Rui Borges fez história com o Sporting — Foto: MIGUEL TONA/EPA
Rui Borges fez história com o Sporting — Foto: MIGUEL TONA/EPA

«É extraordinário ver o Sporting no meio daqueles tubarões todos», tudo o que disse Rui Borges

Treinador qualificou leões para os oitavos de final da Champions. Dividiu os louros mas não escondeu satisfação por a equipa ter alcançado um «objetivo histórico»

BILBAU — Radiante. Claro! O Sporting qualificou-se diretamente para os oitavos de final da UEFA Champions League, após vencer o Ath. Bilbao, por 3-2, em San Mamés, e Rui Borges não podia estar mais feliz.

— Como qualifica esta proeza do Sporting na UEFA Champions League?

— É extraordinário olharmos para ali, para a classificação e ver as equipas que estão lá, as oito apuradas diretamente, e ver que está lá o Sporting no meio daqueles tubarões todos. Acho que é um momento e um motivo de orgulho para todos nós, para a equipa, para o grupo, para todo o staff, para todo o clube, para os nossos adeptos, que merecem muito, que ficaram em casa e que, de certeza absoluta, sofreram muito connosco, apoiaram-nos muito.

— Os adeptos não puderam estar presentes em Bilbau, mas esta vitória também é deles...

— Sim, mas é importante sentirmos a energia que temos sentido deles, e é para eles também esta dedicatória. Infelizmente, não puderam estar presentes neste jogo, mas acredito que passaram essa energia também muito boa para nós conseguirmos alcançar um objetivo histórico, bonito, que ficará marcado por algum tempo, de certeza absoluta, no Sporting e no país, acima de tudo. É um motivo de orgulho, e não há palavras para descrever aquilo que é o orgulho que eu tenho do grupo, da equipa, dos jogadores, porque eles são incríveis.

— O Sporting ganhou outra vez no tempo de compensação, mas a primeira parte terá sido uma das piores da temporada. Concorda?

— Não. Penso que fomos condicionados da forma que estávamos à espera, muito sinceramente, muito honestamente. Não concordo que tenha sido das piores primeiras partes, tivemos dificuldades em ligar o jogo, falhámos muito passes, mas, acima de tudo, não estávamos com a energia certa em termos daquilo que era a competitividade. Não ganhámos a primeira bola, não ganhámos a segunda, estávamos lentos a tomar decisões já num segundo momento também, fomos perdendo bolas, tivemos pouco profundidade. Eles são fortíssimos nisso, são a equipa que mais recupera no meio-campo ofensivo. Na primeira parte, fomos perdendo alguma confiança e sofremos o segundo golo de uma forma que não podemos sofrer. Nesta competição não podemos sofrer aquele segundo golo, não podemos parar à espera de uma falta, independentemente se é falta ou não, neste patamar não podemos sofrer esses golos. Na segunda parte, acho que a entrada do Edu [Eduardo Quaresma], do Pote e do Morita foram muito importantes, corrigimos uma ou outra situação na primeira etapa de construção, o que nos deu maior clarividência para conseguirmos empurrar o Ath. Bilbao para trás e instalámo-nos no meio-campo ofensivo. A equipa percebeu o que tinha que fazer, eram coisas muito básicas e dentro daquilo que é a nossa ideia e de coisas que tínhamos identificado, só que não fomos conseguindo fazer isso na primeira parte. Na segunda parte melhorámos nesse aspeto, e claramente crescemos. Acho que fizemos uma grande segunda parte e merecemos muito esta vitória.

— Foi uma segunda parte com a identidade que tinha pedido na véspera?

— Não, personalidade tivemos do início ao fim. Faltou-nos foi aquela proatividade com bola na primeira parte, porque o Ath. Bilbao é uma equipa muito intensa e nós sabíamos disso. Faltou-nos provocar mais profundidade, estávamos um bocadinho presos naquilo que era o pensamento a tomar as decisões, estávamos mais presos também, não sei se foi porque sofremos golo numa fase inicial, num grande ambiente, dos melhores que vivi, e contra uma grande equipa, o que nos deixou um bocadinho mais intranquilos durante a primeira parte. Na segunda parte melhorámos alguns comportamentos que eram importantes, coisas simples, dentro da nossa estrutura e dentro da nossa ideia de jogo. Depois, claro, as substituições correram bem. O Morita é importante, porque tem uma capacidade muito boa de ficar com bola, de jogar em jogo curto, mesmo sob pressão, não se esconde, procura o jogo, antecipa decisões, entrou muito bem. O Pote é um jogador acima da média, nem preciso estar a falar dele, porque é um jogador extraordinário, a equipa claramente fica diferente com ele, não há como fugir. O Edu [Eduardo Quaresma] entrou e correspondeu da mesma forma, foi extraordinária a forma como ele entrou, percebeu o que tinha de fazer. Também por isso, estou feliz. Por sentir toda a gente ligada e com vontade de ajudar a equipa, por isso é que é a grande virtude deste grupo. Sentirem que são todos importantes, independentemente do tempo de jogo que têm. O Alisson depois entrou muito bem, porque o Alisson nestes jogos tem-nos dado sempre isto, em 10, 15 minutos. É um jogador extraordinário nesse sentido, porque é muito intempestivo, muito forte um para um. Quando há muitos metros, é fortíssimo. Tem de crescer noutras coisas, faz parte, se calhar em jogos internos, nos quais já não tem tanto espaço para um para um, já tem que antecipar decisões, mas nestes jogos de Champions tem sido extraordinário, e é um jogador muito importante, para estes minutos finais principalmente, tem sido um jogador importantíssimo.

— Como é que mediu o risco? O Sporting depois das substituições que fez, chegou relativamente rápido ao empate, mas parece que não quis arriscar demasiado, para não se expor. Vale a pena correr mais ou menos riscos com um 2-2?

— Acho que não se tratava de correr riscos, até porque nós nunca baixámos demasiado o bloco. A malta estava competitiva quando a bola entrava no último terço, toda a gente ajudou a defender, é o espírito da equipa, a equipa estava bem organizada, em alguns momentos acho que a linha defensiva estava demasiado espaçada da linha média, podia estar um bocadinho mais alta, mas também dado aquilo que é o momento dos centrais que temos. É natural que em alguns momentos não sejam tão proativos a subir linhas, mas fomos mais competitivos nesse sentido, recuperámos mais bolas e conseguimos instalar-nos mais vezes no campo do Ath. Bilbao. Por isso, o risco é sempre o mesmo, acho que não tem muito a ver com o risco ou não risco, tem sim a ver com aquilo que era perceber o que é que o jogo estava a pedir, o que é que o jogo nos dava, e nisso a equipa foi extraordinária a perceber, principalmente na segunda parte.

— Este apuramento é marcante. Além do sucesso desportivo, há o fator financeiro. Até que ponto isto será importante para si?

— Acima de tudo, fico feliz porque aumenta aquilo que é a qualidade e a pontuação do nosso país. Fico feliz por ver as duas equipas portuguesas qualificadas e espero que na Liga Europa também o façam. É importante para todos. Em relação a dinheiro, sinceramente não estou a pensar nisso, o que me guia é aquilo que eu tenho como objetivo: fazer o melhor pelo Sporting, marcar a história do Sporting. Não é o dinheiro que me move, nem nunca foi o que me moveu, mas sim a paixão que tenho pelo futebol.

— No final do jogo em Arouca disse que os jogos vão até o fim. Onde é que acha que a sua equipa se superioriza às outras para efetivamente acreditar que o jogo só termina no fim?

— A ambição da equipa, acho que a amizade e o respeito que têm uns pelos outros, enquanto equipa, enquanto coletivo, porque foi o coletivo que nos trouxe até aqui para lutar por este objetivo e foi o coletivo que ganhou o jogo e conseguiu este objetivo. A ambição deles é enorme, infinita, eles não se cansam de ganhar. A ambição de ganhar é mostrar que merecem ganhar. Por isso digo que não tenho palavras para descrever o orgulho e a qualidade destes jogadores.

— O Sporting cresceu com a entrada do Pote, mas também devido à conexão dele com o Trincão. Acredita que esta ligação foi fundamental para a vitória?

— Não acho que tenha sido só com a ligação dos dois. O Pote faz crescer, mas não foi só o Pote, o Morita foi importante, o Edu [Eduardo Quaresma] foi importante, acho que a entrada dos três foi importante. O Edu na clarividência, na tomada da decisão, a ver os passes; o Pote pela qualidade que dá; o Morita pela capacidade que tem de leitura de jogo e de jogar em espaços. Depois cresceu o Morten [Hjulmand], o Trincão… Mas acho que não foi só pelo Pote, muito honestamente, e já disse que o Pote é extraordinário e é claramente diferenciado e, como se diz, com ele a música é outra. Acho que os três foram importantes a entrada dos três foi muito boa e ajudou muito a equipa a crescer.

Gonçalo Inácio saiu lesionado. Pode adiantar mais alguma coisa?

— Muito honestamente, não sei. Vai para avaliação, espero que não seja nada grave, mas vamos ver.