Do bairro Fim do Mundo a Paris
A menina do Bairro Fim do Mundo, em São Pedro do Estoril, chegou à 1.ª divisão francesa. Os passos iniciais foram na Escolinha de Rugby da Galiza, seguiu-se um projeto com o Cascais (Panteras), depois o Sporting e a emigração para França, onde abraçou o semiprofissionalismo no Stade Francais, clube de Paris. Veste a camisola da seleção nacional e é uma das lobas a subir ao CAR Jamor, Lisboa, hoje, na 2.ª jornada do Rugby Europe Championship (REC 2024). Esta é a história de Adelina da Costa, jogadora internacional, de 22 anos.
«Nasci na Guiné-Bissau e a minha ligação ao râguebi começou quando vim para Portugal, aos 7 anos. Os meus pais precisavam de trabalhar, ainda não podia começar a escola e fui para o ATL. Entretanto, fui convidada para experimentar râguebi e fiquei», sumarizou.
A constituição física ajudou ao convite da Escolinha de Rugby da Galiza, Cascais. «Já era alta, muito grande para a minha idade. Nos sub-10, era maior do que os rapazes», sorriu.
Fixa-se no percurso no clube mergulhado em bairros problemáticos de Cascais. «Comecei nos sub-8, joguei com os rapazes até 14 anos, ainda fiz um jogo com os sub-16, mas, entretanto, fui para o feminino».
E continuou a evoluir de bola oval na mão. «Na Galiza, devido à falta de jogadoras, fez-se uma parceria com o Cascais, criaram as Panteras e joguei lá duas ou três épocas”, antes da escassez de número de jogadoras ditar o fim do projeto. Nessa altura, abrem-se as portas da seleção nacional. «Comecei na seleção em 2018, nos sub-18, fui chamada para as seniores e comecei a minha caminhada».
A nível de clubes, «queria continuar a jogar, recebi propostas e entrei no Sporting, em 2021-2022». De verde e branco, emblema em hegemonia do râguebi feminino em Portugal, colecionou títulos. «No primeiro ano conseguimos todos, se não estou em erro. No segundo ano foram todos, exceto a Supertaça». Na época 2022-23 recebeu uma proposta para ir jogar para Espanha, em Valência (Rugby da Turia). «Falei com os meus pais, mas não estava nos meus planos».
A vida em Paris
Não seguiu viagem. Um ano depois, novo convite, de França. «Desta vez, não pedi autorização aos meus pais e fui!». Partiu para o Stade Francais, clube parisiense que subiu à Elite 1, 1.ª divisão gaulesa. É uma das Pink Rockets (foguetes rosa), como são conhecidas. Num plantel semiprofissional em que «muitas estudam e trabalham», composto por oito estrangeiras, incluindo a portuguesa Isabel Ozório, o clube presta, para melhor integração, um curso semanal de aprendizagem da língua, às terças-feiras. «Entendia o francês do que aprendi na escola».
Não sabe quanto tempo ficará na capital da moda ou em França. «Vou na maré do que vier e nas oportunidades que forem surgindo. Não tenho nada planeado, quero aproveitar e explorar ao máximo o que puder».
Reservada, mas não tímida. «Nos balneários, no campo, sinto-me à vontade. Bloqueio quando não estou no meu ambiente». Vive sozinha no centro de Paris. «Moro na 17.ª arrondissement, no centro. Pago uma casa arranjada pelo clube. À porta encontro sempre uns senhores portugueses a falar. E também temos uma pastelaria portuguesa. Vendem pastéis de nata... adoro os de Belém!»
Adelina da Costa soma cinco internacionalizações na variante XV. Também é internacional em sevens. No caminho feito, mudou o chip em campo. «Há uns anos gostava mais de placar, agora gosto mais de fazer ensaios», destacou a estudante universitária (3.º ano de Engenharia Civil, no ISEL). «Estou no 3.º e último ano do ISEL», explicou. A viver e a trabalhar em Paris, está a estudar «por conta própria». Vem a Portugal «fazer os exames». «Neste momento, a universidade é plano B, mas é para terminar a licenciatura e ver o que râguebi dá».
Estreou-se no Trophy, 2.º escalão europeu, a 4 de dezembro de 2021, no Jamor, numa vitória frente à Bélgica (10-8). Acompanhou o sucesso português no segundo escalão (100% vitorioso) e a ascensão ao Rugby Europe Championship.
Estreou-se (na derrota) frente aos Países Baixos. Em relação à estreia de Portugal na principal competição feminina da Rugby Europe, frente à seleção neerlandesa, sueca e espanhola, desce à terra. «Vamos para ganhar, mas temos de ter a noção da realidade. Viemos de uma divisão inferior e a dificuldade é maior», reconheceu. «O objetivo é a manutenção e chegar ao mais alto nível», realçou a terceira linha.
Em sevens, após a estreia no Trophy, em junho de 2022, em Zagreb, Croácia, um ano depois, disputou as duas etapas do circuito de sevens Women's 7s Championship, no Algarve e os jogos europeus (Cracóvia, Polónia) de qualificação para Paris 2024. As lobas terminaram no 8.º lugar. «Alimento o sonho olímpico, claro que sim», assumiu.