Bons jogadores e bons treinadores não precisam de tempo
Aquilo a que nos anos 80 e 90 se chamava automatismos chama-se agora tempo. Há algumas décadas, quando Toni era treinador do Benfica e a equipa demorava a engrenar, ele disse algo como isto: «Faltam-nos os automatismos». Ou seja, grosso modo, era preciso que os jogadores (sobretudo as contratações) se conhecessem melhor para que o rendimento atingisse os níveis pretendidos. Agora, quatro décadas depois, o conceito de automatismo deu lugar a conceito com upgrade: «As equipas precisam de tempo». Não é bem assim.
O FC Porto contratou, no arranque de 2002/03, cinco jogadores nucleares para essa época: Maniche, Derlei, Paulo Ferreira, Pedro Emanuel e Nuno Valente. Promoveu ainda o regresso de Jorge Costa. Todos se tornaram titularíssimos. Até ao início de fevereiro de 2003, o FC Porto realizara 31 jogos, somando 26 vitórias, 3 empates e apenas 2 derrotas. José Mourinho riscara do dicionário portista as palavras automatismo e tempo e ganhou praticamente tudo: Liga, Taça UEFA e Taça de Portugal. Dois anos depois, o mesmo Mourinho, agora no Chelsea, chegou, viu e venceu após recrutar Cech, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Tiago, Robben e Drogba. Todos determinantes na conquista do campeonato inglês que fugia aos blues há 50 anos.
Sete anos mais tarde, no início de 2009/10, o Benfica contratou figuras como Saviola, Ramires, Javi García, César Peixoto e Weldon, garantindo ainda o regresso de Fábio Coentrão. Quatro deles assumiram a titularidade de imediato. Até ao início de abril de 2010, o Benfica disputou 37 jogos, com 27 vitórias, 6 empates e 4 derrotas. Jorge Jesus, tal como Mourinho, apagou do dicionário encarnado os conceitos de automatismo e tempo para reconquistar o título que fugia da Luz há cinco épocas.
Onze anos depois, no arranque de 2020/21, o Sporting contratou Adán, Porro, Feddal, João Mário, Nuno Santos e Pedro Gonçalves, promoveu a afirmação de Nuno Mendes, Gonçalo Inácio, Tiago Tomás e Matheus Nunes vindos da formação e, em janeiro de 2021, reforçou-se com Paulinho e Matheus Reis. Terminou a época com três derrotas em 42 jogos e, pela primeira vez na história, sagrou-se campeão sem derrotas, pois o único desaire interno (3-4 na Luz) aconteceu quando o título já estava matematicamente assegurado. Rúben Amorim, tal como Jesus e Mourinho, riscou do dicionário verde e branco a desculpa do tempo e dos automatismos e quebrou um jejum de 19 anos.
O exemplo mais recente data do arranque de 2025/26: o FC Porto contratou Alberto, Bednarek, Kiwior, Rosario, Froholdt, Gabri Veiga, De Jong, Borja Sainz e, no mercado de janeiro de 2026, resgatou Thiago Silva, Fofana, Pietuszewskie Moffi. Pelo meio, a estrutura contava com um treinador novo e uma direção, digamos assim, semi-nova. Chegado ao final de janeiro, o saldo era impressionante: 27 vitórias, 3 empates e 2 derrotas em 32 jogos. Francesco Farioli, à imagem de Amorim, Jesus e Mourinho, voltava a riscar do dicionário azul e branco as palavras automatismo e tempo e, no final da época, os dragões sagraram-se campeões, algo que não conseguiam desde 2022.
Conclusão (pelo menos a minha): jogadores e treinadores não precisam de tempo para tornarem grandes as equipas. Conclusão (pelo menos a minha): jogadores e treinadores não precisam de tempo para tornarem grandes as equipas. Precisam de talento, trabalho, uma pontinha de sorte e big balls, como um dia disse Michael Thomas, quando estava no Benfica. Não acreditam? Falem com Mourinho, Jesus, Amorim ou Farioli. Eles explicam.