresa para nós. É diferente estar aqui a jogar e estar no nosso país. Espero que seja com muita alegria e festa», projetou.
Por fim, deixou uma mensagem de agradecimento e esperança ao povo cabo-verdiano: «Para os cabo-verdianos: é muita emoção, primeira vez, uma coisa nova. Ao mesmo tempo, estamos com os pés no chão, concentrados para fazer história e dar alegria ao nosso povo!»