Farioli abraçado por André Villas-Boas após a conquista da Supertaça - Foto: IMAGO

Está de volta o velho 'choradinho' no FC Porto

A ironia de Farioli sobre os «jornalistas do Sul» no caso Rodrigo Mora desmascara a ilusão da nova era de Villas-Boas, afinal nada mais do que um Pinto da Costa 2.0

Quando André Villas-Boas derrotou Pinto da Costa, com maioria avassaladora, nas eleições do FC Porto em 2024, a promessa apresentada aos associados era absolutamente límpida e sedutora: modernidade, sofisticação e rutura total com o clima de crispação que sufocava o futebol português.

O discurso fundacional desta nova era prometia uma instituição de dimensão europeia, urbana, capaz de vencer exclusivamente pelo mérito desportivo.

Prometia-se um clube totalmente distante dos velhos escombros da guerrilha verbal e regionalista que marcou o último meio século na Invicta.

Contudo, a vertigem dos resultados no relvado e as duras exigências do poder têm a capacidade de acelerar a tentação do regresso ao passado.

Perante as primeiras grandes dificuldades da primeira época, a estrutura portista percebeu que a forma mais rápida e eficaz de galvanizar as suas tropas continuava a ser o velho e testado alimento do confronto: a vitimização, a teoria do cerco e a busca incessante por um inimigo externo.

Villas-Boas acabou por encarnar a versão 2.0 de Pinto da Costa, ressuscitando a ultrapassada narrativa do «Norte contra o Sul» que tanto desmentido faz à lufada de ar fresco que prometera.

O último exemplo desta profunda regressão deu-se este sábado, pela voz de Francesco Farioli. O jovem técnico italiano dedicou os primeiros 12 minutos da sua conferência de imprensa ao caso Rodrigo Mora — duração que supera, por si só, muitas conferências inteiras na Liga —, para lançar farpas irónicas à imprensa e à centralização do país.

«Aprecio a atenção que os jornalistas do Sul lhe deram e a forma como protegeram um talento do FC Porto. Não esperava este nível de amor e atenção pelo nosso menino», disparou o treinador com um sarcasmo milimetricamente estudado.

Ao vestir sem pudor a pele de vítima e ao canalizar as atenções para o ruído de fora, Farioli demonstra ter absorvido na perfeição a antiga cartilha da casa.

O recurso ao chavão do «nós contra todos», como se o Dragão fosse a irredutível aldeia gaulesa de Astérix cercada por um império romano invisível, serve perfeitamente para adormecer a exigência interna e sacudir a responsabilidade sobre a gestão de um jovem ativo.

O FC Porto prometeu o futuro e a modernidade, mas bastou a primeira tempestade para a nova liderança recuar meio século e voltar ao velho choradinho de sempre.

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