Luis Suárez mais uma vez decisivo

Há um 'relógio do destino' alinhado com o fuso do Sporting (crónica)

Quatro jogos seguidos a vencer com golos obtidos no tempo complementar, representam um padrão que vale a pena esmiuçar. Os jogadores do Sporting, mesmo pouco inspirados como em Arouca ou com o Nacional, acreditam que mesmo fora de horas ainda podem ser felizes...

A ‘estrelinha’ que acompanhou o Sporting nos derradeiros minutos dos jogos com PSG, Arouca, Atl. Bilbau e Nacional, é daquelas que dá muito trabalho a ‘afinar’. Porque, apesar de ser estrela, não é cadente, o que quer dizer que os triunfos leoninos nesses jogos não caíram do céu. A equipa de Rui Borges só saiu vencedora dessas partidas porque teve força mental para acreditar até ao fim, e isso não é fruto do acaso ou da sorte, antes radica num espírito competitivo superlativo. E se a boa onda com o PSG alimentou o sucesso de Arouca, os dois deram força aos jogadores para o êxito de Bilbau, e os três juntos criaram força anímica para encarar os minutos finais com o Nacional com a certeza de que algo de gratificante estava para acontecer. É bom não esquecermos que imediatamente antes do fabuloso golo de Luís Suárez (90+6), um calcanhar de enorme espetáculo e maior eficácia, o ‘matador’ colombiano tinha visto, aos 88 minutos, outra finalização sublime, após um passe tremendo de Trincão, ser invalidada por oito centímetros (como o futebol ficaria mais justo se o International Board tivesse aprovado a lei-Wenger!). Quer isto dizer que não faltou convicção ao Sporting para o assalto final à fortaleza do Nacional, cujos jogadores cederam à pressão de saber aquilo de que os verdes-e-brancos eram capazes no lavar dos cestos.  

Verde pálido

Talvez a culpa tenha sido da intempérie que se abateu sobre Alvalade (extraordinária a drenagem do tapete verde), mas a verdade é que a primeira parte do Sporting deixou muito a desejar. Sem Hjulmand e com Trincão a ser alvo de poupança, faltou aos leões maior coesão no meio-campo, onde foram permitidos aos jogadores do Nacional demasiados espaços, verificou-se um apagamento de Pedro Gonçalves, perdido em terrenos onde havia uma grande densidade de jogadores por metro quadrado, e enquanto Catamo, na direita, andou escondido do jogo durante demasiado tempo, no outro lado Luís Guilherme, apesar de bons apontamentos, nunca teve estaleca para carregar a equipa. 

Galeria de imagens 14 Fotos

Perante este cenário, o Nacional, que se apresentou num 5x4x1 muito dinâmico, que permitia uma surpreendente capacidade de atacar as saídas de bola dos leões, cortando-lhes as linhas de passe ainda antes de chegarem ao meio-campo, foi capaz de ensaiar alguns ataques rápidos ‘mal intencionados’, beneficiando da qualidade de Chucho Ramirez e da velocidade de Paulinho Boia, apoiados pelo ex-portista Gabriel Verón.

Aliás, a primeira grande sensação de golo cantado pertenceu aos insulares, quando, num lance de três contra um (onde é que o Sporting estava com a assertividade tática?) Quaresma escorregou, Paulinho Boia progrediu no terreno e deu a Veron a possibilidade de fazer o 0-1, que apenas não aconteceu em primeiro lugar porque o brasileiro rematou com pouca convicção; depois porque Catamo fez a defesa da sua vida, esticando o pé esquerdo para deter a marcha do esférico rumo ao fundo das redes à guarda de Rui Silva

Este susto fez com que os leões regressassem à terra e passassem a colocar um pouco mais de pressão onde escasseava a inspiração. Foram minutos em que a equipa de Rui Borges tentou sobretudo penetrar pelas alas, sendo as tentativas contrariadas, sem drama, pelo Nacional: Kaike Pereira teve de fazer três defesas a remates à figura até que, aos 45+2 (até parece que o Sporting só liga o turbo quando vê subir a placa do quarto árbitro) Geny Catamo teve uma excelente iniciativa pela direita, concluída com um cruzamento perfeito para Suárez, que rematou para grande defesa do guardião insular.  

Verde mais forte

Ao intervalo, os treinadores não mexeram nas equipas, mas o Sporting surgiu mais desperto, colocando uma intensidade superior no jogo, que obrigou a um acantonamento dos forasteiros junto à sua baliza. Depois de Maxi (57) ter batido um livre direto para boa defesa de Kaike, Rui Borges decidiu alterar o onze, chamando a jogo Trincão, para dar mais fantasia, e o estreante Faye (que teve uma prestação inconclusiva), por troca com João Simões e Luís Guilherme.

Destas mudanças resultou a passagem de Pedro Gonçalves para a posição ‘oito’, o que lhe deu mais raio de ação. Tiago Marcarido refrescou a ala esquerda com Witi, mas logo após uma boa defesa de Rui Silva a remate de José Gomes (72), Pedro Gonçalves recargou um remate de Trincão e fez o 1-0. Jogo resolvido? Nem tudo o que parece, é. Quatro minutos depois, uma intervenção deficiente de Rui Silva a remate de Verón deu a Alan Nuñez a hipótese de empatar o jogo, espalhando nervosismo pelas bancadas de Alvalade.  

O treinador leonino entendeu então, e bem que Pedro Gonçalves já estava demasiado fatigado, trocando-o por Kochorashvili, e tirando Catamo para fazer entrar o supersónico Alisson. O Nacional resguardou-se com Daniel Junior e Labidi, e parecia que ia levar a sua nau até bom porto, quando Suárez marcou (88), e o VAR desqualificou o golo por oito centímetros. Mas estava escrito nas estrelas que o Sporting ia mesmo ganhar o jogo e conseguiu-o de uma forma que fez saltar as rolhas das garrafas de champanhe: Alisson ganhou a esquerda, cruzou uma bola ‘redondinha’ e Suárez, de calcanhar, deu a vitória aos leões. Um final épico para um jogo com muitas fases mornas e unhas roídas até aos cotovelos por parte dos adeptos verdes-e-brancos.