Hugo Leal (foto: A BOLA)
Hugo Leal (foto: A BOLA)

Hugo Leal: «As expectativas eram dos demais, não minhas»

Entre a promessa precoce do futebol português e os anos dedicados à formação, Hugo Leal aprendeu cedo que o futebol não é só futebol

Perfil realizado por Mariana Sousa, no âmbito da disciplina de Jornalismo Desportivo da Licenciatura em Comunicação Social e Cultural da FCH-Católica, à qual A BOLA se associa.

Num campo de treino do Estoril, Hugo Leal continua a observar o futebol com a mesma atenção que o acompanhou durante toda a carreira. A diferença é que já não procura o passe decisivo nem o espaço entre linhas que o distinguiu enquanto jogador. Hoje, o olhar demora-se mais nos comportamentos, nas emoções e na forma como os jovens atletas lidam com a pressão, o erro ou a frustração. Entre treinos, conversas e decisões técnicas, há uma preocupação constante com aquilo que acontece fora das quatro linhas.

Aos 45 anos, o antigo internacional português vive uma relação diferente com o jogo. A competitividade continua presente, encontrou no padel «o substituto natural» da intensidade que sentia enquanto jogador, mas as prioridades mudaram. Fala mais de equilíbrio do que de títulos, mais de pessoas do que de resultados e mais de formação do que de rendimento imediato. Depois de mais de uma década ligado ao desenvolvimento de jovens atletas, Hugo Leal acredita que o futebol pode ensinar muito mais do que aquilo que acontece ao domingo.

É precisamente essa visão que torna a sua história relevante hoje. Hugo Leal trabalhou, e continua, na formação de jovens atletas, procurando transmitir aprendizagens construídas ao longo de um percurso pouco comum. Mas para compreender o dirigente e o formador que é atualmente, é necessário recuar aos anos em que o seu nome surgia associado a um futuro que parecia não ter limites. Foi aí que começou uma relação complexa com o futebol, marcada por talento precoce, reconhecimento rápido, expectativas que nem sempre coincidiam com as suas próprias ambições e uma conclusão que chegou cedo: o futebol não é só futebol.

O peso das expectativas

Hugo Leal como jogador do Benfica (foto: A BOLA)
Hugo Leal como jogador do Benfica (foto: A BOLA)

Durante anos, porém, o futebol português olhou para Hugo Leal de outra forma. A estreia precoce no Benfica, ainda adolescente, a chegada rápida à Seleção Nacional e as passagens por clubes como o Paris Saint-Germain ou o Atlético de Madrid fizeram dele uma das grandes promessas da sua geração. «Foi um arranque fulminante, com criação de expectativas por parte de terceiros», recorda. Mas enquanto o olhar exterior projetava uma carreira extraordinária, Hugo Leal parecia seguir uma outra lógica: «As expectativas eram dos demais, não minhas».

A diferença entre aquilo que o futebol esperava dele e aquilo que procurava para si acabaria por marcar grande parte do seu percurso. Hugo Leal nunca esconde que alcançou os objetivos que tinha traçado: tornou-se profissional, representou a Seleção Nacional e jogou ao mais alto nível. O desencanto surgiu mais tarde, sobretudo depois da passagem por Paris e do acumular de lesões. «Desencantei-me um bocadinho com a perspetiva do futebol profissional», admite. A partir daí, muitas das decisões que tomou começaram a afastá-lo da ideia de construir uma carreira maior. «Fiz aquilo que me prestei a fazer», resume, acrescentando que muitas escolhas passaram a ser feitas em função da família e dos amigos e não apenas da carreira.

Não é só futebol

Hoje, é precisamente nos jogadores mais novos que reconhece muitos dos sinais que marcaram o início do próprio percurso: a ansiedade de crescer depressa, a pressão exterior e a obsessão precoce pelos resultados. Talvez por isso, quem trabalha com ele no Estoril fala muito menos de títulos e muito mais da forma como tenta proteger emocionalmente os jovens atletas. «O foco do Hugo foi sempre o desenvolvimento da criança como um todo, social, desportivo e familiar», explica Luís Silva, antigo coordenador da formação do Estoril Praia. «Nunca seria possível colocar um resultado desportivo à frente do desenvolvimento harmonioso de uma criança».

A experiência no futebol profissional acabou por moldar também a forma como olha para a formação. Miguel Pires, ligado ao scouting do Estoril, acredita que muito do impacto que Hugo Leal tem junto dos mais novos nasce precisamente dessa vivência. «Há muitos treinadores que acham que são alguém e não chegaram a metade do que ele chegou. O Hugo não. Está sempre pronto a ouvir e a ajudar», refere. A passagem pelos grandes palcos deu-lhe conhecimento técnico e tático, mas também uma perceção clara sobre aquilo que o futebol pode retirar a quem cresce demasiado cedo dentro dele.

Quando terminou a carreira, em 2013, a transição para funções ligadas à formação surgiu de forma natural. «Era um passo simpático para continuar na ótica de ajudar os demais», explica. O trabalho fora das quatro linhas permitia-lhe continuar ligado ao futebol sem abdicar daquilo que procurava para a vida pessoal: maior equilíbrio e uma relação menos consumidora com o jogo.

No Estoril, rapidamente começou a construir uma imagem de proximidade rara no contexto desportivo. Luís Silva recorda que fazia questão de conhecer praticamente todos os atletas pelo nome e de criar uma cultura de respeito entre equipas e treinadores. «Para o Hugo, o clube tinha de funcionar como uma grande família», resume.

A importância que Hugo Leal atribui hoje à formação humana dos atletas acabou por ganhar forma também fora do relvado. Em 2024, publicou, em coautoria com Filipe Mendonça, o livro «Não é só futebol, estúpido», uma reflexão sobre os mais de dez anos que passou à frente da formação do Estoril Praia. A obra nasce precisamente da vontade de explicar as mudanças que procurou implementar no clube e a forma como as experiências vividas enquanto jogador profissional influenciaram a sua visão sobre o desenvolvimento de jovens atletas. Mais do que um livro sobre futebol, é uma reflexão sobre pessoas, valores e sobre a responsabilidade de colocar o desporto ao serviço de vidas melhores.

O lado humano

Essa preocupação humana manifesta-se sobretudo nos pequenos gestos. Num dia de jogo da equipa principal, ao perceber que o segurança colocado à entrada do clube não podia abandonar o posto para almoçar, Hugo Leal foi ao supermercado e voltou com uma salada para lhe oferecer. Noutra ocasião, ajudou uma funcionária a carregar sacos pesados até à secretaria sem hesitar. «É o Hugo», resume Luís Silva, quase como se atitudes destas fossem demasiado normais para merecerem destaque. A mesma lógica repetia-se diariamente dentro da formação. Houve jovens atletas carenciados a quem ofereceu equipamentos do próprio bolso e casos em que ajudou financeiramente pessoas ligadas ao projeto em momentos mais difíceis.

Miguel recorda também o dia em que foi dispensado enquanto jogador. Pouco depois, recebeu de Hugo Leal um cartão de sócio do clube e bilhetes para continuar a acompanhar os jogos da equipa principal. «Era a forma dele dizer que não se esquecia das pessoas», conta. Daniel Garcia, treinador do programa Elite, lembra igualmente que foi chamado por Hugo numa altura em que estava desempregado. «Acabou por me ajudar financeiramente com o trabalho», revela.

Talvez por isso, quando questionado sobre aquilo que gostaria que ficasse da sua passagem pelo futebol, Hugo Leal afasta-se imediatamente da ideia de carreira ou estatuto. «Os meus feitos desportivos não são extraordinários«, diz. «Gostava mais que as pessoas me recordassem pelo lado humano».

Desfrutar o caminho

Se pudesse falar com o Hugo Leal de 18 anos, a mensagem seria simples: «Desfrutar sempre e ter paixão por tudo o que se faz.»

A resposta surge sem grandes arrependimentos. Há, acima de tudo, a tranquilidade de quem sente ter vivido o futebol à sua maneira. E talvez seja precisamente essa serenidade que mais surpreende em alguém que viveu tão cedo no centro das expectativas do futebol português. Entre estreias precoces, grandes clubes, lesões, e mudanças de rumo, Hugo Leal parece ter chegado ao fim da carreira desportiva menos preocupado com aquilo que o futebol lhe deu ou tirou e mais focado naquilo que aprendeu no caminho. Hoje, continua a transmitir aos mais novos muito daquilo que gostaria de ter encontrado quando também era apenas um miúdo a tentar crescer depressa demais dentro do jogo.

Quando fala dele, Luís Silva acaba sempre por voltar ao mesmo ponto: a facilidade com que Hugo Leal transforma qualquer conversa num espaço leve e próximo. «É um grande contador de histórias», diz, entre risos. Depois faz uma pausa breve e conclui: «O Cândido Costa é quase tão bom como ele.»

Próximo artigo

A iniciar sessão com Google...