Treinador Laurindo Filho aponta críticas ao plano do treinador para o jogo com Espanha

Dos erros táticos aos divórcios de bastidores: os sete pecados de Martínez

O balanço detalhado de um projeto que prometia o topo do mundo em 2026, mas que acabou por ruir nos oitavos de final perante a Espanha. Há falhas do selecionador, mas… não só

DALLAS — Contratado no início de 2023 com o selo dourado reservado aos grandes estrategas do futebol internacional, Roberto Martínez assumiu o comando técnico da Seleção Nacional com uma missão perfeitamente delineada pela cúpula do futebol português: burilar, organizar e guiar uma das gerações mais cintilantes da nossa história rumo à conquista do título mundial em 2026.

O plano parecia perfeito e inatacável no papel, mas a dura realidade dos relvados norte-americanos tratou de deitar por terra o guião idealizado nos gabinetes. A queda prematura nos oitavos de final, diante de uma Espanha fria e letal nos instantes finais da partida em Arlington, carimbou o fracasso de um projeto desportivo que acabou por ruir por força dos seus próprios erros e omissões estruturais.

Portugal despede-se deste Campeonato do Mundo com a dolorosa e desconfortável sensação de que o desperdício passou por algumas opções do selecionador nacional. Mas não se ficam por aí as justificações para o fracasso. O nulo que se arrastou com sofrimento até ao primeiro minuto de compensação acabou desfeito por um golo cirúrgico de Mikel Merino, um lance que deitou por terra a alma lusa e puniu a incapacidade crónica da equipa de se transformar num bloco homogéneo.

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Olhar para esta caminhada em solo americano é abrir o livro dos sete pecados capitalizados por Martínez (e não só...) que ditaram a falência do sonho português. Entre escolhas técnicas incompreensíveis, atropelos táticos, polémicas mediáticas absurdamente mal geridas e ruídos de bastidores que minaram a estabilidade do grupo, há muito para dissecar numa derrocada que o marcador minimalista de 0-1 tenta, sem qualquer sucesso prático, disfarçar ou mitigar.

O onze de Portugal frente a Espanha - Foto: MIGUEL NUNES

1. Solitude

O primeiro pecado prende-se com a incapacidade gritante de transformar um rol formidável de superestrelas num bloco coletivo funcional. Portugal viajou com o estatuto legítimo de ser uma das seleções mais temidas do planeta, bastando olhar para o valor de mercado e o prestígio dos nomes inscritos na convocatória.

Contudo, muitas estrelas resultaram em pouco coletivo. O imenso talento individual nunca encontrou um ecossistema tático estável que o fizesse potenciar de forma articulada.

Foi Portugal uma equipa feita à base de alguns espasmos individuais, totalmente dependente do génio isolado de Ronaldo, de um rasgo de Rafael Leão, de uns pares de intervenções milagrosas de Diogo Costa entre os postes ou da raça pura de Renato Veiga na linha defensiva.

Faltou a Martínez, porém, a arte e a visão de fundir estas peças numa engrenagem fluida. A equipa apresentava-se previsível, pastosa no miolo e assustadoramente lenta nas transições ofensivas. Sem uma matriz coletiva sólida, o talento puro acabou isolado num deserto de ideias.

2. Desgaste

O sub-rendimento gritante dos principais dinamitadores do jogo português constitui o segundo fardo insustentável na bagagem da Seleção. Assistimos, com enorme apreensão, ao eclipse técnico de craques mundiais que vinham de assinar épocas absolutamente monumentais e em altíssima rotação nos respetivos clubes.

Nomes como Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes chegaram com o estatuto legítimo de motores indiscutíveis do meio-campo, mas o que apresentaram em campo foi uma imagem pálida, desgastada e taticamente asfixiada de si mesmos, muito longe do habitual fulgor criativo.

O cansaço físico acumulado ao longo de calendários implacáveis foi mais do que notório nas pernas e na mente dos jogadores, mas o pior erro terá residido no facto de alguns terem jogado em posições pouco habituais ou sob diretrizes que castravam as suas rotinas mais naturais.

Bernardo Silva chegaria a verbalizar publicamente essa grande dificuldade, assumindo que é manifestamente complexo assumir em pleno relvado uma posição para a qual se jogou muito menos ao longo da carreira nos clubes. O resultado foi um miolo criativo completamente sem oxigénio, arrastando-se em campo e revelando-se incapaz de alimentar a linha da frente com critério.

3. Atropelo

O caso mais flagrante de incompreensão tática por parte de Martínez residiu na formatação do papel de Vitinha em campo. O médio afirmou-se como o supermotor de um PSG bicampeão europeu, rubricando exibições de nível estratosférico sob as ordens do técnico espanhol Luis Enrique.

Em Paris, Vitinha assume as rédeas do miolo de forma mais solitária, é dele esse papel, o de construção sozinho e o de pautar os ritmos com total autonomia. No onze de Portugal, essa soberania foi-lhe castrada.

Bruno Fernandes e Vitinha, dois 'galos' para um só poleiro - Foto: IMAGO

Ao colocar Bruno Fernandes no mesmo espaço, com missões táticas e movimentos demasiado semelhantes e sobrepostos, o selecionador provocou um atropelo mecânico incompreensível no relvado.

Em vez de se complementarem no processo criativo, os dois passavam parte dos 90 minutos a pisarem terrenos semelhantes, encurtando as linhas de passe mútuas e atrapalhando-se na definição e condução das jogadas. Sem a liberdade de processos que o coroa no seu clube, Vitinha foi uma sombra incapaz de assumir o jogo, num erro que retirou fluidez a toda a manobra ofensiva de Portugal.

Gonçalo Ramos marcou o golo da vitória de Portugal frente à Croácia - Foto: IMAGO

4. Rigidez

A falta de rotação e a gestão ultra-rígida dos 26 convocados constituem o quarto pecado capital da era Martínez em solo americano. Num torneio curto, disputado sob temperaturas exigentes, o selecionador sobrecarregou os suspeitos do costume, condenando ativos valiosos e frescos ao mais profundo ostracismo.

Sendo rigorosamente verdade que utilizou 22 jogadores ao longo do torneio, os números revelam uma gritante gestão precária dos recursos humanos que tinha no banco de suplentes.

Quatro atletas regressam a casa sem somar um único minuto: os guarda-redes Rui Silva e José Sá (além de Ricardo Velho), o defesa central Gonçalo Inácio e o extremo Gonçalo Guedes. Fica no ar a pergunta legítima: porque foram totalmente excluídos Inácio e Guedes quando a equipa, por vezes, pedia soluções?

A incompreensão adensa-se quando olhamos para a gestão do ataque. Num total de 450 minutos possíveis ao longo dos cinco jogos, Gonçalo Ramos — que a opinião pública pedia com insistência, sabendo que cumpre sempre com golos, como provou frente à Croácia ao entrar e assinar o golo da vitória por 2-1 — jogou apenas uns míseros 35 minutos; e, frente a Espanha, nem vê-lo. Francisco Trincão somou apenas 26 minutos, Samu Costa 20’ e Matheus Nunes um mísero minuto.

Defesa incrível de Diogo Costa - Foto: EPA
Defesa incrível de Diogo Costa - Foto: EPA

Em contrapartida, o esgotamento foi elevado nos cinco atletas mais utilizados. Diogo Costa e Renato Veiga totalizaram os 450 minutos, eles que foram duas das melhores unidades neste Mundial, o guarda-redes de forma monumental com Colômbia e Espanha, o defesa excelente na missão de anular ataques, mas com dificuldades na saída com bola.

Cristiano Ronaldo somou 441 minutos em campo aos 41 anos de idade, enquanto Bruno Fernandes acumulou 422’ sendo uma sombra pálida daquilo que fez na época. Nuno Mendes registou 398 minutos, mesmo quando contra a Colômbia, na fase de grupos, já era evidente que se arrastava em campo com queixas físicas, brilhando ainda assim a anular Yamal nos oitavos.

Idas matinais à praia geraram polémica em Portugal...

5. Miragem

A gestão extra-futebol e o ambiente em torno da comitiva criaram uma das polémicas mais desgastantes e absurdas do estágio em Palm Beach: o mediatismo em torno das idas à praia. Em Portugal, a perceção pública passou a imagem altamente distorcida de que a Seleção passava a vida na praia, numas eternas férias de verão, negligenciando o foco competitivo.

O caso ganhou contornos azedos quando Rúben Dias acusou os jornalistas de amplificar a polémica e fabricar ruído maldoso, mas a verdade histórica desmente essa revolta e aponta diretamente para a própria organização.

A verdade é que a própria assessoria da FPF convidou formalmente os jornalistas e os repórteres de imagem, na segunda manhã de trabalhos em Palm Beach, a irem filmar e fotografar a chamada «ativação física» dos jogadores precisamente no areal da praia.

Para adensar a incoerência da contestação dos atletas, os próprios futebolistas fartaram-se de publicar fotografias e vídeos desses exatos momentos de lazer nas suas redes sociais privadas. Criou-se uma miragem perigosa e uma narrativa altamente ambígua por culpa de quem devia blindar e proteger o grupo das leituras fáceis da opinião pública.

Roberto Martínez e Pedro Proença com o troféu da Liga das Nações, na Cidade do Futebol (Lusa)
Roberto Martínez e Pedro Proença com o troféu da Liga das Nações, na Cidade do Futebol (Lusa)

6. Divórcio

Os problemas desta Seleção Nacional não se limitaram ao retângulo de jogo; estenderam-se de forma clara aos gabinetes e à política interna. Desde a chegada de Pedro Proença à liderança da FPF que foi ficando claro que a nova gestão diretiva não passava pela continuidade de Roberto Martínez no comando técnico.

O treinador espanhol fora uma escolha pessoal da presidência anterior de Fernando Gomes e, como foi tornado público na altura, até surgiu como uma segunda opção após a nega de José Mourinho ao convite federativo.

A conquista da Liga das Nações em 2025 acabou por segurar Martínez no cargo, deitando por terra a ideia de uma substituição imediata antes do Mundial. Contudo, o divórcio institucional estava consumado e a relação entre a equipa técnica e a direção liderada por Proença nunca mais recuperou a harmonia ou a cumplicidade.

Essa fratura ficou totalmente exposta na diferença abismal de discursos públicos ao longo de todo o torneio: enquanto Pedro Proença exigia a presença nas meias-finais, Martínez utilizava uma retórica defensiva, falando meramente em passar a fase de grupos e ir passo a passo.

7. Sombras

O último pecado capital toca na figura mais mediática do futebol português: Cristiano Ronaldo e o seu papel de capitão, por vezes, ausente nos meandros do grupo. Isto mesmo sabendo-se que, num estágio que dura um mês inteiro, com 27 homens fechados nas mesmas quatro paredes, a união granítica e o conceito de «família» pura são mitos ingénuos.

Qualquer pessoa que lide com grupos de muitas dezenas de pessoas (além dos jogadores, há a equipa técnica, o staff, a segurança, a comunicação e os dirigentes) sabe que a criação de subgrupos e afinidades naturais é inevitável; e quem discordar ou achar o contrário que atire a primeira pedra. O problema real surge quando a liderança máxima se isola, aqui e ali, da realidade coletiva da equipa.

Ronaldo recusou ouvir Martínez em pleno relvado, à vista de todos - Foto: IMAGO

Ao longo do estágio e da competição, o ambiente interno ressentiu-se de pequenos focos de mal-estar perante trejeitos de abordagem superior e algum isolamento voluntário por parte de Cristiano Ronaldo em relação ao grosso do plantel. Detalhes subtis e comportamentos de distanciamento que criaram pequenas clivagens e anticorpos num balneário recheado de jovens estrelas que também são figuras proeminentes nos maiores colossos do futebol europeu.

Embora essas marcas fossem guardadas no bolso na hora de entrar em campo para disputar as grandes batalhas, a verdade é que deixaram pequenas sequelas na cumplicidade, afetando a fluidez tática e a empatia psicológica que uma equipa de elite necessita obrigatoriamente para poder triunfar nas grandes decisões.

Conclusão

No balanço final deste adeus melancólico, importa realçar que foi perfeitamente visível que os jogadores portugueses deram muitas vezes tudo o que tinham em campo, lutando com afinco e indo até ao limite absoluto das suas forças.

Esse limite, porém, pelos motivos acima explicados, revelou-se manifestamente escasso e insuficiente para uma competição desta dimensão e exigência. A derrota por 0-1 diante da Espanha, fixada pela margem mínima nos instantes finais, encerra em si uma leitura estatística altamente enganadora para os mais descuidados, camuflando as carências táticas.

No topo das respetivas formas físicas e devidamente adequados às suas posições mais naturais, o limite competitivo deste grupo estaria situado muito acima daquilo que se viu nos relvados americanos. Mais: esta Seleção dispõe de individualidades e de um talento puro que fazem dela uma das melhores composições do mundo. O coletivo, porém, desprovido de uma identidade clara e refém de dogmas de gestão rígidos, deixou a equipa das quinas pelo caminho numa fase embrionária do Mundial.

Ronaldo em lágrimas, após a eliminação de Portugal do Mundial 2026 - Foto: IMAGO

Com o apito final, as lágrimas de Ronaldo inundaram o relvado de Dallas, lavando a alma de um capitão que sabia estar a assinar o seu último capítulo em Campeonatos do Mundo. Hoje, neste deserto americano, a pergunta faz-se num eco de dor e vénia que ficará gravado na história: quanto das tuas lágrimas, Cris, são lágrimas de Portugal

Os sete pecados de Martínez (e não só) cobraram uma fatura pesada ao futebol português. Com a anunciada partida do treinador espanhol, segue-se novo capítulo, no qual muito terá de mudar, sob pena de se perder a oportunidade de potenciar ao máximo uma das mais brilhantes gerações lusas.

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