Andrei Klepach - Foto: IMAGO

Economista-chefe demitido de banco estatal russo após alertar para derrota de Moscovo em «guerra de desgaste»

Andrei Klepach assumiu raras críticas públicas ao regime de Putin

O economista-chefe do banco estatal de desenvolvimento russo VEB foi demitido após ter afirmado que o país está a sofrer danos económicos crescentes devido à guerra na Ucrânia e a ficar para trás em relação ao Ocidente e à China. A informação foi avançada à agência Reuters por duas fontes familiarizadas com o assunto.

Andrei Klepach, um dos mais proeminentes macroeconomistas da Rússia, fez as declarações num fórum financeiro em maio, mas estas só foram noticiadas pela imprensa russa na semana passada. O próprio Klepach, que ocupava o cargo desde 2014, confirmou a sua demissão à Reuters. Por sua vez, o VEB, que financia projetos estatais, confirmou que o economista já não exercia funções, mas não adiantou o motivo.

O discurso de Klepach, publicado no site do Nikitsky Club — um fórum de economistas, académicos e funcionários governamentais —, representou uma rara crítica pública vinda de uma figura de topo de uma instituição estatal sobre os custos da guerra iniciada por Moscovo em 2022.

«Estamos a ficar para trás. Estamos a perder a competição tecnológica e económica no mundo. E não a estamos a perder apenas para a China e os Estados Unidos, de certa forma também a estamos a perder para a Ucrânia», afirmou Klepach, atribuindo este último ponto ao apoio financeiro que Kiev recebe do Ocidente.

O economista alertou ainda para os custos crescentes do conflito para a Rússia. «Não venceremos a competição nesta guerra de desgaste. Temos a ilusão de que tudo lá [na Ucrânia] vai colapsar. Não colapsou e não vai colapsar. Os nossos custos estão a aumentar», declarou, prevendo uma crise social.

No seu discurso, Klepach reconheceu a resiliência da Rússia às sanções ocidentais, mas sublinhou que as pressões estão a aumentar devido aos ataques ucranianos a infraestruturas energéticas e logísticas. Apontou também para o aumento da desigualdade de rendimentos e para uma taxa de crescimento do PIB mais lenta do que a dos EUA e da Ucrânia.

Em julho, o banco central russo sugeriu que a economia poderia não crescer este ano. Durante o verão, ataques ucranianos a refinarias de petróleo e a armazéns da retalhista Wildberries criaram choques na oferta, aumentando os riscos de inflação e a inquietação pública.

Apesar das garantias do Presidente Vladimir Putin de que a economia está estável, Klepach previu um cenário diferente: «Economicamente não vamos colapsar, mas o nosso atraso continuará a crescer, com todas as consequências daí resultantes». O economista antecipou que uma crise social poderia surgir «precisamente quando ninguém a espera particularmente».

Klepach criticou ainda a excessiva dependência da Rússia em relação à China e a falta de coordenação entre as políticas monetária, orçamental e industrial, que, segundo ele, contribuíram para o abrandamento económico deste ano. «A qualidade da governação está quase constantemente a deteriorar-se», lamentou. «Estão a ser tomadas decisões a toda a hora com um nível de justificação extremamente baixo, mas com consequências estratégicas a longo prazo».

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