Elena Rybakina, a nova rainha do Open da Austrália
Elena Rybakina, a nova rainha do Open da Austrália

Eis a nova rainha do Open da Austrália: da deceção na ginástica à fuga da Rússia

Elena Rybakina vingou derrota de 2023 e bateu Sabalenka na final deste sábado em Melbourne

Há derrotas que não cicatrizam enquanto o destino não permite o reencontro. Para Elena Rybakina, a ferida de 2023, quando viu Aryna Sabalenka erguer o troféu em Melbourne após uma batalha de três sets, foi este sábado finalmente sarada com a frieza de quem não celebra com gritos, mas com a precisão de um cirurgião.

As melhores imagens fora dos 'courts' de Rybakina:

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No calor sufocante da Rod Laver Arena, a cazaque de 26 anos não apenas conquistou o seu segundo Grand Slam; ela reafirmou que, no deserto emocional do circuito feminino, o seu silêncio é a arma mais barulhenta.

Rybakina bateu Sabalenka e venceu o Open da Austrália 2026 - Foto: IMAGO

A vitória desta manhã (6-4, 4-6, 6-4) foi um compêndio de resiliência. Quando Sabalenka, a número 1 do mundo e favorita indomável, vencia por 3-0 no terceiro set, o público preparava-se para o habitual desmoronamento psicológico perante o poderio da bielorrussa.

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Rybakina, porém, manteve a face de mármore. Ganhou cinco jogos consecutivos, fechou o encontro com um ás — a sua assinatura — e limitou-se a um sorriso contido e um toque tímido nas cordas da raqueta. É o estilo Rybakina: sem teatro, sem quedas no court, apenas eficácia absoluta.

O erro de cálculo da ginástica

A história de Elena Rybakina poderia ter sido escrita num tapete de ginástica ou numa pista de patinagem artística, não fosse um defeito genético para essas modalidades: a altura!

Em criança, em Moscovo, Elena sonhava com as piruetas e a elegância desses desportos. Contudo, o seu crescimento galopante tornou-se um obstáculo. «Disseram-me que eu ia ser demasiado alta e que não tinha futuro ali», recordaria anos mais tarde.

O que a ginástica perdeu, o ténis ganhou. Aos seis anos, o pai, Andrey, levou-a para o court. A sua estatura (hoje 1,84m) transformou-se no alicerce de um dos serviços mais temidos do planeta. Mas o desporto, por vezes, é uma questão de geografia e de carteira.

A jogada de mestre do Cazaquistão

A segunda grande história da sua vida é a da fuga por necessidade. Em 2018, aos 19 anos e fora do top 150, Rybakina viu o seu futuro em risco. A Federação Russa não acreditava nela o suficiente para financiar as viagens e o treino de elite e foi então que surgiu o Cazaquistão, com uma proposta pragmática: cidadania e patrocínio total em troca da representação da bandeira.

Aquela que já considerou como «a melhor decisão» da carreira, foi também a que lhe trouxe mais dores de cabeça políticas. Quando venceu Wimbledon em 2022, no ano em que os jogadores russos foram banidos do torneio devido à guerra na Ucrânia, Rybakina tornou-se o centro de um turbilhão diplomático.

«Sinto-me cazaque, eles acreditaram em mim quando mais ninguém o fez», respondeu sempre, com a mesma calma com que salva break-points. Hoje, com dois Majors no currículo (Wimbledon 2022 e Australian Open 2026), ninguém se atreve a questionar a sua identidade desportiva.

A 'Ice Queen' dos antípodas

Treinada pelo carismático e por vezes polémico Stefano Vukov, Rybakina é o antítese do ténis moderno de gritos e punhos cerrados. A sua alcunha, Ice Queen (Rainha do Gelo), não é pejorativa; é uma descrição da sua imunidade à pressão.

Com o triunfo deste sábado, Elena Rybakina não só sobe na hierarquia do ranking (consolidando-se no top-3), como assume o estatuto de jogadora a bater em superfícies rápidas.

Em Melbourne, onde o asfalto queima e os nervos fervem, a mulher que foi «demasiado alta para a ginástica» provou que o topo do mundo é, afinal, a sua medida exata. O ténis tem uma nova imperatriz e, curiosamente, ela prefere não dizer palavra sobre isso. Deixa que o seu serviço fale por ela.