França bateu Marrocos por 2-0 nas meias-finais do Mundial de 2022, mas a seleção africana promete que agora será bem diferente - FOTO:Imago
França bateu Marrocos por 2-0 nas meias-finais do Mundial de 2022, mas a seleção africana promete que agora será bem diferente - FOTO:Imago

França-Marrocos, batalha no campo e nas ruas

São muito estreitas as ligações entre as seleções que estarão no primeiro jogo dos quartos de final do Mundial. Defrontaram-se em 2022 e aí o triunfo foi gaulês. Muita partilha... desde Just Fontaine

Se há marca que deixará este Mundial de 2026 são as questões políticas. Das queixas de discriminação do Irão à mais recente revolta do Egito que diz que a competição só tem preocupação comercial e que querem Messi campeão do Mundo — o que, dizem, afastou a seleção africana da próxima fase — até ao pedido recusado pela FIFA de despenalização do cartão amarelo e Olise, ao passo que Balogun jogou após intervenção de Donald Trump, presidente dos EUA.

Neste contexto, nada melhor que um França-Marrocos a abrir os quartos de final (21h). Em Boston está tudo: o peso da história, a promessa de vingança após o Mundial do Qatar em 2022 (vitória gaulesa por 2-0). E mais, muito mais…

Será, acima de tudo, uma batalha tática entre duas das melhores equipas nestas primeiras semanas de competição. A seleção francesa tem sido demolidora. Como resultado de todo o talento, conquistou o estatuto de melhor ataque do torneio, com 14 golos marcados e uma caminhada 100 por cento vitoriosa. Contudo, vem de jogo onde evidenciou fragilidades que até então não tinham sido vistas, no duelo com o Paraguai nos oitavos de final.

Houve mais luta que momentos de magia e para estragar tudo até surgiu uma declaração profundamente racista da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que disse o impensável sobre Mbappé: «Este idiota nem sequer aprendeu a escrever. Em vez de mamar leite materno, mamava em cocos.»

Ontem, na conferência de imprensa, Didier Deschamps foi convidado a comentar o episódio e fê-lo assim: «Kylian está bem mentalmente. Aconteceu algo que prefiro não comentar. Ele é um homem muito forte mentalmente. Está focado na partida com Marrocos, que será difícil porque são duas equipas de alta qualidade. Mbappé está bem, assim como o resto do grupo. Ele está pronto.»

Mbappé, que tem sido um problema e não apenas para os racistas, já tem sete golos e luta pelo estatuto de melhor marcador com Messi (8), Haaland (7) e Harry Kane (6), aproveitando as exibições de Olise — que viu a FIFA rejeitar o pedido de anulação do amarelo frente ao Paraguai —, um criador, um sério candidato a MVP.

MARROCOS INVENCÍVEL

Nada que assuste Marrocos, que tem em Saibari o mais imprevisível dos seus criadores e que chega ao jogo com França com a motivação em alta após a exibição categórica frente ao coanfitrião Canadá, vencendo por 3-0. Sob o comando de Walid Regragui, a equipa ostenta uma impressionante série de 34 jogos sem perder e procura quebrar o tabu histórico de nunca ter vencido a França (4 vitórias francesas e 2 empates). Será este o momento para fazer história e alcançar o que nenhuma seleção africana conseguiu? A final é um sonho, mas Marrocos tem feito pela sua realização com exibições seguras.

DESCHAMPS MUITO PRUDENTE

A conferência de imprensa de antevisão ao primeiro jogo dos quartos de final espelhou o respeito mútuo e a memória viva de 2022. O selecionador francês, Didier Deschamps, recordou as dificuldades sentidas no Qatar.

«Sofremos muito em 2022. Marrocos causou-nos imensos problemas técnicos e táticos. Eles mostraram que não estavam ali por acaso. Amanhã [hoje], em Boston, enfrentamos uma seleção marroquina ainda mais madura e vertical com a inclusão de Brahim Díaz. Temos de manter a nossa eficácia cirúrgica», afirmou.

«Tivemos alguns adversários difíceis. Conseguimos vencer algumas partidas com facilidade, mas também enfrentámos oponentes complicados. Nos quartos de final, a qualidade dos adversários também aumenta. Quanto aos pontos-chave da partida, existem vários, e precisaremos ser eficientes, tanto no ataque quanto na defesa. Veremos qual equipa que terá mais posse de bola. É uma questão de força», concluiu.

Por sua vez, Walid Regragui, selecionador de Marrocos, fez questão de sublinhar o crescimento mental e físico da sua equipa face aos problemas vividos no passado.

«Em 2022, demos tudo o que tínhamos, mas chegámos à meia-final fustigados por lesões. Contra equipas do nível da França, o menor erro técnico custa muito caro. Esta geração aprendeu a lição. A nossa ambição neste Mundial não tem limites e estamos prontos para reescrever a história», assegurou.

Hakimi, lateral e capitão marroquino, focou-se no reencontro especial com o seu antigo companheiro no PSG, Kylian Mbappé. «Jogar contra o Kylian é sempre um desafio monumental. Conhecemo-nos perfeitamente, mas no relvado não há amizades. Representamos o orgulho de uma nação inteira e ambos lutaremos pela vitória», prometeu.

BOUADDI 'TROCOU' DE SELEÇÃO

O França-Marrocos nunca será apenas um jogo de futebol. O encontro evoca laços coloniais históricos, fluxos migratórios significativos e uma profunda interligação cultural. No plano institucional, as federações de ambos os países têm estreitado cooperação ao nível da formação de jovens e também disso vive a evolução de ambos.

Contudo, no plano político e de diplomacia desportiva, este jogo serve também de palco de afirmação para Marrocos — que coorganiza o Mundial de 2030 com Portugal e Espanha —, provando a capacidade de competir e vencer as superpotências europeias. A enorme comunidade marroquina residente em solo francês transforma as cidades num anfiteatro de emoções partilhadas, onde a identidade cultural é celebrada. Também nesse campo se jogará nesta noite que promete ser escaldante.

A história mostra-nos que muitos jogadores marroquinos, como Eliesse Ben Seghir e Ayyoub Bouaddi são jovens promessas nascidas e formadas em França, nas academias de elite gaulesas, mas que optaram por defender as cores de Marrocos.

Mas o inverso também se verificou em muitos momentos. Recorde-se que a maior lenda do futebol gaulês, Just Fontaine (o único a marcar 13 golos numa fase final de Um Mundial, 1958), nasceu em Marraquexe, Marrocos, na época do protetorado francês.

É muito mais que um jogo de futebol…

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