«Joguei contra Van Basten nos sub-15 e recomendei-o ao Braga, mas não havia dinheiro»
Carlos Carvalhal é feito de convicções. No mais recente episódio do 90+3, o técnico português abriu o jogo sobre uma carreira marcada por decisões de princípio, episódios insólitos e uma ideia de futebol que nunca negociou. Entre histórias de balneário, confrontos com direções e reflexões sobre o estado atual do jogo, ficou uma certeza: «O treinador está a perder protagonismo e importância.»
Quinito, Tottenham e a dureza dos anos 80
Uma das primeiras memórias leva-nos a uma goleada sofrida diante do Tottenham Hotspur. O resultado pesado — 6-0 — ficou eternizado não só pelo que se passou em campo, mas pela reação de Quinito no balneário: «Eles todos loirinhos, bonitinhos e vocês são feios, queriam o quê? Chauffeur, music!». Carvalhal conta o episódio com humor, recordando também histórias paralelas desses tempos, como o célebre cigarro de Zé Luís, num futebol bem diferente do atual.
Futre, um shopping francês e uma revelação tardia
Nas camadas jovens da Seleção Nacional dividiu quarto com Paulo Futre. Anos mais tarde, ao ler a autobiografia do antigo internacional, descobriu um detalhe caricato: depois de um episódio de furtos num centro comercial francês, Futre terá ficado com todo o “espólio”. «Só a ler o livro é que descobri que foi ele que ficou com tudo o que roubaram — e eu partilhava o quarto com ele», contou, entre risos.
Van Basten recomendado… mas sem dinheiro
Carvalhal guarda também um episódio curioso da juventude: defrontou Marco van Basten nos sub-15 e, mais tarde, chegou a recomendá-lo ao SC Braga. «Mas não havia dinheiro», atira. Um detalhe que hoje soa quase irreal, tendo em conta a dimensão que o neerlandês viria a atingir no futebol mundial.
«Há clubes que te impõem uma forma de trabalhar»
A conversa ganha tom mais sério quando aborda a relação entre treinadores e administrações. A experiência na Arábia Saudita é exemplo disso: «Fui despedido pelas redes sociais por ter colocado o Pizzi a jogar contra a vontade da direção do clube.» Para Carvalhal, o problema é estrutural: «Há clubes que te impõem uma forma rígida de trabalhar.»
E vai mais longe: «O treinador está a perder protagonismo e importância.» Uma ideia sustentada por vários episódios da carreira, incluindo um caso, em Portugal, em que as exigências de um treinador, ao nível da nutrição, não foram respeitadas pela direção.
Leixões, Rio Ave e a ambição de jogar como grande
Mesmo na 3.ª divisão, ao serviço do Leixões SC, nunca abdicou da identidade: «Se queres ser grande, tens de jogar como os grandes.» Lembra a chegada à final da Taça de Portugal e a eliminação do PAOK FC na Taça UEFA como provas de que a ambição não depende do orçamento.
Mais tarde, a passagem pelo Rio Ave FC, depois da experiência na Premier League, foi encarada como um laboratório de ideias. «Até hoje, ninguém deu o devido valor ao que essa equipa fez», lamenta.
Sporting: 9.º lugar e proibição de jornais
Quando recebeu o convite para treinar o Sporting CP, não hesitou: «Não se recusa um convite para treinar o Sporting.» Chegou com a equipa em 9.º lugar e tomou decisões fortes, como proibir os jogadores de lerem jornais de manhã. «Cheguei a ver alguns a queimar jornais. Isso afetava o desempenho.»
Também recusou que os jogadores pedissem desculpa aos adeptos num momento delicado. Para Carvalhal, a responsabilidade resolve-se dentro de campo.
Besiktas, prisão e polícias turcos
A aventura no Besiktas foi tudo menos convencional: «Fui para o Besiktas porque o treinador tinha sido preso, mas sabia que podia ir embora assim que ele fosse libertado.» Pelo meio, viveu episódios caricatos com a polícia turca e até confrontou um jornalista que publicou uma entrevista inventada consigo.
Inglaterra, Lage e Klopp
Em Inglaterra, construiu reputação sólida. Destaca o papel de Bruno Lage como adjunto: «O Bruno Lage tem um lado político que eu não tenho. Era o meu para-raios.»
Recorda ainda a vitória sobre o Liverpool FC de Jürgen Klopp e as diferenças na arbitragem inglesa, além da exigência de jogar de três em três dias no Championship, onde «os números prevalecem à tática».
Mourinho, Barca Velha e impacto mediático
Um dos momentos mais simbólicos envolve José Mourinho, que lhe ofereceu uma garrafa de Barca Velha para abrir quando conquistasse um troféu. Carvalhal sublinha a importância do regresso do treinador ao campeonato português: «Ter uma figura como José Mourinho na Liga é superlativo. Põe toda a gente a falar.»
Flamengo recusado e prioridades pessoais
Nem sempre o “salto” depende apenas do mérito. Quando estava no Braga, tinha tudo acertado com o CR Flamengo, mas recusou. «Não podia deixar a minha família.» Uma decisão que define a matriz da sua carreira: princípios acima da oportunidade.
«Nada e tudo»
Já na reta final, questionado sobre o que falta fazer no futebol, responde: «Nada e tudo.» Fala do desejo de ser avô, da importância da família e até rejeita que a ideia de orientar a Seleção Nacional seja uma prioridade de carreira.