Villas-Boas dispara contra o Sporting, Varandas contra o FC Porto e o Benfica também dispara - Foto: GRAFISLAB

Deviam ir todos comer uma canja

Nos jogos em Portugal, sobretudo no dérbi de Lisboa e clássicos, já se sabe que é esperada uma terceira parte: mas esta com pouco ambiente de convívio. Este é o 'Nunca mais é sábado', espaço de opinião de Nuno Raposo

A terceira parte. Nos jogos entre amigos, naquelas peladinhas entre o pessoal lá da terra ou entre os colegas de trabalho, muitas vezes a parte mais esperada é a terceira: depois do cansaço, o treino de descompressão e recuperação, com reposição de líquidos e sólidos.

Pois nos jogos em Portugal, sobretudo no dérbi de Lisboa e clássicos, já se sabe que é esperada uma terceira parte: mas esta com pouco ambiente de convívio, antes com queixas sobre arbitragem, críticas e insinuações algumas insultuosas para com os adversários e a anunciarem medidas de secretaria sobre situações passadas no terreno de jogo. É já um clássico.

A terceira parte do Sporting, 1-FC Porto, 0, da primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal, jogada na zona mista de Alvalade e na sala de imprensa, foi tão intensa como intenso (não necessariamente bem jogado) foi o jogo no relvado. Porventura mais ainda.

Mas começou logo com Francesco Farioli nas zonas de entrevistas rápidas da Sport TV e da RTP e prolongou-se pela conferência de imprensa onde se falou sobre arbitragem e pouco mais…

Na zona mista, André Villas-Boas abriu as hostilidades ainda Rui Borges falava na sala de imprensa, não querendo o presidente do FC Porto saber que um treinador estivesse a falar naquela altura, logo ele que por acaso até foi treinador… Respondeu Frederico Varandas a jogar em casa poucos minutos depois. No clássico do Dragão foi o que foi, no de Alvalade o que se viu…

Foi duro Varandas, muito duro, a certa altura percebeu-se que se esticou muito além do que pensava ir. Não ajudou. Mas respondeu ao que parece ser um hábito adquirido nos últimos tempos pelos azuis e brancos, e já agora pelo Benfica também, de ter um guião em que a as críticas às arbitragens estão sempre lá, com ou sem motivo, com ou sem razão. Estão lá e pronto e se não estiverem os interpretes vão lá parar até inconscientemente.

Veja-se José Mourinho, mestre da comunicação que não resistiu à tentação de reclamar um penálti (desta vez só um, mas mais um) depois da vitória por 2-1 no terreno do Gil Vicente. Fê-lo na flash da TV, voltou a fazê-lo na conferência de imprensa e depois mais tarde em declarações partilhadas pela comunicação do Benfica… «Já tive oportunidade de ver outro ângulo do lance que me pareceu penálti e não se confirma. Peço desculpa pelo meu comentário no final do jogo.» A ânsia da crítica é tanta que depois leva a situações embaraçosas como esta.

E isto acontece desde o início da temporada, em que os encarnados inauguraram a lista de comunicados de 2025/2026 com a arbitragem da Supertaça ainda mesmo antes de o jogo acontecer!

Continuou e continua e a tendência é para piorar à medida que o tempo das decisões se aproxima numa vertigem…

No próximo fim de semana há clássicos, sábado no Minho com um SC Braga-Sporting, domingo na Luz com um Benfica-FC Porto. Jornada importantíssima se não decisiva. E essa, já se viu, começou a ser jogada com antecedência. E até lá a tendência não é para melhorar…

Talvez não fosse má ideia seguirem o que fez Rui Borges no final do clássico da Taça e comessem todos uma canja para aconchegar o estômago e aclarar as ideias. Ganhávamos todos.