Há mais marés que marinheiros
Com a chegada do Militão, do Mbemba e a renovação do Maxi, a defesa do FC Porto tem, teoricamente, soluções suficientes. Escusado será dizer que mais tarde se verá se o brasileiro e o congolês são jogadores com os requisitos necessários para jogar no FC Porto. Que o Militão faça tão boas exibições no FC Porto a central como tem feito a defesa direito no São Paulo e que mostre o porquê de tanta gente (eu incluído) pensar que é das melhores aquisições do FC Porto em muitos anos e que o Mbemba seja mais eficaz nos duelos aéreos do que foi no futebol inglês e que perceba rapidamente que o primeiro mandato de um defesa é defender e só a seguir vem o resto (e que este começo azarado traga muita sorte futura). Que tenham muito sucesso. Os seus feitos serão os nossos e os seus revezes também.
Neste momento estamos teoricamente com o mesmo plantel com que começámos a última época - parto do princípio, pouco provável, admito, de que não vão haver mais saídas relevantes. É verdade que ninguém pode saber se algum dos novos centrais faz esquecer o Marcano ou se o João Pedro ou o Militão são, pelo menos, tão bons como o Ricardo, mas convém lembrar que, no ano passado, por esta altura tínhamos razões para estar bem mais céticos do que estamos hoje. O Herrera era o patinho feio, nem queríamos ouvir falar do Marega, o Aboubakhar torcia o nariz a regressar ao Porto, o Sérgio Oliveira era para fazer número para os treinos e ninguém sabia se o Ricardo ia resultar - sim, nunca é de mais enaltecer o extraordinário trabalho do mister Sérgio Conceição.
Não retiro uma vírgula ao que tenho dito sobre a necessidade de reforços, o brasão abençoado merece ter sempre mais e melhores jogadores, mas é bom ter memória e, sobretudo, valorizar o que temos em casa e o que foi feito na última época.
Insisto, precisamos de mais soluções, mas estou convencido que o nervosismo dos adeptos portistas está mais ligado ao que para aí vai na nossa concorrência.
De facto, assistir a clubes que parece terem descoberto um poço de petróleo nas traseiras dos respetivos estádios é coisa para perturbar os mais impressionáveis. Mas lá por o nosso rival da Luz gastar, tudo somado, quase 40 milhões de euros em dois avançados, e comprar tudo o que mexe, e que o de Alvalade compre Nanis e pague fortunas a jogadores que já estavam no plantel não nos pode levar a pedir aos nossos dirigentes que entrem também em loucuras semelhantes.
Nós, portistas, sabemos bem quais são as consequências de perder a cabeça em termos financeiros: não há sonho que justifique pôr em causa a estabilidade da nossa casa.
Erros
SE qualquer contratação tem sempre uma componente aleatória, trazer jogadores de equipas pequenas para grandes tem sempre um risco suplementar: a incapacidade de lidar com a pressão inerente a jogar num grande clube. Muitas das vezes não é a capacidade técnica, nem física, nem tática que está em causa, mas sim a obrigação de jogar sempre para ganhar, de não poder haver sequer um segundo de descompressão, seja em ambiente competitivo, seja de treino.
Por essas e outras razões não fico em choque quando chegam jogadores que passados uns meses se percebe que não servem para o clube e são mandados embora ou se transformam num encargo sem retorno. O futebol está longe de ser uma ciência exata e a enormidade de imponderáveis faz com que se erre muitas vezes nas contratações. E, claro, também não faltam situações em que um jogador deixa uma impressão muito negativa e, mais tarde, se torna numa vedeta - vá, levante-se o primeiro que não teve um ataque de nervos quando se pronunciava o nome Marega.
É no balanço entre as vezes que se falha e acerta nas contratações que se avalia, em grande parte, o sucesso da gestão desportiva de um clube.
Encaro, assim sendo, com alguma naturalidade o insucesso das contratações da janela de transferências do último inverno - diga-se, aliás, que é rara a contratação nessa altura do ano que resulte. Pareciam bons jogadores, foram-lhes dadas oportunidades, mas, pura e simplesmente, não resultaram. Acontece amiúde, repito. Mais, e falando só de jogadores em atividade, bem estávamos se tivesse sido só com eles que tivesse corrido mal.
O que já não consigo entender é a aquisição de um passe de um jogador e passados quinze dias ser descartado.
São os casos de Saidy Janko e Ewerton, sendo que se no caso do brasileiro, pelos vistos, pode-se devolver o jogador à procedência sem custos (estranho, mas ainda bem que é assim), o suíço custou dois ou três milhões de euros aos nossos cofres. Para que se dispense um jogador em tão curto espaço de tempo é porque houve um erro crasso na avaliação das mais básicas qualidades do jogador. É caso virgem no universo do futebol? Claro que não. Mas, no momento em que todos os tostões são poucos, é uma situação de lamentar.
O Senhor Iker Casillas
Oguarda-redes do Liverpool, Loris Karius, caiu nas garras dos terroristas de teclado das redes sociais. Depois do célebre frango na final da Liga dos Campeões, o alemão teve mais umas falhas comprometedoras num amigável contra o Borussia de Dortmund e foi um fartar vilanagem de insultos e comentários achincalhantes.
Um dos melhores guarda-redes de todos os tempos, Iker Casillas, não gostou da pouca-vergonha e tratou de explicar que o erro faz parte da vida. Para exemplificar publicou um vídeo com uma coleção dos seus próprios frangos.
Não me custa admitir que os meus sentimentos em relação à vinda e à permanência do Casillas no FC Porto têm variado - sabem os deuses, e não me envergonho, que ao longos destes longos anos de adepto isso já aconteceu muitas vezes e com muitos jogadores. Sei muito bem o quão decisivo é ter um guarda-redes de classe, mas não deixo de me lembrar do que tem sido o custo financeiro para o clube. É uma balança que ainda não consegui equilibrar na minha cabeça.
Há atitudes, no entanto, que dizem tudo sobre a grandeza de um homem. A publicação do referido vídeo é um bom exemplo disso.
Não há honra maior do que ter o brasão abençoado ao peito, mas ter um homem desta dimensão humana a representar-nos é também um orgulho. Um senhor, um grande senhor.
Vou arejar. Regresso dia 17 de agosto já com mais uma Supertaça e três pontos no campeonato. Boas férias, se for caso disso.