Dedinho do novo mister e golaço que valeu ouro (crónica)
José Mourinho teve uma frase forte quando, há pouco mais de um ano, entrou no Benfica: «Vou meter o dedinho, mas muito controlado». Paulo Fonseca teve a mesma opção e, sejamos sinceros, nem podia ser de outra forma, pois não teve tempo para mais: meteu o dedinho e muito controlado. Há também a famosa frase que, por vezes, acompanha as entradas de treinadores: já se nota o dedo. Não é ainda o caso deste Sporting. A exibição coletiva foi positiva, sim, mas sem deslumbrar.
No fundo, Paulo Fonseca não inventou. Nem tempo para inventar teve. Operou apenas uma alteração relativamente ao último jogo do Sporting para a Liga (Casa Pia): saiu Pedro Lima e reentrou Doumbia. O novo treinador leonino manteve a linha defensiva mais utilizada neste arranque de época (Fresneda, Quaresma, Inácio e Maxi Araújo), em linha com a sua premissa de que «sem defender bem é impossível lutar por títulos».
Isto é, como já se esperava, Fonseca preferiu, para já, dar continuidade às ideias de Rui Borges em detrimento da minirrevolução de Tiago Fernandes na vitória europeia diante do Shakhtar. Já Vasco Botelho da Costa, privado dos lesionados Kiko Bondoso, Parsemain, Francisco Domingues e João Veloso, apresentou-se em Alvalade com três alterações face à jornada anterior: saíram Francisco Domingues, Kiko Bondoso e Tiago Andrade para as entradas de Álvaro Martínez, Songa e Landerson.
O Sporting apresentou-se em campo com uma subtil ‘nuance’ tática relativamente às ideias de Rui Borges: 4x3x3 em vez do habitual 4x2x3x1. Encostado à meia-esquerda, Doumbia completava o trio de meio-campo com Altimira mais recuado e Silas Andersen descaído para a direita. O espanhol fixou-se como vértice mais recuado e, à vez, Doumbia ou Silas — sobretudo o dinamarquês — projetavam-se em zonas de finalização. Por vezes, Doumbia derivava para o meio e juntava-se à mesma linha de Luís Guilherme e Irankunda.
Não houve acordes de violino na primeira parte, apesar de o Sporting ter registado uma percentagem de posse de bola muitíssimo superior à do adversário e de ter construído oportunidades claras, como as protagonizadas por Silas Andersen (14’) e Irankunda (45+1’).
Os leões procuravam, acima de tudo, explorar a largura, com particular incidência pelo flanco direito. O Moreirense, excluindo um remate impressionante de Manuel Mendonça que obrigou Kaique a uma intervenção notável para canto (35’), apostou num bloco baixo muito sólido — com Landerson a dobrar amiúde o lado esquerdo junto a Álvaro Martínez —, preferindo sair em transição apenas com total segurança.
A segunda parte chegou e, com ela, um grande golo anulado a Irankunda por fora de jogo (8 centímetros) de Silas Andersen. Pouco depois, Vasco Botelho da Costa pressentiu o perigo e mexeu: Songa e Vonic saíram, Yan Lincon e Leandro Santos entraram. Este foi fechar o lado esquerdo da defesa dos cónegos, pois parte do perigo leonino estava a ser construído por Luís Guilherme e Silas Andersen, sobre a direita.
Ironicamente, foi do lado direito do ataque dos leões que nasceu o golo que daria o triunfo ao Sporting. E também ironicamente nasceu de um lançamento lateral a favor do Moreirense e junto à área adversária. A bola foi parar a Fresneda, que aliviou para Luis Suárez. O colombiano meteu-a em Doumbia e fugiu pela direita. O italiano correu uns metros e lançou Suárez. Este recebeu a bola, deu a sensação de que temporizava à espera de apoio, mas, de repente, tirou Gilberto Batista da frente e, de pé esquerdo, perto da quina da área do Moreirense, enviou um tiraço que abriu o marcador: golão, golão, golão.
Instantes depois, como estava a ser preparado há alguns minutos, Paulo Fonseca fez as primeiras trocas: Doumbia por Zalazar, Irankunda por Flávio Gonçalves e Luís Guilherme por Geny Catamo. Logo a seguir, Suárez por Ioannidis, com Catamo e Flávio mais abertos e Zalazar ao meio. Uma espécie de 4x3x3 que, por vezes, se transformava num 4x2x3x1.
O último quarto de hora, porém, foi bem mais dividido, com o Moreirense a ter mais posse de bola e a andar mais perto da área leonina. Dinis Pinto ainda teve remate perigoso para bela intervenção de Kaique, mas o tempo esfumou-se sem que, desta vez, o Sporting caísse, como tantas vezes caíra nesta época, nos últimos minutos de muitos jogos.