Entrevista ao técnico do emblema do Oeste decorreu nas instalações de A BOLA, nas Torres de Lisboa - Foto: Mariana Tenório
Entrevista ao técnico do emblema do Oeste decorreu nas instalações de A BOLA, nas Torres de Lisboa - Foto: Mariana Tenório

Gonçalo Nunes, o 'papa-títulos' do Torreense: «É um casamento bem-sucedido»

A cumprir a terceira época ao leme do emblema do Oeste, técnico, de 50 anos, já conquistou uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Sente-se realizado e só pretende continuar a ser feliz

— Tem um trajeto longo e altamente meritório no futebol feminino, que contemplou trabalhos em vários contextos e com títulos conquistados. Que balanço faz?

— Tirei o meu primeiro curso de treinador com 18 anos. Tenho estado sempre ligado ao futebol, desde coordenação técnica, treinador de futebol e formação. E desde a época 2018/2019, quando iniciou o percurso do futebol feminino a nível da Liga BPI.

— Que metas tem?

­— Não sou uma pessoa que estabelece metas ou objetivos muito a longo prazo. Sempre vivi a vida e a vida desportiva em sentir-me bem naquilo que estou a fazer no momento. Dificilmente sairei daqui, que é o estar ligado ao mundo do futebol feminino. Enquanto, no fundo, sentir que tenho uma contribuição, por muito ínfima que seja, também para ajudar a desenvolver, a crescer e a elevar aquilo que é o futebol feminino.

— Está na terceira época no Torreense e já venceu Taça de Portugal e Supertaça. Sente-se orgulhoso?

— Sim, sem dúvida. É fruto do trabalho e da consolidação desse mesmo trabalho. É uma visão do clube, de um projecto e de uma estratégia. E tudo se encaixou. Acho que houve aqui um casamento muito bem-sucedido. Tudo se encaixou com a minha forma de estar e como eu gosto de trabalhar, ou seja, trabalhar por etapas, por diferentes momentos, ir consolidando aquilo que são ideias, e essa estabilidade e visão mais a médio prazo que o clube sempre apresentou. A tormenta existiu. Porque quando nós entrámos tivemos resultados menos positivos. Mas o clube sempre acreditou e estivemos sempre perfeitamente identificados.

— Na presente temporada, o Torreense está no 3.º lugar da Liga BPI e ainda em prova nas Taças. Até onde pode ir esta equipa?

­— O grande objetivo é continuarmos a competir em todas as realidades em que estamos inseridos. O nosso início de campeonato foi completamente ao contrário do que esperávamos, até com a especificidade de andarmos a jogar com a casa às costas, mas agora já temos essa estabilidade e no domingo teremos o primeiro jogo em casa. Iniciámos a temporada com o pé esquerdo, mas esta equipa nunca deixou de acreditar e demonstrou sempre toda a resiliência que tem. E tivemos capacidade para darmos a resposta que era necessária. Sabemos as capacidades que temos e aquilo que conseguimos fazer. Não houve mudança radical daquilo que foi o passado e, portanto, sendo um grupo que foi claramente capaz no passado, este ano iria ser novamente capaz. Dentro da realidade do Torreense, e mesmo que combatendo com adversários de outra dimensão, lutaremos sempre pelo melhor possível em todas as competições. No final faremos contas.

— Com os méritos que o seu currículo lhe confere, vê-se a treinar Benfica ou Sporting?

— Como lhe disse, não traço metas longínquas. Neste momento, tenho contrato com o Torreense por mais um ano e meio [até 2027]. Sinto-me bem onde estou, num clube que já me permitiu alcançar títulos. Não tenho dúvidas de que me sinto mais do que capacitado para treinar e trabalhar em qualquer clube na nossa realidade nacional e mesmo a nível internacional. Mas, no momento, estou muito focado em fazer o melhor trabalho possível no Torreense.

— Treinar a Seleção Nacional é um sonho ou um objetivo?

— Não vou dizer que se calhar não era algo que vislumbraria, mas acho que num futuro mais longínquo. Como disse inicialmente, sinto-me muito bem a fazer aquilo que faço. O dia a dia de clube. O dia a dia de trabalho, O dia a dia com as jogadoras, com o treino. Ser selecionador é um trabalho diferente, que envolve muito mais um nível de acompanhamento, de outra forma de observação, no fundo também de comunicação com os clubes. Acho que a nossa seleção está bem entregue. O Francisco [Neto] tem feito um excelente trabalho. Acho que é uma seleção que também está a acolher não só o trabalho que é feito, como a interpretação entre a equipa e equipas técnicas dos diferentes escalões, porque claramente também estamos a começar a herdar o trabalho daquilo que é a formação a nível do ADN das selecções jovens. Portanto, não é algo que não vislumbro ou negaria, mas talvez numa situação futura. Identifico-me mais com o trabalho de clube.

— Deduzo que também tenha elogios ao trabalho da FPF.

— Sem dúvida. Aliás, é visível. Além dos resultados que têm sido alcançados, é pensar também no investimento como uma aposta ao nível da formação. Acho que também é importante pensarmos e olharmos também para aquilo que são as conjunturas, os quadros competitivos, as competições, os clubes. Nós temos das melhores jogadoras.

FC Porto importante para mais históricos

A recente entrada em cena do FC Porto no futebol feminino merece todos os elogios de Gonçalo Nunes. E se ao emblema azul e branco juntarmos outros nomes de monta...

«Sem dúvida que é um boom muito importante. E antes disso já tínhamos tido outros históricos, como o Vitória de Guimarães, o Rio Ave, o próprio Famalicão, apesar de ter descido de divisão. Estamos a falar de clubes que no futebol masculino estão na elite do futebol nacional e que têm massas adeptas fervorosas. São ótimos casos de clubes com muita história, muita dimensão, e que potenciam ainda mais o crescimento do futebol feminino. Estamos também a falar de questões de impacto mediático», assume.

A urgência das vagas para o curso UEFA Pro

— São públicas as dificuldades que os treinadores de futebol feminino têm em conseguir vaga para o curso UEFA Pro. Que opinião tem acerca desta matéria?

— Como é sabido, não há um número de licenças e de vagas necessárias. Eu acho que nem para um décimo daquilo que são as intenções e as pretensões dos diferentes profissionais de diferentes áreas. Acho que é essa equidade que é importante pensar e perceber, porque claramente também o nível de formação dos treinadores a nível daquilo que é o contexto onde estão inseridos e, neste caso, no futebol feminino, também tem de ser pensado na premissa, até para fazer crescer algo que tem um lastro menor e que tem, no fundo, um tempo menor. Tem de haver aqui um investimento e tem que haver aqui um pensar diferente. Lá está por parte das entidades responsáveis, de forma a elevar e ajudar a catapultar também esta realidade do futebol feminino. Não faz sentido nós estarmos, salvo erro meu, já é o terceiro ou quarto ano que me vejo recusado a nível da candidatura ao UEFA Pro.

— Que respostas têm tido da parte de Governo e/ou da FPF?

­— A questão a avaliar é que é algo que não é apenas de Portugal, que é uma coisa a nível europeu, do regulamento da UEFA. No fundo, acho que terá de haver uma união de esforços das diferentes federações. As pessoas não podem ser preteridas por não terem o nível de requisito necessário, têm de ser selecionadas ou não em função daquilo que é a sua capacidade, aquilo que é, no fundo, o seu mérito, as suas competências. Essa deve ser a base de análise.