O troféu mais apetecido do futebol mundial volta a ser disputado em 2026, agora por 48 seleções - Foto: Imago
O troféu mais apetecido do futebol mundial volta a ser disputado em 2026, agora por 48 seleções - Foto: Imago

Não é um Mundial qualquer. Pela primeira vez, três países organizam a máxima competicão da FIFA, numa decisão arrojada, que só encontrou (algum) paralelo, até agora, há 24 anos, quando Coreia do Sul e Japão repartiram a responsabilidade pelo Mundial-2022.

A partir daqui, será talvez a regra, mas repartir por Canadá , Estados Unidos da América e México esta intentona, representa a maximização de recursos, a amplificação de visibilidade e o inevitável aumento de receitas, aspecto nunca despiciendo quando se aborda qualquer decisão do organismo que gere o futebol no planeta.

Ainda mais determinante é o aumento para 48 seleções qualificadas, seguindo um numerus clausus ponderado entre as seis confederações que dão forma à federação internacional.

São 104 jogos, com a introdução de mais uma eliminatória, procurando dar um caráter verdadeiramente global à competição.

Aqui chegados, há sempre questões plausíveis: com a qualificação direta (como países organizadores, de três nações, abriu-se caminho, na Concacaf (a confederação das Américas do Norte e Central, e das Caraíbas), para a estreia, por exemplo, de Curaçau, uma pequena ilha das Antilhas Holandesas, com pouco mais de 160 mil habitantes. Também o Panamá e o Haiti aproveitaram este quase wild card, que não se repetirá nas próximas edições do Mundial de futebol.

Haverá razão, por parte de Gennaro Gattuso (selecionador que não conseguiu apurar a Itália, ausente pela terceira vez consecutiva…), ao chamar a atenção para as desigualdades do novo sistema de qualificação, resultante do aumento de 50 por cento (sim, é um senhor aumento!) e, naturalmente, na abertura, por força da tal ponderação continental, do Mundial a seleções periféricas ou, mesmo, de terceira escolha?

Reparemos no caso da América do Sul: seis das dez equipas que encetaram a qualificação da Conmebol garantiram lugar. A Bolívia poderia ter sido a sétima. Fará sentido que uma só confederação garanta, pelo menos, 60 por cento de lugares em relação à totalidade dos intervenientes no processo qualificativo?

O caso africano é, talvez, bem mais democrático, uma vez que a CAF passou de cinco a nove (ou dez, o que depois se confirmou com o apuramento da RD Congo, no play-off intercontinental), mas tem 54 países filiados, ombreando com a UEFA como o continente com maior número de bandeiras do planeta futebol.

E há, ainda, da parte da confederação sul-americana, uma pouco viável proposta para aumentar até 62 o número de seleções na fase final do Mundial 2030, o primeiro com três países organizadores pertencentes a dois continentes (Espanha e Portugal, pela Europa, e Marrocos, por África), e com três Jogos do Centenário a abrir, em três cidades sul-americanas (Montevideu, no Uruguai, Buenos Aires, na Argentina, e Assunção, no Paraguai).

Anda em ebulição o mundo do desporto-rei. E, sobretudo, é preciso saber, através de um controlo muito rigoroso e de uma análise bem equidistante, até que ponto a componente espetáculo, à qual se agrega o segmento financeiro, se deverá sobrepor à vertente exclusivamente desportiva.

Recordo que o Mundial de 2022, no Qatar, foi transferido para o meio da temporada do hemisfério Norte justamente por via de questões que, agora, nas Américas, se levantarão, e que têm na eventual inclemência das condições atmosféricas o seu pilar essencial. Mas, justamente porque, no Golfo Pérsico, se jogou em novembro e dezembro, a esmagadora maioria dos jogadores apresentou-se em pico de forma, proporcionando qualidade que, porventura, estará arredia, pelo menos em potência, do certame que começa dentro de cinco dias.

Quase todas as seleções acabarão por apresentar jogadores esgotados física e mentalmente, pelo que o trabalho de recuperação pontual e individual, por parte das equipas técnicas, assumirá aspecto essencial para a garantia de um enquadramento ideal (ou o mais perto disso possível), para uma prova tão longa e desgastante.

Juntem-se viagens, que os territórios coast to coast obrigam a milhares de quilómetros de voo e a vários fusos horários de diferença, e temos boas razões para, numa primeira análise, concluir que, do ponto de vista competitivo e organizativo, este é seguramente o maior desafio, mesmo para uma estrutura altamente rigorosa, profissional e experiente, como a da FIFA.

Não tenho, confesso, uma visão sequer aproximada do que pode acontecer. Porque todos os fatores que atrás elenquei se podem conjugar, e causar uma espécie de tempestade perfeita, quer no literal sentido do termo (recordam-se do Mundial de Clubes, há um ano, e das múltiplas paragens por fatores atmosféricos adversos?), quer no sentido mais amplo. Neste último, et par contre, o adepto pode sentir-se mais confortável, tantas podem ser as surpresas ou os momentos irrepetíveis.

É, provavelmente, a principal razão que levou a FIFA a decidir-se por todos os riscos da marcação de um Mundial com 104 jogos para territórios muito voláteis.

Será um espetáculo à Americana, sem a garantia de que os protagonistas estejam totalmente confortáveis no modelo e nos sinais que o podem marcar.

Mas há algo de que não duvido: no bolso, a entidade de Zurique pode já cantar vitória e espalhar sucesso. Nunca um Campeonato do Mundo terá gerado as receitas, os compromissos comerciais, os apoios e as mais-valias. Para já, antes de a TriOnda começar a rolar, o dinheiro já está a ganhar…

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