Governar com ... governantes!...
Foi fácil para mim perceber que não era difícil passar de um tempo de comentador a um tempo de candidatura à presidência do meu clube. Sempre dei a minha opinião em liberdade, sem submissão a pressões ou obediência a cartilhas. Apenas a minha consciência limita a minha liberdade de pensamento ou a expressão dele. Em criança por uma questão de educação; em adulto, por imperativo de vida. É assim, e assim vou morrer!...
Em nome dessa liberdade, a minha candidatura foi a decisão de um homem livre. De um homem que quis perceber o momento que se estava a viver no seu clube, e que não se negou a dar a sua opinião sobre o futuro do mesmo. Um gesto que podia ser o princípio de algo de novo, ou o fim de qualquer coisa em que acreditava.
Independentemente da fraca votação que obtive, foi importante verificar que o meu tempo acabou, situação que, não me cansarei de repetir, aceito sem azedume ou amargura, mas com enorme preocupação. Mas também com a esperança de que o meu tempo acabou, mas um dia voltará, quando se perceber que a mudança não será nunca uma luta de gerações, mas a compreensão, por parte de cada um, do seu próprio tempo e do seu papel.
Não tem sido fácil, e não o vai ser nos tempos mais próximos, este tempo de transição do ex-candidato para o tempo de comentador, isto é, o regresso a comentador livre, mas apaixonado pelo seu clube de sempre. Não passaram ainda dois meses sobre o acto eleitoral que levou o homem, que tratava dos traumatismos físicos, a tratar agora do traumatismo moral que o Sporting sofreu recentemente, e que culminou o traumatismo, cada vez maior, de não vencer o campeonato nacional de futebol desde 2002 - segunda seca depois da primeira que durou de 1982 a 2000!...
Na verdade, qualquer crítica que se faça a uma decisão dos eleitos, poderá ser interpretada como despeito, conspiração ou, como costumo dizer, má língua. Não posso porém deixar de comentar os factos nos quais não tenho responsabilidade apenas para ser politicamente correcto.
O presidente Frederico Varandas, eleito há menos de dois meses, na sua entrevista ao Expresso, afirmou que «este clube é ingovernável», mas acrescentou que acredita que vai mudar isto. Eu também acho - e gostaria que muito mais gente tivesse a coragem de o dizer - que o clube é ingovernável. Mas lamento ter de dizer que não acredito que seja Varandas a mudar isto, como não acredito que eu conseguisse mudar ou qualquer dos outros candidatos o fizesse. Nós todos é que vamos ter de mudar e perceber que democracia não é bagunça, porque é a bagunça na democracia que conduz aos homens providenciais, e, posteriormente, à tirania e a ditadura.
O termo democracia, de origem grega, aplicado ao país, é o governo do povo português; aplicado ao Sporting (ou a qualquer outro clube) é o governo dos associados. Há duas formas básicas de democracia: a directa, em que todos os cidadãos elegíveis têm participação activa e directa na tomada das decisões do governo; e a representativa em que o poder é exercido através de representantes eleitos pelo povo. No Sporting reina a maior democracia que é possível, isto é, a directa e a representativa. Ainda há menos de dois meses elegeu os seus representantes para o governo do clube, mas quem continua a decidir são os representados! A democracia implica o respeito pelos que são eleitos. Mesmo por parte daqueles que não os elegeram!...
O Sporting continua a viver num círculo vicioso: não ganha no futebol porque não tem estabilidade directiva; não tem estabilidade directiva (nem técnica) e por isso não ganha.
Francamente, devo confessar que tive alguma esperança que iríamos ter um período de paz, porque mesmo a guerra mais justa cansa. Julguei mesmo, pelas reacções que provocou, que a intervenção de Ricciardi seria um acto desestabilizador, mas isolado e sem expressão. Infelizmente, não foi e, menos de um mês depois, temos o despedimento do treinador, justificado por quem o contratou e preparado e concretizado pelo presidente. E o Sporting de novo em destaque nos debates, nos comentários e nas noticias, qualquer que seja o órgão da comunicação social.
Faz hoje oito dias, acho que fui bem claro quanto a isso. Não preenchi o totobola à segunda - feira, mas quase! Era óbvio que Peseiro estava com guia de marcha. De «muito bem tratado» passou a mal tratado. Espero que a mudança seja bem tratada e rapidamente, porque não me parece muito avisado, que se tenha despedido um treinador, sem uma alternativa assegurada. Espero aliás que este hiato seja uma mera questão de comunicação.
No fundo, porém, a questão do treinador é importante, mas não decisiva, no ponto em que estamos de projectar um futuro sustentável. E quanto à sustentabilidade, salvo melhor opinião, o primeiro tema é o da governabilidade, já que o presidente um mês e meio depois de ter tomado posse conclui pela sua ingovernabilidade!!!
Direi ao meu presidente, com toda a sinceridade e convicção, que não é mudança do treinador que torna um clube ou uma equipa governável. Governar é decidir, é escolher caminhos e prioridades. E, sobretudo, governar não é ser governado de fora para dentro.
Não estou aqui para condenar uma decisão de risco. Sob o ponto de vista do risco ate lhe poderia gabar a coragem. Estou convencido porém que o presidente Varandas reduziu a sua margem de tolerância e isso é perigoso para o Sporting.
Caro Presidente: no que diz respeito a governabilidade do Sporting, o seu diagnóstico está certo. Há que encontrar a terapia adequada, e esta não será um penso aqui, uma aspirina acolá. Precisa de uma intervenção cirúrgica a sério, projectada com serenidade, tranquilidade, inteligência e bom senso. Medidas avulsas apenas adiarão a morte, que é certa nos seres humanos, mas que se dispensa nas instituições!...