Yomif Kejelcha correu os últimos 14 km em Buenos Aires sozinho     Fotografia Imago
Yomif Kejelcha correu os últimos 14 km em Buenos Aires sozinho Fotografia Imago

Expulso de casa aos 15 anos por não querer estudar, Yomif Kejelcha tirou os pais do trabalho duro na quinta a bater recordes

A história de superação do etíope que voltou a derrubar, em Buenos Aires, o máximo mundial da meia-maratona que havia sido fixado em Lisboa há cinco meses e que ameaça fazer o mesmo ao da maratona

Com 1,85m e 58 kg, o que habitualmente faz dele o mais alto (e esguio) em quase todas as provas de fundo, tanto em estrada como na pista, Yomif Kejelcha podia praticar outra modalidade ou especialidade no atletismo. Só que, tendo nascido na Etiópia, da etnia oromo, foi na corrida de resistência que apostou. Não se enganou e atualmente é dos melhores mundialmente.

Segundo maratonista mais rápido da história, Kejelcha voltou a fazer história ao derrubar o recorde do mundo da meia-maratona na 37.ª edição da prova em Buenos Aires, na Argentina, cortando a meta com 56.51m. Tempo que lhe permitiu derrubar o registo que, em março, Jacob Kiplimo fixara em Lisboa.

A sua performance foi dominante, assumindo o comando da prova logo ao sexto quilómetro e correndo os últimos 14 km em solitário, deixando os compatriotas Tadese Worku (59.18) e Bereket Nega (1.00,17). nos restantes degraus do pódio.

Tal como nas provas em que participa, o seu anterior máximo pessoal era 57.30m — tempo que foi recorde do mundo até ser batido por Kiplimo —, a história de Kejelcha é de pura determinação. Filho de agricultores, abandonou a casa há 15 anos após o pai, Atoma, lhe ter dado um ultimato: ou terminava os estudos ou saía. Yomif escolheu correr. Foi a mãe, Biritu, que acabou por convencer o pai a aceitá-lo de volta, e o jovem acabou por provar a ambos que a corrida era o caminho certo, prometendo que a sua carreira os libertaria do trabalho na quinta.

O que não foi nem foi necessário muito tempo para concretizar, até porque hoje é dos mais bem pagos do mundo para contarem com ele na estrada nas provas que apostam em derrubar máximos.

Em 2016, Yomif Kejelcha estabeleceu o recorde mundial de sub-20 nos 3000 metros ao ar livre em Paris (7.28,19m). Três anos depois, em Boston, quebrou o histórico recorde mundial da milha em pista coberta, que pertencia ao marroquino Hicham El Guerrouj há 22 anos. Já em 2024, fixou o máximo mundial da meia-maratona em Valência (57.30s) e, no ano seguinte, o dos 10 km em estrada em Castellón (26.31m).

A sua estreia na maratona, em Londres, foi igualmente espetacular, tornando-se o único atleta a baixar das duas horas na primeira tentativa, com o tempo de 1.59,30h. Kejelcha considera a sua altura uma vantagem, tal como Usain Bolt (1,95m) usou a sua para dominar a velocidade. Yomif parece determinado a provar que é a exceção que confirma a regra no fundo.

Além do cachet por ter chegado ao fim e ganho, na capital argentina conseguiu colher mais uma série de prémios monetário, pois ao de ter estabelecido novo recorde da meia-maratona, estabeleceu também a melhor marca de sempre nos 15 quilómetros, ao passar com o tempo de 40.39m, três segundos mais rápido que o registo de Kiplimo em Nijmegen (2024), assim como o recorde do circuito argentino, que pertencia a Kiplimo desde o ano passado (58.29), ao qual retirou impressionantes 1.38m.

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