Mundial
Mundial
Perda de titularidade, a posição preferida e o «ídolo»: tudo o que disse Bernardo Silva
PALM BEACH - Na antecâmara do jogo com a Croácia, referente aos 16 avos de final do Mundial, Bernardo Silva foi o último porta-voz da equipa lusa em Palm Beach Gardens.
-Foi titular contra a RD Congo, jogou 15 minutos contra o Uzbequistão e não jogou contra a Colômbia. Como é que está, tendo em conta que está habituado a ser titularíssimo na Seleção?
-Percebo a pergunta, mas é pouco relevante. Somos muitos, viemos todos para o mesmo. Claro que viemos todos com ambições de jogar, de fazer parte e de contribuir e o treinador tem um trabalho difícil de escolher. Durante a minha carreira, é verdade que nos últimos anos menos, mas numa fase inicial também passei por esses momentos e, portanto, estou habituado. Claro que quero fazer parte, claro que quero contribuir, claro que acho que posso ajudar, mas estou pronto. Estou pronto para ajudar a seleção no quer que seja, seja como disse, como titular, seja a jogar cinco minutos, seja no balneário, cá estarei para ajudar no que for preciso.
- Como é que é estar em contexto de Seleção numa fase final, sabendo que vai para o Real Madrid e trabalhar com Mourinho?
- Não vou responder a perguntas sobre o Real Madrid. Estou num contexto demasiado importante de Seleção para estar focado noutro lugar. Claro que estou muito feliz com a minha mudança, mas estou muito focado na Seleção. As próximas semanas serão de foco total no meu país e em ajudar a nossa Seleção o máximo que puder.
- Neste contexto de mata-mata em que os detalhes podem definir o desfecho de jogo tem alguma superstição?
-Não, não sou muito dessas coisas, gosto de ter as minhas rotinas, gosto de fazer as mesmas coisas, dormir bem, descansar bem, mas não tenho nenhum ritual.
-Se Portugal passar a Croácia passará a jogar apenas em estádios fechados. Pode ser uma vantagem? As condições climatéricas estão a afetar o desempenho da Seleção?
- Eu acho que não, as condições são iguais para as duas equipas. Temos de nos adaptar. As condições nunca serão uma desculpa, os relvados têm estado bons. Temos de fazer o nosso trabalho temos de nos focar no que podemos controlar. É um assunto pouco relevante para nós, temos de nos preparar para a Croácia, seja em estádio aberto ou fechado, e fazer o nosso trabalho ao mais alto nível.
- Vê justiça nas críticas que a Seleção tem recebido?
- Estamos muito habituados, é o nosso trabalho. O futebol é um jogo que envolve muita paixão, ainda mais a Seleção do que clubes. Nós entendemos, eu pessoalmente que já tenho bastante anos de futebol, já estou bastante habituado. Começámos com as pessoas a meterem-nos aqui [em baixo], depois do Uzbequistão aqui [no topo], e agora outra vez mais aqui [novamente em baixo]. Enquanto jogadores, o nosso trabalho é andar sempre um bocadinho aqui [a meio] e não fazer disso uma montanha russa de emoções. Tentar estar o mais estável possível, sabendo que em alguns momentos queríamos estar a um nível mais alto. É perceber o que é que falhou, tentar melhorar e fazer as coisas bem. Mas não queremos andar assim. Sabemos que o Mundial é uma competição difícil, não só para Portugal mas para todas as seleções. Sabemos que há coisas que temos de melhorar, que a crítica faz parte e sabemos lidar com isso. Aquilo que podemos garantir é que estamos todos a dar o nosso melhor para que as coisas corram bem. E a realidade é que já chegámos a uma fase eliminar, estamos numa boa posição para continuar esta nossa caminhada e estamos muito confiantes. Temos coisas a melhorar, mas estamos muito confiantes de que as coisas vão correr bem.
-Aceita bem o facto de ter perdido a titularidade quando há jogadores que têm 270 minutos nesta primeira fase?
- Não é o meu trabalho estar a discutir as opções do treinador, é por isso que temos um selecionador, que tem um trabalho difícil porque temos uma Seleção com muita qualidade em todos os setores. Todos os jogadores vêm com a intenção de jogar, ajudar a nossa Seleção, de fazer parte, e cabe ao treinador tomar decisões difíceis. Quando não nos toca a nós, como nos últimos dois jogos, cabe-nos fazer o melhor possível, apoiar quem está dentro de campo, treinar bem, criar um bom ambiente e acima de tudo, estar prontos para quando a oportunidade voltar a surgir estarmos preparados para resposta e para ajudar a nossa Seleção.
-Tendo em conta as características da Seleção, onde é que acha que as suas qualidades renderiam mais?
-É uma pergunta difícil de responder porque durante toda a minha carreira joguei em muitos sítios diferentes. Até no próprio meio-campo já joguei a 10, a 8, a 6. Acho que as minhas características naturais levam-me um bocadinho mais para um sítio, ainda que tenha passado por muitas posições na minha carreira. É óbvio que ter as rotinas de toda uma época a jogar numa posição e de repente mudar também dificulta um bocado. Mas é difícil responder a isso. Acho que, principalmente também na fase da carreira em que estou, estou mais preparado para jogar em certas posições. Agora, eu se lhe disser que neste momento sou um médio, como joguei quase toda a minha época no Manchester City, estou a ir um bocado contra também tudo o que foi a minha carreira. Em muitos momentos da minha carreira também achava que as minhas posições naturais são mais de médio e o meu treinador do Manchester City [Pep Guardiola] meteu-me muitas vezes a jogar completamente fora dessas posições. Já joguei a falso avançado, já joguei a extremo direito e, portanto, estou preparado para jogar em todas as posições. É óbvio que as minhas características naturais ajustam-se um bocadinho mais às posições centrais ao meio-campo, ainda mais na fase da carreira em que estou, mas eu estou para ajudar. Estou mesmo e onde o treinador achar que é melhor para a seleção cá estarei eu.
-Portugal vai passar de um adversário com grande intensidade física para um que privilegia o controlo do jogo. Parece-lhe que, apesar da enorme qualidade da Croácia, pode ser um tipo de jogo, em certos momentos, mais favorável para Portugal do que o da Colômbia?
-Talvez. É uma seleção europeia, com um estilo de jogo mais parecido com o nosso, vamos ver. É uma seleção com muita qualidade, tenho amigos lá, conheço muito bem o espírito croata, é uma seleção muito aguerrida que tem um amor muito grande pelo país. Isso tem de se provar dentro de campo. Claro que é um perfil completamente diferente.
-É difícil transportar tantas características diferentes e tantos estilos de jogo diferentes para a Seleção?
-É um tema muito relevante em quase todas as seleções. Eventualmente há uma ou outra que tem que tem um estilo muito característico, por exemplo os alemães jogam todos na Alemanha e crescem todos a jogar da mesma forma. Os espanhóis jogam quase todos em Espanha e crescem todos a jogar da mesma forma. E nós não temos essa característica. O nosso futebol é muito diferente. por falta de capacidade financeira dos clubes portugueses de aguentar os nossos jogadores, a maior parte dos jogadores estão a jogar fora e jogam em campeonatos completamente diferentes, estilos muito diferente, Quando não há o tempo que há num clube para preparar, é uma adaptação difícil. O Bruno joga de uma forma muito diferente no clube dele do que o João e o Vitinha jogam. O Nuno Mendes joga de forma muito diferente do que o Cancelo joga no clube dele. E esta adaptação é uma luta constante, não é de agora, é de sempre na Seleção e em muitas seleções. Mas estas competições curtas também são diferentes, em que o pequeno detalhe e a parte mental, a emoção e intuição contam muito. Ainda que eu ache que seja relevante e adorava que Portugal criasse uma filosofia um bocado toda mais parecida para na Seleção conseguirmos ter esse entrosamento mais fácil, a realidade é que não o temos. Mas estas competições curtas não dependem disso. A qualidade individual, o amor e a vontade que vejo nesta equipa em representar o nosso país e em fazer as coisas bem, essa parte emotiva e depois ver onde jogam os jogadores e o que já fizeram e o quão preparados estão para este tipo de competições, acredito verdadeiramente que esse aspeto uma competição curta e a eliminar seja um bocado secundário.
-Depois da eliminação no último Mundial, estava muito dececionado porque sentia que Portugal podia realmente ganhar. Sente também essa união e que Portugal pode mesmo ser campeão do mundo? Tem a mesma confiança de 2022?
- Sem dúvida. senão não estávamos aqui a fazer nada. Chegámos aqui aos Estados Unidos com uma grande ambição de fazer as coisas bem, sabendo que há outras seleções exatamente com as mesmas ambições. Ainda estamos bastante longe de pensar nisso porque temos de olhar jogo a jogo obviamente, mas acredito muito nesta Seleção. Sem dúvida.
-A Croácia é uma seleção que privilegia muito o controlo de bola. Além do fator emocional, o controlo também poder ser um elemento decisivo neste jogo?
-Sem dúvida. Controlar o jogo e com bola, principalmente, que nos faltou um bocadinho no último jogo, é um fator muito importante para a nossa seleção jogar bem. Temos jogadores com um talento brutal e que quando não têm bola acabam por ficar um bocado mais frustrados com o tempo. Sem dúvida que é fundamental encontrarmos esse equilíbrio entre sermos agressivos ofensivamente, por exemplo não fomos tão agressivos contra a RD Congo, mas também não perdermos o controlo emocional e sermos uma equipa com bola. Portanto esse equilíbrio às vezes no futebol é o mais difícil. Tentar ser uma equipa que cria perigo, que é agressiva, que é direta, ao mesmo tempo sem perder o controlo do jogo, que também o perdemos por exemplo um bocadinho contra a Colômbia. Isso vai ser muito importante.
-A imagem que ficou do jogo com a Colômbia fere o favoritismo português no mata-mata? Há alguma dificuldade extra para as seleções europeias, após um dia em que caíram Alemanha e Holanda?
-Em relação ao jogo da Colômbia, sem dúvida que ficamos com a sensação que podíamos ter feito melhor as coisas e queríamos que o jogo tivesse ido noutra direção. Perdemos um bocado o controlo do jogo e há coisas a melhorar. Um grande positivo numa competição a eliminar é que nestas competições nunca vão existir oito jogos perfeitos. Sentir que num jogo que não foi perfeito conseguimos manter a nossa baliza a zero, ser competitivos e, não jogando da forma que queríamos, podíamos, ainda assim, ter ganho o jogo, mostra que esta Seleção está preparada para, no dia em que as coisas não correrem tão bem como nós esperamos, podemos ainda assim ser competitivos e eliminar qualquer seleção. Esperemos que esses momentos aconteçam no mínimo de tempo possível, mas não deixa de ser uma amostra do carácter dos jogadores, que em certos momentos de frustração continuaram a lutar e a acreditar que podíamos ganhar o jogo. Quanto às seleções europeias é assim, no Mundial já não é surpresa nenhuma. As seleções estão todas muito fortes, são todas muito físicas, todas percebem o jogo. Penso que houve uma grande mudança principalmente nos últimos dez anos, o futebol ficou ficou bastante mais táctico, é difícil ganhar jogos de futebol. Aquilo que vimos ontem nos jogos do Brasil, da Alemanha e da Holanda, não me surpreendeu.
-Como avalia a estadia em Palm Beach?
-Foi ótimo, Tem sido fantástico. Têm aqui um sítio excelente, As pessoas foram muito simpáticas connosco. A forma como nos receberam foi simplesmente fantástica e estamos muito gratos por termos passado estas semanas aqui em Palm Beach, por isso só tenho elogios. Já tive a sorte de ter tido a oportunidade de estar aqui e é um lugar que eu gosto muito.
-Como é que Portugal gere a responsabilidade, o favoritismo, e como chega mentalmente aos 16 aos de final, tendo em conta a responsabilidade que tinham de ser primeiros na fase de grupos?
-Queríamos ter terminado o grupo em primeiro lugar, mas não conseguimos. Não é o fim do mundo, mas queríamos fazê-lo melhor obviamente. Mas estamos bem, estamos preparados, sentimos que o jogo contra a Colômbia foi um grande teste para sentir que é difícil jogar contra estas equipas. A Colômbia também fez um grande jogo contra nós. Favoritos não sei, mas seguimos para este jogo com a Croácia com muito respeito por eles e com muita vontade de fazer as coisas bem e de seguir em frente, que é o nosso objetivo.
-Como vê o legado de Luka Modric, que aos 40 anos continua a ser a principal figura da Croácia?
-O Luka é, na verdade, um ídolo para mim. Não só pela forma como joga e se mantém ao mais alto nível, mas também pela forma como se comporta ao longo da sua carreira. Ainda com esta idade estar a jogar neste nível é fantástico, Tive a sorte de jogar contra ele muitas vezes. Cheguei a pedi ai camisola dele num dos jogos entre o Manchester City e o Real Madrid, estou muito feliz por tê-lo feito, é talvez uma das camisolas mais especiais que tenho. Desejo-lhe o melhor, não nos próximos dias porque quero vencê-lo, mas é uma grande inspiração para mim.