Mundial
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Leo, o génio humilde
Dizem as regras de uma boa carreira profissional, ou de um qualquer projeto em que nos envolvamos, que é tão importante saber entrar, como saber sair. Aplica-se a todas as situações e, na dimensão superlativa do futebol, é ainda mais significativa, considerando os múltiplos apelos, a sucessiva pressão pública e mediática, com as inerentes dificuldades e dúvidas em relação ao timing ideal.
Para lá de que, sendo cada caso um caso, distinto de todos os outros, tudo depende (e muito!) da sensibilidade, do bom senso e da personalidade dos envolvidos.
Se falarmos de um astro da dimensão de Lionel Messi, temos todos os aspetos que foquei elevados à máxima potência. Ainda para mais, tratando-se de um dos maiores da História do futebol, ombreando com Edson Arantes do Nascimento e com Diego Armando Maradona no pódio dos eleitos.
Finalista de um Mundial por três vezes (Brasil, há doze anos, Qatar, há quatro, e este ano, nas Américas), vencedor numa delas, Messi levou consigo a paixão do jogo e transportou a nação argentina aos píncaros.
Se é certo que, na avenida 9 de julho, a caminho do Obelisco, em cada festejo da seleção das pampas seja complicado perceber se a maioria prefere Maradona ou Messi, tamanha foi a dimensão celestial dos dois futebolistas, não é menos exato perceber que as mais jovens gerações ficam justamente encadeadas pelas performances e pelos resultados obtidos por Lionel. Natural a perspetiva, que isto da memória e do seu impacto nos dias de hoje tem muito que se lhe diga…
Mas há qualquer outra coisa que emana de Messi e dos mais de vinte anos de magia espalhada pelos relvados de todo o mundo, fosse com as camisolas do Barcelona, do Paris Saint-Germain ou do Inter de Miami, fosse com a azul-celeste do seu país: a humildade, esse fator tão marcante e determinante quanto difícil de gerir e demonstrar, sobretudo quando se está habituado a ter o mundo nos pés, e aos seus pés.
E é neste capítulo tão particular que o diez argentino leva a palma a toda a concorrência. O predestinado que coloca um íman na bota para que a bola não lhe fuja, e que a teleguia até ao destino, foi sempre discreto, recatado e dado.
Desde os tempos em que se lhe prediziam glórias, até ao momento em que, por múltiplas vezes na sua carreira, as atingiu, viveu e festejou, o rapaz de Rosário, nascido para a bola no Newell’s Old Boys e refinado em La Masia, mostrou uma maneira de ser pouco normal nas estrelas do jogo, muitas vezes (cada vez mais vezes) preocupadas com a imagem e os sinais exteriores de riqueza e — por vezes — alarmante e provocadora extravagância, alijando a responsabilidade crescente (muito por via da transversal e universal projeção das suas vidas em rede), que as deveria nortear.
Messi manteve-se, desde os idos do início do século XXI, atento ao seu futebol, ao talento inexcedível e inigualável, e à capacidade única de, com ele, alavancar companheiros e equipas rumo aos objetivos traçados. O eu nunca foi a estrela-guia do argentino, que jamais encontrou necessidade, vontade ou vocação para priorizar o recorde do momento, a efervescência de uma exibição ou a volatilidade de um golo, em detrimento da conquista coletiva, trazendo também para os holofotes os que com ele colaboraram em milhares de lampejos de génio.
O argentino sai de cena, na sua seleção, com a tranquilidade com que nela pontificou ao longo dos anos. Assumindo que, aos 39 anos de idade, o seu tempo cessou, o seu ciclo terminou, e que, como mandam os ditames do tempo, é hora de deixar de vestir a camisola argentina, porque outros devem também fazer o seu percurso e trabalhar para o sucesso do seu país.
É uma lição de vida dada por quem, ao longo da carreira, quebrou todas as barreiras, sobretudo num país que vivia à sombra de outro herói dos relvados. Afinal, Maradona também havia sido campeão do Mundo, também havia projetado o país para lá de todas as fronteiras, também havia preenchido o imaginário dos amantes do belo jogo durante anos a fio.
As diferenças entre um e outro, do ponto de vista da personalidade, são abissais, mas os dois completam, de braço dado, a História do futebol num país justamente dividido, tão marcantes foram as duas carreiras.
E o abandono de Messi da sua seleção significa o princípio do fim da magia única do diez de Rosário.
O marido de Antonella, a sua companheira de sempre, vai agora passar mais tempo em casa, e mais passará quando deixar, definitivamente, o Inter de Miami, último emblema com o privilégio de lhe chamar seu.
A lei da vida é assim, e saibamos sempre reconhecer os momentos exatos para sair tão bem como entrámos. Arrastar, teimar, abusar da paciência não foram elementos presentes no raciocínio de Lionel Messi, quando chegou a hora de dizer adeus. Sai em grande, não com o título mundial que tanto desejaria repetir, mas com outros títulos e, acima de tudo, com a dignidade, sobriedade e a lucidez de um grande campeão. Um dos maiores de sempre na História do futebol.
Como diria Pedro Calderón de la Barca, «que o diga o tempo, pois, embora mudamente surdo, ele é o único que, sem dizer nada, diz tudo».
Gracias, Leo. Diez é Dios.
Portugal é dos países em que mais se aborda a arbitragem do futebol. Seja em termos conceptuais, seja na espuma dos dias de cada jogo e de cada decisão nos relvados. Só isso já seria suficiente para que esta fosse, permanentemente, uma área abordada com pinças pelos decisores.
A posição agora tomada, de não divulgação das notas dos árbitros nas competições profissionais, agregada à anulação das presenças regulares, para explicações e pedagogia, em canais de televisão de referência para o futebol nacional (Canal 11 e Sport Tv), não me parecem passos seguros para a impermeabilização do setor. Pelo contrário, contribuirão, pelo menos a curto e médio prazo, para a manutenção de ondas de choque e climas de suspeição que entram em contraciclo com a pacificação desejada, e com a crescente posição de destaque dos principais árbitros portugueses em cotejo internacional.
Aguardo as cenas dos próximos capítulos e, para atenuar este cartão amarelo, fica um último parágrafo de cartão branco: João Pinheiro prepara-se para mais uma nomeação internacional de muito prestígio, para ele e para a arbitragem portuguesa a nível internacional, lá para o final de setembro.
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