Dois ou três pingos de Rafa num enorme deserto de ideias (as notas do Benfica)
Não é, como se sabe, jogador de estar 90 minutos sempre em longas corridas e grandes intervenções, mas tem aquele dom de resolver no detalhe. Bastaram-lhe um par de lances para fazer a diferença: fugiu pela esquerda, combinou com Pavlidis e assinou o primeiro golo oficial do Benfica em 2026/27. Teve ainda uma desmarcação de calcanhar a isolar Pavlidis. Num deserto exibicional tremendo e implacável, dois ou três pinguinhos de talento por parte de Rafa.
(5) Trubin — Nas saídas de bola, arriscou várias vezes a transportá-la até à entrada da área antes do batimento longo, mas quase sempre sem grande critério. Sem trabalho por aí além no primeiro tempo — onde ainda viu alguns remates passarem por cima da barra —, fica a sensação de que podia ter feito melhor no golo de Baldé, já que a bola não lhe passou longe. Redimiu-se pouco depois com uma mancha preciosa, num mano a mano frente ao mesmo Baldé.
(5) Bah — Começou a gasóleo e acabou a gasolina. Cumpridor a defender e um pouco mais acutilante no apoio ao ataque do que Dahl na outra ala, ainda que sem nunca criar verdadeiro perigo.
(6) António Silva — 'Ai se se aleija e a transferência cai; ai se comete um erro e sai pela porta pequena.' Nada disso aconteceu. Apesar de ter milhões de olhos centrados em si, o capitão esteve sereno e não teve erros.
(5) Lenglet — Ainda a assimilar as dinâmicas defensivas de Marco Silva e o entendimento com os companheiros. Noite apagada do francês: lento, sem impacto nos duelos individuais e praticamente nulo na construção. Para coroar a exibição cinzenta, permitiu a Witzig um cabeceamento muito perigoso aos 37’.
(4) Dahl — Corre, sim. Luta, sim. Sua a camisola, também. Mas continua a deixar no ar a sensação de não ter argumentos para ser peça determinante neste Benfica. O corte em cima do intervalo que deu origem ao golo de Rafa é manifestamente pouco.
(5) Miguel Figueiredo — A grande surpresa tirada da cartola por Marco Silva. Na ausência do adoentado Leandro Barreiro, o jovem campeão do mundo Sub-17 assumiu a titularidade sem tremer: mostrou rotação, chegada à área e muita raça. Longe de uma exibição perfeita, provou que pode ser uma opção de futuro muito válida para o miolo.
(5) Manu — Teve nos pés (ou melhor, na cabeça) o golo em cima da hora de jogo, obrigando Ati-Zigi a uma defesa apertada após canto do lado direito. Lutou muito a meio-campo, mas sem nada de importante na construção ofensiva.
(4) Sudakov — Perfume nos pés não lhe falta, mas continua a dever muito à agressividade e ao espírito de luta que se exige a estes níveis. Precisa de espaço para pensar o jogo e a oposição deu-lhe espaço zero, metendo-o várias vezes no chão com entradas ríspidas. Apenas um tiraço no arranque da segunda parte obrigou Ati-Zigi a voar para a barra. Muito curto para quem carrega o 10 nas costas.
(5) Kaminski — Deixou bem patente a sua velocidade estonteante logo a abrir, mas faltou-lhe bola para traduzir essa vertigem em perigo real.
(6) Pavlidis — Entrou em 26/27 exatamente como acabou 25/26: incansável no esforço, mas desinspirado no momento do golo. Disparou perigosamente por cima da barra aos 27’ e teve o seu momento de inspiração em cima do intervalo, ao servir Rafa no espaço para o 1-0.
(3) Barrenechea — Rendeu Miguel Figueiredo e, instantes após entrar, cometeu um erro crasso: falhou o corte de cabeça junto ao poste esquerdo de Trubin e ofereceu o 2-1 a Gaal. Entrada desastrosa do argentino.
(3) Tiago Gouveia — Com as malas quase prontas para o México, entrou com fulgor a substituir Kaminski. Essa chama, contudo, apagou-se ao fim de escassos minutos.
(3) Ivanovic — Pouco mais de 15 minutos em campo no lugar de Pavlidis. Arriscou um par de investidas, mas sem inconformismo nem perigo.
(—) João Rego — Entrou aos 85' para tentar empurrar a equipa numa altura em que o jogo parecia irremediável. Sem tempo.