At. Bilbao-Sporting (IMAGO)
At. Bilbao-Sporting (IMAGO)

Na selva de San Mamés os leões de Lisboa é que são reis (crónica)

Athletic Bilbao pareceu ter mais fome, mas Sporting foi mais inteligente. Rui Borges ganhou o jogo no banco

BILBAU — Talvez tenha sido a consciência de que o play-off da UEFA Champions League estava garantido, talvez tenha a ver com o perfil dos jogadores, talvez a equipa tenha sentido o ambiente. Talvez tenha sido tudo isso junto que fez com que, num duelo de leões, porque essa é a alcunha das duas equipas, os do País Basco parecessem, de início, bem mais esfomeados que os portugueses.E isso viu-se na forma como atacaram a bola, como pressionaram, como se bateram.

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Rui Borges mudou a cara à equipa e, para além do regresso de Diomande, lançou Daniel Bragança no onze, para jogar atrás de Luis Suárez, com Trincão desviado para a esquerda e Maxi Araújo a recuar para lateral.

Se a intenção era ter mais capacidade para segurar a bola e para a circular, não resultou — o Athletic cerrou linhas, subiu a defesa, roubou espaço e Bragança, na verdade, recebeu quase sempre de costas para a baliza contrária.

Se a intenção era mais defensiva, ter uma unidade a meio-campo que pudesse juntar-se a Hjulmand e João Simões, também não funcionou — Bragança juntou-se quase sempre a Suárez para pressionar a saída de bola do Athletic, e os bascos foram perigosos sobretudo quando a recuperaram no meio-campo do Sporting, com o 23 demasiado adiantado para poder ajudar.

Foi assim que o Athletic chegou à vantagem logo aos 3', na primeira ocasião de que dispôs: um mau corte de Hjulmand e muita cerimónia na defesa do Sporting deixaram Sancet na cara do golo e o médio não perdoou.

Os bascos pareciam melhores — mais esfomeados... —, mas os leões de Lisboa conseguiram responder quase de imediato, também na primeira ocasião: canto da esquerda de Maxi e Diomande ganhou nas alturas a Guruzeta para fazer o 1-1, num belo golpe de cabeça.

E os minutos que se seguiram até mostraram um Sporting mais calmo, mais tranquilo, finalmente capaz de trocar a bola — mas sempre em zonas recuadas. Cada vez que tentava entrar na defesa contrária, perdia-a.

E o problema é que também a perdeu em zona proibida: aos 28', Matheus Reis, dois minutos depois de substituir o lesionado Gonçalo Inácio, foi desarmado por Guruzeta (ficou a reclamar falta, mas nem árbitro nem VAR concordaram) e o ponta de lança caminhou para o golo — o primeiro remate saiu ao poste, mas na recarga não perdoou.

Quem pudesse sonhar com nova reação rápida dos verdes e brancos depressa perdeu a ilusão: o Sporting foi zero a atacar na primeira parte, a única oportunidade foi a do golo, e o Athletic foi confortável para o balneário.

E de lá veio aparentemente ainda mais esfomeado — Galarreta ameaçou o 3-1 logo a abrir. Mas o Sporting começou a responder, Hjulmand obrigou Simón a aplicar-se, mas a fome do leão que veio de Portugal só apareceu mesmo quando Rui Borges deu um pontapé na mesa e fez três substituições de uma assentada, aos 54'.

Morita e Pedro Gonçalves trouxeram dinâmica que João Simões e Bragança não conseguiam emprestar e as melhorias foram imediatas.

A equipa verde e branca começou a ter mais bola, a empurrar o Athletic para trás e, um minuto depois de Geny Catamo desperdiçar a melhor jogada do Sporting até então, com um remate ao segundo poste em que pegou mal na bola, surgiu o 2-2, dos pés de Trincão, depois de excelente combinação com Pedro Gonçalves pela zona central.

O empate não servia a ninguém — o Athletic precisava de vencer para ir ao play-off, o Sporting tinha de ganhar para avançar diretamente aos oitavos. E com um leão de Lisboa de cara lavada, viu-se fome, enfim, dos dois lados. E oportunidades. E uma bela jogatana.

Se Guruzeta ameaçou o 3-2 logo a seguir, depois foi o Sporting quem foi mais perigoso, mesmo que parecesse menos frenético — mas soube aproveitar o desespero basco para mostrar, afinal, que não é só a fome que faz o leão perigoso, é a inteligência que lhe permite ser o rei da selva.

E depois de penálti sobre Geny (bem) revertido e golo anulado a Luis Suárez por fora de jogo, foi com o Athletic balanceado no ataque, num canto, que o leão verde e branco estabeleceu o domínio: contra-ataque rápido, Suárez desequilibrou-se e falhou à primeira, mas Alisson, entrado na reta final para o lugar de Trincão, estava lá para carimbar a primeira vitória do Sporting em Espanha, num duelo de leões.