Gustavo Assunção, de 25 anos, rumou ao futebol cipriota para poder lutar por títulos com o Apollon Limassol. Fotografia: Apollon Limassol

Gustavo Assunção: o craque Gustavo Sá, o pai-treinador, o carrinho a Griezmann e um milagre para o Aves

Médio trocou o futebol luso pelo cipriota em janeiro. Ainda acredita «em milagres» e tem fé na salvação da antiga equipa. Os papéis de João Pedro Sousa e Diego Simeone

Ao fim de sete épocas em Portugal, onde representou Famalicão e Aves SAD, Gustavo Assunção partiu para uma nova aventura, no Apollon Limassol, do Chipre. Em entrevista a A BOLA, o médio falou sobre a luta dos avenses, o crescimento dos famalicenses e a formação feita entre gigantes no Atlético de Madrid

— O que o levou a assinar pelo Apollon Limassol? 

— Sentia-me muito cómodo. Precisava de mudar de ares, ter outros objetivos, lutar por títulos. O Apollon deu-me essa oportunidade e estou muito grato. 

— Deixou o Aves SAD, que está a ter uma temporada difícil. Como define essa passagem pelo clube?­ 

— Cheguei ao Aves SAD com o míster João Pedro Sousa e a luta era clara. A equipa ainda não tinha nenhuma vitória e o objetivo era a manutenção. Mas é um clube muito familiar, muito lutador. Desde o roupeiro até aos jogadores, toda a gente está unida. Sou uma pessoa que acredita em milagres e acho que, com muito trabalho, o Aves SAD ainda se pode salvar. 

Gustavo Assunção representou Aves SAD e Famalicão em Portugal. Fotografia: Apollon Limassol

— Considera que, com a vitória frente ao Estoril, os avenses ainda podem fazer uma recuperação na classificação da Liga

— O Aves SAD tem tido uma evolução boa. Já vinha a competir melhor e a vitória acabou por surgir. Às vezes os resultados não aparecem, mas o trabalho está lá. Era uma questão de tempo até chegar a primeira vitória. A partir daqui, podem vir mais. 

— Além do Aves SAD, representou o Famalicão e foi treinado pelo João Pedro Sousa em diferentes fases da carreira. Foi o treinador mais importante do seu percurso? 

—O João Pedro e o Simeone foram os dois treinadores com quem mais aprendi. O João Pedro apanhou-me muito novo, depois voltou a treinar-me no Famalicão e agora aconteceu o mesmo no Aves SAD. Tenho por ele um carinho especial, quase como um pai no futebol. Desejo-lhe sempre o melhor. 

— Na primeira passagem pelo Famalicão teve um ano muito bom. Como foi esse primeiro impacto no futebol português? 

­— Nessa época correu quase tudo bem, só faltou o apuramento para a Europa. No Famalicão toda a gente trabalha muito bem. Tenho um enorme carinho pelo clube. Acho que também ficou na memória dos adeptos. Muita gente dizia que ia ser um ano complicado, mas não foi. Não foi uma época fácil, mas conseguimos bons resultados. 

— O Famalicão pode evoluir ao ponto de garantir um lugar europeu?  

— Sim, a evolução do clube é enorme. Venderam recentemente o Zabiri para a liga francesa. Têm o Gustavo Sá, que é um craque, o Óscar Aranda, que está lesionado neste momento, mas é muito bom jogador, além do Sorriso. A malta ali tem qualidade e potencial para conseguir esse objetivo.  

— Sentiu que a sua carreira poderia ter sido diferente depois daqueles primeiros anos muito positivos no Famalicão

— Não sou muito de pensar no que poderia ter acontecido. Sou muito feliz com a carreira que estou a fazer. Tento dar sempre o meu máximo, por isso, não tenho arrependimentos. As decisões que tomo são sempre de coração, mais até do que com a razão e não me arrependo. 

«É o treinador de todos lá em casa» 

Filho de Paulo Assunção, antigo médio de FC Porto e Atl. Madrid, Gustavo continua a receber conselhos do progenitor. «Sim, tenta sempre ajudar-me. Ainda por cima jogava na mesma posição [médio defensivo], por isso há sempre algo a melhorar. No início eram conselhos mais gerais, tinha muito para aprender. Agora são mais detalhes que, às vezes, quem está fora não percebe. Ajuda-me muito nisso, a mim e aos meus irmãos. O meu pai é o treinador de toda a gente lá em casa. Mas quando é para corrigir algo mais sério, aí a minha mãe também entra em campo e a conversa fica mais séria [risos]», conta, concentrado no presente e sem querer pensar «demasiado a longo prazo».

«Koke comentou: 'É o filho do Paulinho'» 

Fez parte da formação no Atlético Madrid e impressionou no primeiro treino com graúdos 

— Como foram os anos em Madrid?

— No Atlético comecei muito pequeno. O meu pai também jogava nessa altura e saímos porque ele saiu também. Ficámos um ano fora, no São Paulo e no Deportivo, depois regressámos ao Atlético. Nessa altura já fomos eu e o meu irmão, e a família mudou-se toda para Madrid. O percurso no Atlético foi de crescimento, amadureci como pessoa. O clube ensina muitos valores.

— Que recordações guarda da convivência com Diego Simeone? 

— O primeiro treino que fiz com ele aconteceu porque me ligaram de manhã. Um médio estava indisposto e precisavam de alguém e fui treinar. Fiz grande treino, marquei três golos. Tinha 15 ou 16 anos e estava tudo em choque. No fim, o míster disse que tinha gostado muito. Acho que foi o Koke que comentou: 'É o filho do Paulinho'. E o Simeone respondeu que, a partir dali, ia começar a treinar mais vezes com eles. Fiquei bastante tempo com a equipa principal e aprendi muito. Com o Koke, o Gabi, o Tiago, o Filipe Luís, o Diego Costa, Germán Burgos e o próprio Simeone. Foi fase incrível na minha vida. Era apenas um miúdo a viver um sonho.

— Levou alguma reprimenda durante os treinos?

— Nunca levei muitas broncas. Sempre tentei ser o que mais corria, o que mais trabalhava. Era um miúdo, tinha de fazer as coisas bem. Mas lembro-me de um treino, dois dias antes de jogo importante, em que houve disputa de bola e fiz um carrinho, não tenho a certeza a quem, mas acho que foi ao Griezmann, em que levei uma dura depois. Mas, no fundo, sentia que o Simeone gostava da minha atitude.