Ao centro o António, pai da Elisabete, num encontro emotivo na Aldeia de Pena
Ao centro o António, pai da Elisabete, num encontro emotivo na Aldeia de Pena

Conhecer o António lá onde o morto matou o vivo

História de um encontro inesperado com um pai que ficou 'órfão' de filha… Na vida, muitas vezes nem o agora pode ser dado como certo. Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do meu Livro do Desassossego

Na aldeia da Pena, lá Onde o Morto Matou o Vivo - uma história antiga de um funeral que correu mal e o morto caiu da padiola em cima de um dos homens que o carregava acabando por arranjar parceiro para essa última viagem – a digestão de um excelente cabrito faz-se com um encontro inesperado. Um encontro com o senhor António, que ao perceber que eu era jornalista de A BOLA se apresentou como o pai da Elisabete Almeida. Não o conhecia, mas emocionei-me. Porque há quase 18 anos ele estava de rastos a enterrar uma filha de 39 anos.

A Elisabete pertenceu à família A BOLA durante alguns anos, no departamento de fotografia do jornal. Pedi-lhe muitas vezes ajuda. Uma mulher profissional, simpática, bonita e tão jovem, na dupla injustiça de ter uma doença limitadora e, não bastasse, ter morrido de uma outra, fulminante, que nem tempo deu para despedidas. Gostei de conhecer o senhor António esta semana, no meu périplo por São Pedro do Sul, apreciei a paz com que preencheu o vazio que sobrou de ter perdido a única filha. E lembro de outros pais que lidaram com a ordem desnatural das coisas, levando primeiro quem deveria levar no fim.  

Dou por mim a pensar no meu filho mais novo. Que me obriga a estudar sobre saúde mental sem chegar a outras conclusões que não os erros que cometi pelo caminho. O que deveria ter reparado e não reparei. Onde estaria quando precisou mais e, acima de tudo, onde não estive. Ele continua a travar a luta dele, eu a minha e a nossa. Nem sempre seguros do que estamos a fazer. Parar é que não é opção.  

Um abraço apertado – mais um – ao senhor Alntónio. Repito o que lhe disse no primeiro abraço: gostava da Elisabete. Que tenha encontrado Paz.  

Paz é também o que tem procurado o Miguel Lucena, que se junta à conversa a partir de outra mesa. Foi até ele quem me reconheceu. O Miguel passou pela formação do Benfica. No futebol não teve o sucesso que queria, mudou-se para o futsal. Jogou em Os Pelezinhos. Consta que era craque, mas o coração começou a pregar-lhe partidas. Hoje vive sob vigilância apertada, com receio de que um dia a máquina lhe diga que basta. Há planos que não passam disso mesmo. Sonhos abortados precocemente, prioridades que nos colocam no por vezes duro campo das escolhas. Viver é mesmo um ato incerto, caminhar sobre um risco tão ténue que nem mesmo o agora pode ser dado como garantido. Um abraço para o Miguel e o irmão João pela partilha e pela simpatia do que disseram em relação a A BOLA. 

De regresso a casa, depois de uns dias a descansar, finalmente tempo para perceber o que se passa no Mundo. Há guerra no Médio Oriente. No futebol, Varandas diz que Villas-Boas não tem categoria para ser presidente do FC Porto, o presidente dos dragões a queixar-se dos jogadores do Sporting e de Varandas. Farioli a acusar os leões de impunidade; Rui Borges – normalmente um paz de alma - a responder que Farioli deve adormecer e acordar a pensar no Sporting.  

Nada mudou, por milagre, nos últimos dias. Mas hoje, vou ser muito sincero, hoje em particular não estou com ânimo para estas questões. Amanhã falaremos disso…