Filipe Luís foi despedido do Flamengo após uma vitória por... 8-0!
Filipe Luís foi despedido do Flamengo após uma vitória por... 8-0!

Flamengo, São Paulo e o absurdo

JAM Sessions é o espaço de opinião de João Almeida Moreira, jornalista e correspondente de A BOLA no Brasil

O despedimento de Filipe Luís pelo presidente do Flamengo correu mundo: afinal, não é comum um treinador ser demitido após uma vitória por 8-0 numa meia-final de um torneio e menos de três meses depois de conquistar os dois principais títulos em disputa na época anterior, o Brasileirão e a Taça dos Libertadores. A ideia que essa decisão alucinante transmite é que, a prazo, todos os protagonistas perdem com a troca.

Filipe Luís, logicamente, perde o emprego. A direção do Fla perde credibilidade, conceito tão caro aos gestores que a encabeçam, além de dinheiro com indemnizações, outro conceito muito caro aos gestores que a encabeçam, e até boa imprensa, mais um conceito muito caro aos gestores que a encabeçam.

E Leonardo Jardim, o substituto de Filipe Luís? Além de perder uma relação conquistada a pulso com o Cruzeiro, a quem se declarara em agosto, o treinador português tem, sobretudo, pouco a ganhar. O que pode fazer Jardim, por melhor treinador que seja, e é-o, para superar o trabalho de Filipe Luís? Tem, no mínimo, de ganhar os difíceis e competitivos Brasileirão e Libertadores, como o antecessor. E ainda acrescentar a Copa do Brasil, que também não é propriamente trivial. Ou a Taça Intercontinental no fim do ano frente a um Real Madrid, Bayern, Arsenal, Paris Saint-Germain ou tubarão que o valha. Tudo isso a jogar um futebol (ainda) mais atraente que o do Mengão de Filipe Luís, caso contrário os mal habituados adeptos vaiam.

Sim, claro, tem a ganhar um salário principesco e arrisca-se a conquistar títulos, se não aqueles todos, pelo menos alguns, como ficou provado no fim de semana passado, quando, com meros 90 minutos de clube, levantou logo uma taça. Veremos. Mas, para já, é a mais absurda troca de comando do futebol brasileiro dos últimos anos. Ou era.

Uma semana depois, Hernán Crespo foi despedido do São Paulo mesmo liderando, surpreendentemente, o Brasileirão a meias com o poderoso Palmeiras e já seis pontos de avanço sobre, entre outros, o citado Fla. Surpreendentemente porque o São Paulo é um gigante que vem sendo prejudicado por gestões ruinosas e fraudulentas consecutivas, como, por exemplo, a de Julio Casares, alvo de impeachment já este ano — Crespo conseguiu manter a equipa, que não é tão valiosa quanto isso, incólume à confusão diretiva.

Bom, mas foi eliminado pelo Verdão na meia-final do estadual. Sim, mas isso foi nove dias antes de a direção decidir agir. Ou seja, numa pausa de 11 dias sem jogos, o São Paulo demitiu o treinador 48 horas antes do desafio seguinte. O Fla agradece: já ninguém fala mais do despedimento de Filipe Luís após um 8-0.