Desejo de Ano Novo
Iniciamos um novo ano e, antes de mais, quero desejar a todos os leitores um bom 2026. Que seja um ano de saúde, de estabilidade e de pequenas vitórias quotidianas, dessas que não dão manchetes, mas fazem a diferença. Desejo-o a quem me lê e desejo-o também para mim. E mesmo não sendo pessoa de superstições, lá fui, na viragem do ano, cumprir o ritual das doze passas, uma a uma, cada uma com um desejo. Talvez mais por tradição do que por crença, mas confesso que este ano houve um desejo que se destacou claramente dos restantes.
Não vou expor listas nem partilhar intimidades. Mas há um desejo que faço questão de assumir publicamente: que a arbitragem em Portugal melhore. Que melhore mesmo. Pode parecer estranho gastar um desejo de Ano Novo nisto, quase um desperdício quando há tanta coisa mais importante e que tantas vezes não está ao alcance da vontade humana. Mas começo a achar que, se não for por intervenção divina, dificilmente será por ação humana. E isso diz muito sobre o ponto a que chegámos.
Não vou falar de lances concretos nem de jogos específicos. Não é isso que me move hoje. O problema já não são apenas os erros, por mais gritantes que sejam. O problema é a reação aos erros. A normalização. A forma como o futebol português aprendeu a conviver com a suspeita, como se ela fosse parte natural do espetáculo. Hoje, como no passado, cada decisão polémica não é analisada apenas como erro ou acerto, retirando-se as devidas ilações e correções a fazer, mas é imediatamente enquadrada numa narrativa antiga, reciclada e profundamente tóxica.
Uma narrativa onde os erros nunca são apenas erros. Onde há sempre uma intenção escondida, um poder oculto, um beneficiado e um prejudicado. Onde se insinua que o futebol português foi, é e continuará a ser controlado por esta ou aquela figura, por este ou aquele clube. Esta ideia está instalada. Não nasceu ontem. Foi sendo construída ao longo de anos. É verdade que houve erros que deveriam ter sido corrigidos, mas, em vez disso, esta narrativa foi sendo alimentada por discursos inflamados, por comunicados estratégicos e por silêncios cúmplices quando dava jeito.
E pior ainda, é reforçada por quem devia ser o primeiro a desmontá-la. Quando ouvimos dirigentes máximos do futebol português sugerirem, mesmo que de forma indireta, que durante anos a arbitragem esteve condicionada por interesses específicos, estamos a validar a desconfiança no presente. Estamos a dizer aos adeptos que, se o passado foi viciado, o presente é apenas uma consequência natural dessa história mal resolvida. Mesmo quando se acrescenta, logo a seguir, que agora os erros acontecem a favor e contra todos, a mensagem implícita já foi passada: se antes fomos prejudicados, agora talvez estejamos apenas a viver uma espécie de justiça tardia.
Este tipo de discurso serve para dar declarações rápidas, para aliviar pressões momentâneas, para falar para dentro e mobilizar adeptos. Serve para o ruído imediato. Mas nunca servirá para melhorar o sistema. Pelo contrário, corrói-o. Porque transforma cada árbitro num suspeito permanente e cada decisão num ato de fé ou de desconfiança, conforme a camisola que se veste ou a bancada que se ocupa.
Enquanto em Portugal andamos presos a este ciclo vicioso, insistindo em discutir o passado para justificar o presente, noutros países discute-se outra coisa. Discute-se como melhorar efetivamente a arbitragem. Como dar melhores condições aos árbitros. Como reforçar a sua independência real. Como protegê-los da pressão mediática, institucional e até pessoal. Não para eliminar o erro, isso será sempre impossível, mas para garantir que, quando ele acontece, ninguém duvide da sua natureza humana. Este discurso continuará a ser feito por todos nós, com diferentes interesses e motivações, é certo, até que quem tem responsabilidades e competências para isso queira e possa mudar alguma coisa.
O VAR nasceu precisamente com esse objetivo. A tecnologia como aliada do jogo, não como substituta do árbitro. Em Portugal, transformou-se num novo foco de desconfiança. Não porque a tecnologia falhe, mas porque a forma como é usada, explicada e enquadrada falha repetidamente. Continuamos sem discutir como poderíamos ter mais transparência, continuamos sem pedagogia e sem uma estratégia clara que proteja o sistema de arbitragem e os próprios árbitros de um escrutínio que, muitas vezes, roça o linchamento público. E, com isso, proteger o futebol.
Às vezes nem precisávamos de ser particularmente criativos. Bastava olhar para fora. Bastava olhar para campeonatos onde os debates são constantes, públicos e incómodos. Onde se testam soluções, onde se assumem erros, onde se tenta melhorar, mesmo sabendo que a polémica nunca desaparecerá por completo. O que muda é a confiança no sistema e a perceção de independência.
É este o debate que devia estar no centro do futebol português, a par da formação e da preparação. Não faz sentido continuarmos a formar alguns dos melhores jogadores e treinadores do mundo e não termos uma ambição clara de formar também alguns dos melhores árbitros do mundo. Não por milagre, mas por método, investimento e coragem nas decisões tomadas.
Estas discussões talvez não encham capas de jornais. Talvez não expliquem derrotas ou vitórias. Talvez não deem conforto imediato ao adepto ferido. Mas são as únicas que interessam a quem quer ver o futebol português crescer, evoluir e ganhar credibilidade.
Quem continuar a fazer exatamente o mesmo que se fez até aqui terá de assumir essa escolha. E assumir também que, no fundo, talvez não queira mudar nada. Talvez apenas queira que o erro mude de lado.