Lionel Messi, um nome para a eternidade - Foto: Imago
Lionel Messi, um nome para a eternidade - Foto: Imago

'La última de Leo'

'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

A notícia era esperada. Isso não a tornou menos triste. Lionel Messi deixou a seleção argentina. Escreveu que já não tinha mais para dar. Uma frase estranha quando vem de alguém que passou a vida inteira a dar-nos aquilo que mais ninguém possuía. Um segundo diferente. Um metro invisível. Uma solução onde todos os outros viam apenas pernas, relva e adversários.

Na Argentina, o anúncio foi recebido como se o país tivesse perdido uma parte da sua própria voz. Messi não era apenas o capitão. Nem apenas o melhor marcador. Nem sequer o homem que conquistou o Mundial no Qatar e devolveu aos argentinos uma alegria guardada desde Maradona no México-86. Messi era uma forma de a Argentina se reconhecer.

Durante muito tempo, essa relação foi difícil. Exigiram-lhe que fosse Maradona, como se um génio pudesse repetir outro génio. Cobraram-lhe a infância em Barcelona. O sotaque. Os silêncios. As finais perdidas. Houve quem confundisse timidez com distância e quem entendesse as lágrimas como fraqueza. Messi carregou tudo. Sem discursos inflamados. Sem responder a cada ofensa. Apenas a jogar.

Perdeu finais. Saiu da seleção. Voltou. Continuou. Até ganhar. Primeiro a Copa América. Depois a Finalíssima. Finalmente o Mundial. Logo a seguir outra Copa América. E nesse instante, quando levantou a taça em Lusail, não conquistou apenas o título que lhe faltava. Fechou uma ferida argentina. A partir daí, já ninguém precisava de lhe pedir que fosse Maradona porque nesse momento Messi tinha chegado ao lugar mais difícil de todos. O lugar onde podia ser apenas Messi.

Agora vai embora. Ficam 207 jogos e 125 golos. Ficam os títulos, os recordes, as assistências, as corridas e as fotografias. Fica aquela camisola 10, demasiado pesada para quase todos e estranhamente leve quando vestida por ele. Fica a imagem de um homem pequeno a carregar um país imenso.

Mas os números nunca conseguirão contar Messi. Os números dizem quantos golos marcou. Não dizem quantas pessoas se levantaram de uma cadeira antes de a bola entrar. Dizem quantos adversários ultrapassou. Não dizem o silêncio que se fazia quando recebia a bola perto da área. Dizem quantas vezes venceu. Não dizem aquilo que sentimos quando começava a correr e o mundo parecia inclinar-se na sua direção.

Messi foi uma interrupção das leis do futebol. Vimo-lo chegar ao Barcelona quase em segredo. Um rapaz magro, pequeno, com o cabelo comprido e uma timidez que parecia maior do que ele. Recebeu de Ronaldinho o passe para o primeiro golo e começou ali a passagem de uma época para outra.

Depois, como acontece com os génios, veio tudo muito depressa. Mesmo que tenham passado mais de 20 anos. Vieram as quatro Champions, as Bolas de Ouro. Guardiola. Xavi. Iniesta. O Barcelona que tratava a bola como um idioma secreto. Vieram os duelos com Cristiano Ronaldo, dois homens a empurrarem os limites um do outro a cada jornada. E nós estávamos lá.

Esse é o privilégio que só se compreende quando começa a terminar. Vimos Messi crescer. Vimo-lo mudar de rosto, de cabelo, de posição e de velocidade. Vimo-lo passar de rapaz a homem, de promessa a melhor do mundo, de melhor do mundo a medida de todas as coisas. Vimo-lo sofrer pela Argentina até conseguir fazê-la feliz.

Enquanto isso, também nós mudámos. Há quem ainda vivesse na cada dos pais quando viu o primeiro Messi. Há quem tenha visto aqueles jogos na universidade, num quarto alugado, num café cheio ou numa casa onde já não vive. Há filhos que cresceram a ouvi-lo ser anunciado. Há amizades que começaram e acabaram entre dois golos seus. Há pessoas que já não estão e com quem partilhámos a incredulidade de o ver jogar.

É por isso que a despedida dói de uma forma tão íntima. Não é apenas Messi que deixa a seleção. É uma parte da nossa vida que se fecha com ele. Ao vê-lo partir, fazemos contas aos anos. Pensamos em quem éramos quando apareceu. Nos sonhos que tínhamos. Nas pessoas que amávamos. Na velocidade com que tudo passou enquanto ele transformava a magia numa rotina.

Messi habituou-nos ao impossível. Uma, duas vezes por semana. Durante mais de duas décadas. Víamos, celebrávamos e seguíamos com a nossa vida. Como se na semana seguinte estivesse garantido outro milagre. E estava. Mas nenhum milagre é para sempre.

Pelé despediu-se. Maradona despediu-se. Figo, Zidane, Ronaldo fenómeno e Ronaldinho Gaúcho também saíram de cena. Um dia, não muito distante, será Cristiano Ronaldo a fechar a porta da Seleção Portuguesa. O futebol sobrevive sempre. Aparecem novos jogadores, novos ídolos, novas camisolas para as crianças vestirem. O jogo continua porque não sabe fazer outra coisa. Mas nunca continua exatamente igual.

Com Messi, a sensação é ainda mais funda porque aos 39 anos continua a ser um dos melhores do mundo. Aliás, talvez ainda seja o melhor do mundo. Ainda marca, assiste e inventa. Ainda consegue ser o mais decisivo, o mais mágico, quando o corpo já devia ter começado a impor-lhe os limites. Há pouco tempo, voltou a levar a Argentina a uma final do Mundial. Voltou a mostrar que o talento pode envelhecer sem perder a autoridade.

Talvez por isso este adeus pareça prematuro, mesmo chegando tão tarde. Sabíamos que aconteceria. Apenas não queríamos assistir.

A vida segue, claro. Segue sempre. Mas faltará Leo. E quando faltar Leo, faltará também aquele instante em que todos suspendíamos a razão. Aquele momento em que a bola lhe chegava e alguma coisa dentro de nós voltava à infância. Porque Messi não jogava apenas para ganhar. Jogava para nos devolver a capacidade de acreditar numa coisa bela antes de ela acontecer.

Agora resta-nos o Inter Miami. E daqui por pouco tempo nem isso. Ficará apenas a memória. Mas a memória, como o futebol, tem sempre dificuldade em aceitar o apito final.

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