Mourinho ganha duas eleições e deixa €160 milhões no Benfica
O famoso vídeo de IA de José Mourinho divulgado em tudo o que era televisão anteontem à noite, em horário nobre, apenas confirmou o que toda a imprensa portuguesa e espanhola foi escrevendo nas últimas semanas: o treinador português é um trunfo eleitoral de Florentino Pérez e a cartada foi jogada num timing cirúrgico. E assim, no espaço de sete meses, Mourinho pode ajudar a eleger os presidentes dos clubes de maior dimensão social de cada um dos países da Península Ibérica: Rui Costa em novembro de 2025 no Benfica (dois meses depois de contratá-lo após o despedimento de Bruno Lage) e Florentino em junho de 2026 no Real Madrid.
Digo-o com convicção, não só pelo que revelam as sondagens mas também pela natureza conservadora dos sócios deste gigante mundial: seria necessário muito mais que contratações sonantes do opositor (com Haaland à cabeça) para tirar do poder o homem que, apesar da idade avançada, ainda representa futuro, inovação e, acima de tudo, segurança.
Mas só um contexto de eleições permite ao magnata que inventou os Galáticos pagar tanto dinheiro ao Benfica para ter o técnico setubalense, cuja contratação será feita quase pelo dobro do valor que custou em 2010, vindo do Inter.
Vale a pena recordar: há 16 anos, Florentino não quis pagar os €16 milhões da cláusula, viajou para Milão e encontrou-se com o presidente Massimo Moratti para obter um desconto. Isto é, o Mourinho acabado de se sagrar campeão europeu pelos nerazzurri, com uma aura absolutamente intacta de vencedor, foi contratado por oito milhões de euros; em 2026, o Mourinho que ficou em terceiro lugar no campeonato português aterra novamente na capital espanhola por €15 milhões, o que faz dele o treinador que mais dinheiro deu a ganhar ao Benfica — €145 milhões em reforços para as suas equipas (de Tiago Mendes a Lindelof) e agora a milionária cláusula. Mesmo que pouco tenha dado ao clube em termos desportivos nas duas passagens pela Luz, o mesmo não se pode dizer no plano financeiro.
Só o tempo dirá se foi um bom negócio para o Real Madrid e para o Benfica. As águias desde cedo perderam o controlo da narrativa a ponto de colocar Marco Silva no papel de segunda escolha, mas é caso para dizer que ter o ex-técnico do Fulham e mais €15 milhões no bolso está longe de ser um mau ato de gestão. Se foi programado ou não, daqui a uns tempos poucos se lembrarão. Desde que a bola não comece a bater outra vez na barra.