Entorse do tornozelo é lesão comum - Foto: Imago
Entorse do tornozelo é lesão comum - Foto: Imago

Entorse do tornozelo: gravidade ou banalidade?

'Mito ou Realidade' é o espaço de opinião de Bruno Pereira, ortopedista da Clínica Espregueira-Dragão, e João Espregueira-Mendes, presidente da Sociedade Mundial de Traumatologia Desportiva (ISAKOS)

A entorse do tornozelo é uma lesão muito comum no desporto e não obriga, necessariamente, a paragens longas ou a uma carreira recheada de recaídas mas, para isso, tem de ser valorizada desde o início.

Quando o pé vira de forma brusca, os ligamentos do tornozelo são esticados para além do limite e podem rasgar, sobretudo com rotação interna, lesionando a parte lateral. Estas entorses surgem em mudanças rápidas de direção, saltos e aterragens sobre o pé de um adversário, em modalidades como o futebol, basquetebol, andebol, voleibol ou, por vezes, só com irregularidades no terreno. Estudos em grandes séries demonstram que estas lesões são muito frequentes, provocando paragens desportivas significativas, acumulando um elevado número de dias de ausência, sobretudo em indivíduos jovens.

Clinicamente, as entorses ligeiras dão dor, inchaço moderado e alguma rigidez, mas o doente consegue apoiar o pé com cuidado. Nas entorses moderadas ou graves, a dor é intensa, o tornozelo incha rapidamente, pode surgir hematoma e, muitas vezes, é impossível continuar o exercício ou mesmo caminhar. Dor marcada no momento da lesão, sensação de estalo ou deformidade com suspeita de fratura exigem avaliação médica, habitualmente, com radiografia para excluir fraturas e ecografia/ressonância para pesquisar lesões ligamentares ocultas ou da cartilagem.

Nos primeiros dias, recomenda‑se o princípio POLICE: proteger o tornozelo, iniciar carga dentro do limite da dor, aplicar gelo, usar compressão e manter o membro elevado para controlar o edema. Em vez de imobilizar totalmente o tornozelo, a abordagem atual privilegia o início precoce do movimento e da carga, apoiada por ligadura ou ortóteses. Esta estratégia acelera a recuperação e reduz o risco de rigidez. A maioria das entorses resolve‑se com tratamento conservador e reabilitação adequada. A cirurgia é reservada para roturas graves dos ligamentos laterais, instabilidade marcada ou lesões internas significativas.

A fisioterapia é importante e funciona como uma pré‑época do tornozelo, começando por recuperar a mobilidade e controlar a dor, seguindo-se o reforço muscular e terminando com treino neuromuscular, equilíbrio, saltos, mudanças de direção e gestos específicos da modalidade. Os programas de treino neuromuscular, combinando força, equilíbrio e agilidade, reduzem de forma relevante o risco de nova entorse. O regresso ao jogo só é considerado seguro quando dor, mobilidade, força, equilíbrio, confiança, testes funcionais e capacidade para treinos completos estiverem restabelecidos, sob pena de estar aumentado o risco de recidiva e instabilidade crónica.

Embora não seja possível eliminar todos os fatores de risco, é fundamental investir num bom aquecimento, reforço muscular, treino de equilíbrio, ter em atenção as superfícies e a escolha de calçado adequado. Em atletas com antecedentes de entorse, o uso de tornozeleiras funcionais ou ligadura associado a programas de prevenção é uma boa metodologia para prevenir novos episódios.

A prevenção é mais barata e sempre mais eficaz!