Dupla do leão mete medo
NÃO é tanto o Paulinho, é mais o Gyokeres, ou o enquadramento perfeito entre ambos, que ajuda a explicar a transformação operada no futebol do leão, de novo pujante, audaz e temido, à imagem do que foi campeão em 2021, num projeto de raiz arquitetado por Rúben Amorim, entretanto interrompido.
Projeto que assentou num meio-campo de sonho, de que hoje sobra a saudade desse futebol que se impôs pela competência. Nuno Mendes, João Mário, João Palhinha e Pedro Porro, mais os sucessores, primeiro Matheus Nunes e depois Ugarte, todos deixaram a sua marca de indelével qualidade e todos o Sporting deixou fugir provavelmente em obediência à estabilidade financeira, que tem sido uma das bandeiras da atual administração.
Foi preciso apanhar um susto, provocado pelo quarto lugar no último campeonato, para enveredar por nova estratégia, mais seletiva e exigente nas aquisições. Neste sentido, não foi por acaso que o treinador, seguramente animado com o plantel de que dispõe, sublinhou que as compras representam metade das vendas, um sinal de que quanto está a ser feito não contamina o equilíbrio das contas do clube, pelo contrário, reforça-o, na medida em que os investimentos até agora feitos revelam-se seguros e geradores de mais riqueza, como é o caso deste avançado sueco, de 25 anos, da escola do Brighton, que Amorim trouxe à colação para definir o Famalicão.
Gyokeres não será um fenómeno, mas é um jogador que impressiona, pelo menos a mim, pela força, pela agilidade, pela potência de remate, pela capacidade de ver e entender o jogo. É um avançado moderno que domina a frente de ataque, à esquerda, à direita e ao centro, é uma máquina de rasto que entra na área contrária e leva tudo à frente. Além de exibir uma execução apreciável e um poder de finalização notável, mais com o pé direito, sem deixar o esquerdo adormecido, como mostrou no jogo com o Vizela.
Habituado ao contacto físico e sem medo do choque, vai ser um fabricante de faltas pela sua determinação na luta pela posse da bola. É um espanto de jogador.
PAULINHO é o mesmo, agora com a feliz diferença de ter a seu lado alguém que o compreende e que o desafia para fazerem coisas novas. Como é taticamente um praticante de cultura acima da média, e será esse o atributo que Rúben Amorim mais apreciará nele, não precisou de tradutor para entender o futebol de Gyokeres, nem este precisou de explicador para perceber o que faltava a Paulinho e formar com ele uma dupla de meter medo.
Como escreveu o prof. Jorge Castelo em A BOLA, na edição de 20 de agosto, «o que não parece conjuntural é a complementaridade entre Gyokeres e Paulinho, o primeiro nas ações de profundidade, arrastando a defesa adversária para o seu reduto defensivo, e o segundo aproveitando e explorando os espaços criados pelo seu colega».
É verdade que só dois futebolistas, por muitos que sejam os talentos identificadores, não fazem uma equipa, mas Pedro Gonçalves, o jogador mais virtuoso do plantel leonino - embora admita estar redondamente enganado, de outro modo o selecionador já lhe teria enxergado algum jeitinho, no mínimo para ocupar um lugar do banco de suplentes da equipa nacional -, não vai desaproveitar a ocasião de também ele se projetar e conquistar fronteiras.
Por outro lado, dinamarquês Hjulmand, com as devidas cautelas, deu indicações de muito depressa fazer esquecer Ugarte. É jogador de tração à frente e com mais presença no campo do que o uruguaio. É seguro no passe e não facilita nas bolas divididas. Além de uma característica engraçada: é um refilão simpático, com a mesma facilidade que se irrita com árbitro e adversários assim os cumprimenta e pede desculpas.
Rúben Amorim disse que nunca dorme descansado, vive sempre stressado. Percebe-se, mas o ambiente serenou em Alvalade, o entusiasmo dos adeptos voltou e sonhar ainda não é proibido…
ÁGUIA CONFUSA
VLACHODIMOS esgotou o seu prazo de validade no Benfica. Uma rotura há muito anunciada, só se estranhando a demora e as circunstâncias que conduziram à sua confirmação, meia dúzia de meses depois de lhe terem renovado o contrato. Este é apenas um dos problemas que se deparam a Rui Costa. No entanto, com o ucraniano Trubin contratado, bem ou mal se verá, o presidente tem a vida facilitada. Precisa encontrar uma solução para a baliza, uma alternativa a Bah e, no mínimo, um lateral-esquerdo, porque a invenção de Roger Schmidt com Aursnes cheira a fiasco.
Há menos de um mês, escreveu Vítor Serpa, em Editorial, que «o Benfica, tem, indiscutivelmente, melhor plantel, mas está a jogar pior futebol». Até hoje, nada mudou. Penso que é uma evidência. É verdade que o treinador é o mesmo que foi campeão, com um simulacro de plantel, o que mais estranheza suscita. Aguardo, à espera que alguém explique. No próximo sábado o Benfica recebe o Vitória de Guimarães, com estádio cheio. Nessa altura, já o mercado europeu fechou…