Cheiro a napalm pela manhã
O fim do jogo entre FC Porto e Sporting, da primeira mão da meia-final da Taça de Portugal, veio lembrar-nos, se fosse preciso, como o futebol português continua a chapinhar, com a indiferença de quem dele deveria zelar, num pântano de acusações graves, suspeitas, desvalorização de comportamentos condenatórios e, sobretudo, completo desrespeito pela integridade do jogo.
A noite fechou com Frederico Varandas a ensaiar uma espécie de cântico, que facilmente será elevado a hino por turba composta de espectadores inocentes a fanáticos de seita. «Cobarde, cobarde, cobarde», atirou o presidente do Sporting, num insulto baixo a André Villas-Boas, mais adequado a outros locais e circunstâncias.
O que terá mudado, então, em pouco mais de 48 horas para que Frederico Varandas passasse a chamar ao presidente do FC Porto, para lá de cobarde, mentiroso, para acusá-lo de medo ou condicionamento dos árbitros, depois de o ter convidado, respeitando o protocolo e simpatia que dedica a dirigentes de outros clubes, fazendo fé nas notícias que foram publicadas, na tribuna presidencial?
No grande esquema das coisas, alguns lances polémicos, erros de arbitragem e uma acusação, que considerou falsa, de que chamou ladrão a um presidente da federação e a dois árbitros.
Frederico Varandas tem, naturalmente, o direito a contestar as afirmações de Villas-Boas, especialmente considerando-se ofendido. Aprendeu, em pouco tempo, como e quando falar e, sobretudo, disso tirar proveito no contexto do futebol português — várias vezes, já aqui escrevi, criticando comportamentos de outros que desvalorizou quando os protagonizou. E, seguramente de forma não inocente, também criou uma narrativa, com óbvios pontos de adesão à realidade, desvalorizando episódios, manifestações ou ações que lhe convém.
Continua a bater na tecla de que o Sporting é diferente, seguramente por ser impoluto, incorrupto, honesto, bastião de ética, corajoso, no fundo um clube de bem, com dirigentes de bem e adeptos e sócios de bem, como se todas as outras gentes fossem o contrário e representassem, em exclusividade, o mal.
A mensagem, na sua totalidade, não deixará, porém, de ter aceitação, por se encontrar com a realidade como, inevitavelmente, se cruzam várias linhas retas concorrentes. Dá um salto imprudente, todavia, quando faz julgamentos de intenção, mesmo que até possa acertar, ao dizer ter encontrado, por exemplo, no medo de Villas-Boas perder o campeonato a justificação para intervenção dele. É desagradável quando fala num tom paternalista para quem está a ouvi-lo e a fazer-lhe perguntas.
Se acredita mesmo que um presidente não tem necessidade de fazer o que Villas-Boas fez quando sente que a equipa é forte e vai ser campeã, então por que também fez o que fez depois de Villas-Boas? Justificou o gesto de Luis Suárez (avançado sugeriu roubo) com o calor do jogo — também posso reconhecer essa atenuante — mas esforçou-se por desvalorizá-lo ao desviar as atenções para um lance anterior.
Frederico Varandas, posto isto, sai como o maior vencedor da noite de terça-feira, por saber, já como especialista, ler e lidar com cada momento do futebol português. Não é pouco. Mesmo que para as outras gentes se tenha sentido o cheiro a napalm na manhã de quarta-feira.